A próxima crise turística portuguesa poderá chegar com os hotéis cheios, os aeroportos a bater recordes e as praias sem espaço para mais uma toalha.
Esta será a parte mais difícil de compreender: nem todas as crises começam com a ausência. Algumas começam com o excesso.
Durante décadas, reconhecemos uma crise turística pelas reservas canceladas, pelos quartos vazios e pelos aviões em terra. Sabemos temer a falta de visitantes. O que ainda não aprendemos foi a recear um modelo que cresce mais depressa do que o território que o recebe.
A crise do sucesso
Um artigo publicado no jornal britânico i, a propósito de Newquay, na Cornualha, mostra bem o paradoxo. Cerca de 58 mil pessoas deslocaram-se à região para o festival Boardmasters, congestionando estradas e enchendo supermercados. Seria de esperar uma semana extraordinária para o comércio. No entanto, vários empresários disseram que era uma das piores do verão: grande parte dos visitantes consumia dentro do recinto e muitos turistas habituais evitavam a cidade. A multidão estava lá, mas uma parte importante do dinheiro não chegava a quem suportava os seus efeitos. (Kieran Holmes)
Portugal deve olhar para este caso não como uma curiosidade britânica, mas como um aviso.

No Algarve, celebramos cada novo máximo de hóspedes, dormidas, receitas e passageiros. Há razões para isso: o turismo sustenta empresas, cria emprego e assegura rendimento a milhares de famílias. Mas seria irresponsável concluir que, se o turismo é bom, mais turismo será sempre melhor.
Em 2025, o Algarve registou 20,82 milhões de dormidas e 5,34 milhões de hóspedes nos estabelecimentos de alojamento. As receitas turísticas reportadas pelo Observatório do Turismo Sustentável do Algarve atingiram 1,8 mil milhões de euros e o Aeroporto de Faro recebeu mais de 10,4 milhões de passageiros. O relatório regional assinala, porém, pressões relacionadas com a escassez de trabalhadores, a habitação e o aumento do custo de vida.
As duas realidades podem coexistir. Podemos ter mais receitas e menos casas para quem trabalha; mais alojamentos e menos residentes; mais restaurantes, mas maior dificuldade em contratar pessoas que consigam viver perto do emprego. Contamos quem chega, mas não contamos suficientemente quem é obrigado a partir.
Uma multidão não é uma economia
Existe uma ilusão persistente: a de que cada visitante distribui automaticamente riqueza por toda a comunidade. Uma parte da despesa pode ficar em plataformas internacionais, grandes operadores ou empreendimentos fechados, enquanto o destino assume a pressão sobre estradas, água, resíduos e serviços públicos. Uma multidão pode encher um lugar sem enriquecer quem lá vive.
Portugal precisa, por isso, de abandonar a obsessão simplista pelo número de visitantes. A pergunta já não pode ser apenas quantos turistas recebemos. Deve ser quanto valor permanece no território, como é distribuído e que custo social e ambiental foi necessário suportar.
Também não basta falar em «turismo de maior valor» como se a solução consistisse apenas em atrair visitantes mais ricos. Quem paga mais não ocupa necessariamente menos espaço, não consome obrigatoriamente menos água nem provoca menor pressão sobre a habitação.
O verdadeiro valor turístico deve medir-se pelo benefício deixado na comunidade em relação aos recursos utilizados.
O país não é um hotel
Portugal vende-se como um destino autêntico e hospitaleiro, mostrando vilas piscatórias, mercados, centros históricos, tradições e comunidades com identidade própria. Mas não podemos vender autenticidade enquanto afastamos as pessoas que a tornam possível.
Uma vila sem residentes não é uma comunidade. É um cenário. Um centro histórico dominado por alojamentos temporários deixa de ser um bairro. Uma rua onde desaparecem a mercearia, a oficina e os serviços usados pelos habitantes pode continuar bonita nas fotografias, mas perde a sua função e a sua identidade.
Não se trata de culpar os turistas. Eles respondem ao convite que lhes fazemos. Durante anos, o Estado, as regiões, os municípios e as empresas investiram na promoção de Portugal. Não podemos chamar pessoas e depois responsabilizá-las por terem vindo.
Quando o turismo se torna excessivo, o problema não é o visitante. É a falta de planeamento.
A responsabilidade pertence a quem licencia sem avaliar capacidades, promove destinos saturados, permite construção sem assegurar infraestruturas e trata a habitação, a água, os transportes e os serviços públicos como assuntos separados da política turística.
O clima mudará as regras
As alterações climáticas modificarão também os fluxos turísticos europeus.
Um estudo do Centro Comum de Investigação da Comissão Europeia projeta que, em cenários de aquecimento de três ou quatro graus, as regiões costeiras do sul da Europa poderão perder quase 10% da procura turística de verão, enquanto destinos do norte ganham atratividade. Não prevê o fim do turismo no sul, mas uma mudança de calendário: menos procura em julho e maior procura noutros meses. (Joint Research Centre)
Portugal poderá enfrentar crises contraditórias: excesso de visitantes em certos lugares e redução da procura noutros. Um país demasiado dependente de um único setor fica vulnerável tanto ao sucesso excessivo como à quebra inesperada.
No Algarve, esta questão cruza-se com a escassez de água. Não é possível aumentar indefinidamente o número de camas, piscinas e empreendimentos sem o relacionar com a disponibilidade de água, a reutilização, as perdas nas redes e a capacidade futura de abastecimento.
Campanhas de sensibilização são úteis. Não substituem decisões.
Sabemos medir, falta decidir
Portugal não sofre de falta de estratégias, relatórios ou observatórios. A OCDE identifica como essenciais indicadores sobre a satisfação dos residentes, o consumo de água, a mobilidade sustentável, os salários, a qualidade do emprego e o contributo do turismo para os serviços públicos. O mesmo trabalho reconhece que persistem lacunas de informação em várias destas áreas. (OECD)
Medir é indispensável, mas medir sem agir transforma a sustentabilidade numa palavra decorativa. É preciso relacionar a política turística com a habitação, os transportes, a água e o ordenamento. As taxas turísticas devem produzir melhorias visíveis e os locais frágeis podem exigir reservas, controlo de acessos ou limites diários.
Isto não é hostilidade ao turismo. É garantir que continuará a existir algo digno de ser visitado.
Também precisamos de medir o sucesso de outra forma. A satisfação dos residentes, o acesso à habitação, os salários, o consumo de água por dormida, os resíduos e a riqueza que permanece nas empresas locais devem pesar tanto como os números do aeroporto.
Um destino não é sustentável porque recebe turistas durante todo o ano. É sustentável quando quem lá vive consegue continuar a viver lá.
A hospitalidade também precisa de condições
Portugal deve continuar a ser um país de portas abertas. Mas hospitalidade não significa pedir aos residentes que aceitem indefinidamente rendas incomportáveis, congestionamento, escassez de água e serviços sobrecarregados.
Uma população obrigada a sacrificar permanentemente a sua qualidade de vida acabará por deixar de encarar o turismo como uma oportunidade. Quando isso acontecer, o ressentimento procurará um alvo. E o alvo mais próximo será o visitante, mesmo que não seja ele o principal responsável.
O melhor momento para gerir o sucesso é antes de ele se transformar em revolta.
A próxima crise turística poderá não começar com cancelamentos em massa. Poderá começar no dia em que uma enfermeira, um professor, um cozinheiro, um polícia ou uma jovem família deixar de conseguir viver no lugar onde os turistas chegam para conhecer a vida local.
Nesse dia, os hotéis poderão continuar cheios.
O território, porém, estará a esvaziar-se.
Portugal não está preparado para a crise turística que se aproxima porque continua a perguntar como pode receber mais, quando já deveria estar a decidir como receber melhor.
A questão decisiva deixou de ser quantos turistas ainda cabem no país.
É quanto Portugal conseguirá continuar a ser Portugal enquanto os recebe.
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