Em fevereiro de 2022, quando tropas russas entraram na Ucrânia, gritou-se «Somos todos ucranianos!», monumentos foram iluminados com as cores da bandeira da Ucrânia, refugiados ucranianos foram acolhidos, moções de condenação da Rússia em assembleias diversas foram aprovadas, sanções a esta foram aplicadas.
Contudo, perante a tragédia que se desenrola em Gaza, com milhares de mortos — a esmagadora maioria civis, entre os quais não faltam crianças —, bairros inteiros reduzidos a escombros, hospitais destruídos, milhões de deslocados, num cenário que várias organizações internacionais descrevem como uma catástrofe humanitária, de verdadeiro genocídio de um povo, o contraste não poderia ser mais gritante: não se veem nas praças bandeiras palestinianas em massa, não se ouvem declarações oficiais com o mesmo tom indignado, não se multiplicam os apelos comovidos à solidariedade! Onde estão, agora, o “Somos todos palestinianos!”, as moções de apoio ao povo de Gaza, as sanções contra quem este povo barbaramente agride?
A resposta é desconfortável, mas evidente: a empatia internacional tem fronteiras. E essas fronteiras não são morais — são políticas, raciais, culturais.

Jurista
Não se trata de fazer uma equivalência simplista entre os dois conflitos, mas de perguntar: por que razão a vida de um civil ucraniano parece valer mais do que a de uma criança palestiniana?
A Ucrânia é europeia, branca, cristã, próxima do imaginário ocidental. A Palestina é árabe, muçulmana, associada há décadas à violência, ao extremismo, ao “perigo”.
É assim que se constrói uma empatia com filtros: não em função do sofrimento humano, mas da identidade de quem sofre. O que na Ucrânia é ocupação intolerável, em Gaza é “direito à defesa”. O que na Ucrânia são civis resistentes, em Gaza são “escudos humanos”. O que lá é resistência legítima, aqui é terrorismo — mesmo quando a estatística mostra que a esmagadora maioria das vítimas em Gaza são civis.
A guerra na Ucrânia é apresentada como a luta heroica de um povo soberano contra uma superpotência agressora. Em Gaza, o discurso muda: fala-se em “conflito”, em “direito à defesa de Israel”, em “resposta proporcional” — mesmo quando os números desmentem qualquer ideia de proporcionalidade.
A hipocrisia não é apenas política — é também mediática. O tratamento dado aos dois cenários revela uma disparidade gritante. As imagens de famílias ucranianas em fuga foram amplamente divulgadas, acompanhadas de histórias humanas que tocavam a opinião pública. Já os relatos que chegam de Gaza são muitas vezes filtrados, enquadrados numa linguagem que relativiza a tragédia ou a dilui na complexidade do contexto.
O resultado é uma empatia assimétrica, que legitima intervenções num caso e silencia cumplicidades noutro.
A ausência de um grito em defesa do povo palestiniano não é inocente. Reflete décadas de conivência internacional com uma ocupação sustentada por desequilíbrios de poder e protegida por vetos diplomáticos. Quando os mesmos países que se dizem defensores dos direitos humanos se abstêm de condenar massacres evidentes, não estamos perante neutralidade — estamos perante cumplicidade!
Não se trata de fazer uma equivalência simplista entre os dois conflitos, mas de perguntar: por que razão a vida de um civil ucraniano parece valer mais do que a de uma criança palestiniana? Por que se condena num caso e se relativiza noutro?
A credibilidade do discurso internacional sobre os direitos humanos depende da sua coerência. A seletividade moral corrói essa legitimidade e revela a lógica perversa de um mundo onde a justiça é aplicada segundo interesses e afinidades, e não com base em princípios.
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