O debate sobre se a arte, a cultura e a expressão criativa podem ser consideradas medicina está a ganhar força a nível mundial. Inúmeras evidências científicas sugerem que várias formas de expressão artística e cultural, da literatura à música e ao teatro, podem contribuir significarivamente para o bem-estar das pessoas. Esta foi a tónica central da 15.ª Conferência Nexto Culture, realizada em Bielsko Biala, a Capital Europeia da Cultura (CEC) da Polónia em 2026, uma cidade com um histórico de trabalho dedicado a esta temática.
Next Culture: uma rede com visão de futuro
A Nexto Culture é uma rede europeia que reúne Cidades de Cultura e Capitais Europeias da Cultura (CEC), tanto as já designadas como as candidatas, com o objetivo de promover a cooperação e o intercâmbio de conhecimentos e boas práticas em torno do papel transformador da cultura no desenvolvimento das cidades e no bem-estar dos seus cidadãos. A rede foca-se em temas como a inovação cultural, a sustentabilidade e, como se viu na conferência, a relação intrínseca entre cultura, arte e saúde.
A 15.ª conferência, focada no tema “Cultura, Arte e Bem-Estar”, decorreu em Bielsko Biala, na Polónia.
As cidades portuguesas que participam na rede Nexto Culture são:
- Aveiro (candidata a CEC 2027)
- Braga (candidata a CEC 2027)
- Faro (candidata a CEC 2027)
- Évora (CEC 2027)
O poder curativo da cultura
Durante três dias intensos em Bielsko Biala, profissionais qualificados debateram as propriedades curativas da cultura, procurando responder a questões cruciais como a forma de envolver novos públicos através da cultura para promover o bem-estar e como sensibilizar para o papel da arte e da cultura no apoio ao bem-estar individual e comunitário.
A abertura da conferência contou com a participação de uma das maiores especialistas na área, a Professora Christina Davies, diretora do Centre for Art, Mental Health and Wellbeing na Austrália Ocidental. A Professora Davies apresentou a sua premiada iniciativa, “Good Arts, Good Mental Health®” (Boas Artes, Boa Saúde Mental), uma campanha pública pioneira que traduz investigação em ações para melhorar o bem-estar mental através do envolvimento artístico a nível populacional.
Um painel de discussão posterior, intitulado “O que é bem-estar para nós?”, explorou a complexidade do tema sob perspetivas culturais e sociais.
Experiências inspiradoras no Reino Unido e na Europa
O evento destacou diversas iniciativas internacionais que colocam a cultura no centro das estratégias de saúde e bem-estar:
- Leeds Alliance for Health and Wellbeing Network (LAHWN): Este mecanismo inovador em Leeds, estabelecido em 2018, apoia a colaboração entre os setores das artes, cultura, saúde, assistência social e o meio académico. A sua visão é clara: a arte e a criatividade ajudarão Leeds a tornar-se uma cidade saudável, com foco na melhoria da saúde das populações mais desfavorecidas.
- Bradford 2025 UK City of Culture: Bradford apresentou mais de 30 projetos inovadores no seu programa “Creative Health”, aproveitando o poder transformador da cultura para enfrentar desafios sociais e de saúde. A iniciativa inclui um dos maiores projetos de prescrição social do Reino Unido, com projetos como o Bevan (programa de apoio a homens marginalizados com oficinas de carpintaria e mindfulness) e o Bradford Friendship Choir (um coro para requerentes de asilo e refugiados que usa o canto para recuperação de traumas).
- Lublin 2029 e Leuven 2030 (CEC): Outras Cidades Europeias da Cultura, como Lublin e Leuven, também dedicam partes significativas das suas atividades preparatórias à relação entre cultura e bem-estar. Leuven será mesmo anfitriã da conferência “Culture and Care: A Joint Call for Change” em 2026.
O compromisso europeu e o projeto CARE
A União Europeia (UE) está ativamente envolvida neste tema. O Grupo de Coordenação pelo Método Aberto sobre Cultura e Saúde, mandatado pelo Plano de Trabalho da UE para a Cultura 2023-2026, começou a trabalhar em 2024 para recomendar como a UE deve capitalizar a evidência internacional de que a participação em atividades culturais e criativas promove melhores resultados de saúde e bem-estar.

O projeto CARE – Culture for Mental Health propõe uma abordagem criativa e inovadora para a crescente problemática da saúde mental na Europa, que afeta mais de 85 milhões de pessoas. O CARE visa:
- Integrar a arte e a cultura nas estratégias de saúde mental.
- Fomentar a colaboração entre os setores da cultura, saúde, serviços sociais, empresas e educação.
- Promover a participação cultural como ferramenta de melhoria do bem-estar mental de jovens, trabalhadores e comunidades vulneráveis em toda a Europa.
As evidências científicas sublinham os benefícios: a música pode reduzir o stress, as artes visuais melhoram o humor e as visitas a museus estão associadas a melhores relações sociais e redução da solidão em idosos.
Segundo participantes, a 15.ª Conferência Next Culture confirmou que a cultura não é apenas uma fonte de inspiração e inovação, mas uma ferramenta essencial para a saúde pública e a coesão social, marcando uma mudança de paradigma de ver a arte como um mero ornamento para a reconhecer como um pilar fundamental do bem-estar e do desenvolvimento sustentável das comunidades.
Edição e adaptação com IA de João Palmeiro com ECOCNews / Mariateresa Cascino e Serafino Paternoster.

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