Os resultados da primeira fase do acesso ao ensino superior trouxeram razões para celebrar. Foram colocados 49.991 estudantes, mais 6.092 do que no ano passado, num crescimento de 13,9%. A Universidade do Algarve acompanhou esta recuperação com números particularmente positivos: recebeu 1.576 novos estudantes, mais 250 do que em 2025, e ocupou 93,9% das vagas inicialmente abertas, acima da média nacional de 88,9%.
Depois surgiu um número que interrompeu a festa.
Entre os quase 50 mil colocados, apenas 1.625 eram beneficiários do escalão A da ação social escolar, correspondente aos estudantes oriundos dos agregados familiares com menores rendimentos. Destes, 1.252 entraram através do contingente prioritário criado para lhes facilitar o acesso. Representam cerca de 3,25% do total de colocados.
A manchete do PÚBLICO resumiu o problema de forma brutal: «O elevador social morreu».

A frase cumpre a função de incomodar. Mas os dados exigem uma leitura mais rigorosa.
Os 3% não significam que apenas 3% dos jovens mais pobres conseguem chegar ao ensino superior. Significam que os beneficiários do escalão A representaram pouco mais de 3% dos estudantes colocados nesta fase do concurso. O escalão A é, além disso, uma categoria administrativa de apoio social e não um recenseamento completo de todos os jovens que vivem em situação de pobreza ou vulnerabilidade.
Esta precisão não torna o resultado tranquilizador.
Em 2025, tinham sido colocados 1.548 estudantes do escalão A entre um total de 43.899. Este ano, o número absoluto aumentou em 77 estudantes, cerca de 5%, mas o conjunto dos colocados cresceu quase 14%. Pela simples divisão dos dados oficiais, a proporção de beneficiários do escalão A desceu de aproximadamente 3,53% para 3,25%.
Entraram mais estudantes carenciados. Mas a base social do ensino superior não se alargou ao mesmo ritmo que o número total de colocações.
As duas afirmações são verdadeiras.
O elevador não morreu, mas não para em todos os andares
Seria historicamente injusto afirmar que Portugal nada fez para democratizar o ensino superior. A percentagem de jovens entre os 25 e os 34 anos com formação superior passou de 32% em 2014 para 43% em 2024. O país aproximou-se da média europeia e transformou profundamente uma universidade que, antes da democracia, estava reservada a uma pequena parte da população.
O elevador social não morreu.
Mas continua a parar mais vezes nos andares onde já existe uma casa com livros, um quarto para estudar, acesso a explicações, computadores adequados, estabilidade financeira e adultos capazes de orientar uma candidatura.
Para quem começa no rés-do-chão, o elevador chega menos vezes. E, quando chega, muitas pessoas já estão cansadas de subir pelas escadas.
A OCDE estimou que 57% dos alunos sem apoio da ação social escolar transitavam diretamente do secundário para o ensino superior. Entre os alunos com menores rendimentos abrangidos pela ação social, essa percentagem era de 48%. No escalão A, que reúne as famílias economicamente mais vulneráveis, descia para 41%.
Esta é uma medida mais esclarecedora do que a percentagem de 3% entre os colocados.
Mostra que o problema não começa no momento da candidatura. Começa muito antes.
O mérito nunca concorre sozinho
Num dos textos publicados nas redes sociais a propósito desta notícia, Cláudia Cruz Santos lembrou que o mérito pode ser enorme e, ainda assim, ter dificuldade em vencer a falta de tempo para estudar.
Há estudantes que trabalham para ajudar a pôr comida na mesa. Que tomam conta dos irmãos enquanto a mãe sai de casa de madrugada para fazer limpezas. Que nunca tiveram livros em estantes nem viajaram para além do lugar onde nasceram. Que dormem mal porque não sabem como será o dia seguinte. Que vivem com depressão, mas esperam meses por uma consulta. Que ajudam a cuidar de um familiar doente porque não existe dinheiro para pagar apoio.
Não são desculpas inventadas para desvalorizar o esforço individual. São condições concretas em que o esforço acontece.
Do outro lado, há estudantes que também trabalham, estudam e merecem os seus resultados, mas dispõem de silêncio, segurança, alimentação adequada, explicações privadas, orientação familiar e tempo protegido para aprender.
Os dois podem sentar-se no mesmo dia diante do mesmo exame.
A prova é igual. O caminho até ela não foi.
Reconhecer esta diferença não significa negar o mérito. Significa recusar a ideia infantil de que uma classificação escolar mede exclusivamente inteligência, esforço e vontade.
Mede também o tempo disponível, a qualidade da escola frequentada, a estabilidade emocional, os recursos familiares, o conhecimento acumulado em casa e a possibilidade de errar sem que um único fracasso comprometa todo o futuro.
A igualdade de oportunidades não exige que todos obtenham o mesmo resultado. Exige que a origem social não decida, antes da partida, quem terá condições para competir.
A desigualdade manifesta-se igualmente na escolha dos percursos escolares. Dados apresentados pela OCDE mostram que 76% dos diplomados dos cursos científico-humanísticos prosseguem estudos, enquanto essa transição acontece apenas com 22% dos jovens provenientes de cursos profissionais. Estes últimos concentram uma proporção particularmente elevada de alunos de famílias com baixos rendimentos.
Quando chega o momento da candidatura, grande parte da seleção social já aconteceu.
O contingente funciona, mas chega tarde
O contingente prioritário para beneficiários do escalão A foi criado em 2023 e reserva 2% das vagas da primeira fase, garantindo pelo menos duas por cada par instituição e curso. Os candidatos continuam a ter de cumprir as condições de acesso e são ordenados pelas suas classificações dentro desse contingente.
Não se trata de oferecer diplomas nem de colocar estudantes sem preparação. Trata-se de impedir que uma diferença relativamente pequena na nota, muitas vezes construída ao longo de anos de oportunidades desiguais, feche definitivamente a porta.
A avaliação realizada pelo Centro de Investigação de Políticas do Ensino Superior concluiu que o mecanismo aumentou a probabilidade de admissão dos estudantes do escalão A, sobretudo nos cursos mais seletivos. Entre os candidatos que obtiveram colocação através da quota em 2023, 41% não teriam entrado naquele mesmo par instituição e curso através do contingente geral.
A medida produz, portanto, resultados.
Mas o estudo revelou também uma falha inquietante: 57% dos estudantes elegíveis não acionaram o contingente. Entre as explicações possíveis estão o desconhecimento da medida, dificuldades no processo de candidatura e limitações financeiras ou logísticas que tornam inútil uma vaga situada longe de casa.
Uma vaga não ajuda quem não sabe que pode pedi-la.
Também não ajuda quem sabe que pode entrar, mas não tem dinheiro para viver na cidade onde foi colocado.
O contingente prioritário atua junto à última porta. Não corrige, sozinho, as desigualdades acumuladas durante 12 anos de escolaridade. Não devolve horas de estudo a quem trabalhou à noite, não substitui as explicações que a família nunca conseguiu pagar, não cura problemas de saúde mental e não liberta um jovem das responsabilidades de cuidar dos irmãos, dos pais ou dos avós.
É uma medida necessária.
Não pode ser apresentada como uma solução completa.
Ser colocado não é o mesmo que conseguir estudar
O anúncio de uma colocação é apenas o início.
Depois chegam a matrícula, a propina, o quarto, os transportes, os livros, o computador, a alimentação e as despesas quotidianas. Para alguns estudantes, chega também a necessidade de conciliar as aulas com muitas horas de trabalho.
O novo modelo de ação social inclui uma Bolsa de Incentivo de 1.075 euros, paga numa única prestação e acumulável com a bolsa de estudo. Os bolseiros deslocados passam igualmente a beneficiar de um complemento mensal de alojamento de 161,14 euros, ao qual pode acrescer uma majoração quando não obtenham vaga numa residência pública. São avanços concretos e devem ser reconhecidos.
Mas uma prestação única não resolve, por si só, o custo de um percurso com vários anos. E uma colocação não deve ser contabilizada como uma vitória definitiva antes de sabermos se o estudante se matriculou, permaneceu no curso e conseguiu concluí-lo.
Existe, contudo, um dado que deveria alterar profundamente a discussão sobre mérito.
A OCDE concluiu que, quando estudantes de diferentes níveis de rendimento entram em programas comparáveis, as taxas de conclusão são semelhantes. Nos cursos mais seletivos, 73% dos estudantes do escalão A concluíram a formação analisada, comparando com 71% dos estudantes de rendimentos mais elevados.
Isto sugere que o problema principal não está numa suposta falta de capacidade dos jovens carenciados.
Está na dificuldade de chegarem à porta certa.
Quando lhes é dada a oportunidade, conseguem corresponder.
O sucesso da Universidade do Algarve
Os resultados da Universidade do Algarve são uma boa notícia para a região. O crescimento de 18,9% no número de colocados, superior à média nacional, demonstra capacidade de atração e recupera a forte quebra registada no ano passado. Dos 46 cursos abrangidos pelo concurso, 33 ficaram sem vagas disponíveis para a segunda fase.
Mas os números divulgados não permitem saber quantos dos 1.576 colocados são beneficiários do escalão A, quantos serão os primeiros membros das suas famílias a frequentar uma universidade, quantos precisarão de alojamento e quantos ponderaram desistir de concorrer por não conseguirem suportar os custos.
Esta informação deveria ser conhecida, de forma agregada e respeitando a proteção dos dados pessoais.
Uma universidade verdadeiramente comprometida com a mobilidade social não deve medir apenas quantos estudantes recebe. Deve saber quem ainda não consegue chegar, quem entra em risco de abandonar e que apoios produzem resultados.
No Algarve, esta responsabilidade ultrapassa a própria Universidade. Exige colaboração entre a academia, as escolas secundárias, os municípios, os transportes públicos, os serviços sociais e o tecido empresarial.
É necessário identificar cedo os alunos com potencial que não veem o ensino superior como uma possibilidade. Levar orientação às escolas, explicar o sistema de candidaturas, criar programas de mentoria, garantir apoio académico, aumentar o alojamento acessível e impedir que a falta de dinheiro para uma caução, um passe ou um computador destrua um percurso inteiro.
A Universidade do Algarve pode ser um dos principais instrumentos de mobilidade social da região.
Mas uma universidade não consegue, sozinha, compensar todas as desigualdades que o território produziu antes de o estudante chegar ao campus.
O que aprendemos, afinal?
Aprendemos que aumentar o número de vagas e de colocados não significa necessariamente reduzir a desigualdade.
Aprendemos que o mérito existe, mas não cresce no vazio.
Aprendemos que os contingentes prioritários funcionam, embora cheguem demasiado tarde para muitos estudantes e continuem a ser desconhecidos por parte daqueles a quem se destinam.
Aprendemos que apoiar o acesso sem garantir condições de permanência é abrir uma porta para um corredor que alguns não conseguem atravessar.
E aprendemos, sobretudo, que os jovens de famílias carenciadas não têm menor capacidade para concluir um curso quando conseguem entrar em condições comparáveis.
A afirmação de que «o elevador social morreu» é poderosa, mas demasiado definitiva. O 25 de Abril não morreu, nem desapareceu a transformação educativa que tornou possível. A sua promessa, contudo, continua por cumprir na totalidade.
A democracia abriu as portas do ensino superior a muitos que anteriormente ficavam de fora.
Agora tem de impedir que essas portas voltem a fechar-se silenciosamente através do preço das casas, da desigualdade escolar, da falta de informação, da necessidade de trabalhar ou da simples ausência de alguém que diga a um jovem: «Também podes chegar lá.»
Um país não se torna meritocrático por repetir a palavra mérito.
Torna-se meritocrático quando procura garantir que o talento não é desperdiçado por falta de dinheiro, tempo, apoio ou esperança.
A pergunta não é apenas quem conseguiu a melhor nota. É quantos talentos perdemos antes de lhes darmos a oportunidade de a mostrar.
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