Constitucionalmente republicanos, mas monárquicos de coração!
Se alguma dúvida sobre isso houvesse, é, desde logo, observar-se os reis não entronizados pela hereditariedade, mas consagrados pela devoção popular, que grassam de norte a sul do país: o Rei dos Frangos, o Rei do Peixe Assado, o Rei dos Leitões, o Rei das Farturas e outros tais, soberanos do paladar, imperadores da grelha, duques da doçaria ambulante, reinando com majestade à beira de estradas e nas festas populares, sem precisar de decreto, apenas do molho adequado e simpatia de balcão.
Depois, entrando-se no mundo da política, é ver-se como nele não faltam barões, cada um com seu feudo, perpetuando-se na luta pelo domínio e pela influência.

Jurista
Um país onde o povo, embora eleitor, age como súbdito, reverente, cerimonial e encantado com os sinais exteriores de poder como se fossem régios
Por sua vez, na vida associativa, seja ela sindical, empresarial ou, simplesmente, de natureza recreativa, dirigentes abundam a manterem-se nos lugares com tal constância que se supõe serem cláusulas dos próprios estatutos, governando com serenidade ancestral, como se pertencessem a uma linhagem institucional invisível e inquestionável.
Portugal, pois, um país de alma monárquica, ainda que disfarçado por códigos legais e simbolismos republicanos.
Um país onde o povo, embora eleitor, age como súbdito, reverente, cerimonial e encantado com os sinais exteriores de poder como se fossem régios, não sendo por falta de coroa que lhe falta grandeza, mas por excesso de reverência.
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