Nós, seres humanos, entre tantas outras coisas, somos seres profundamente relacionais. Podemos até apreciar a nossa solidão, mas, no fundo, existe em nós uma inquietação subtil: o medo de ficarmos sós.
As conexões e ligações que estabelecemos com os outros vão tecendo uma “rede” que, de alguma forma, nos sustenta. Essa rede oferece-nos uma base estrutural para nos movermos na sociedade e, mais do que isso, proporciona-nos uma sensação essencial: a pertença. A sensação de que fazemos parte, de que temos um lugar no mundo.
Criar laços afetivos — como as amizades, por exemplo — é fundamental, especialmente durante o crescimento. Na adolescência, esta necessidade atinge uma das suas expressões mais intensas, pois os amigos e o grupo de pares tornam-se o centro do universo do jovem.
À medida que vamos amadurecendo, a intensidade e a natureza desses laços vão-se transformando. Novos interesses surgem, outras prioridades ocupam espaço, e diferentes ligações aparecem. No entanto, nunca deixamos de nos relacionar, nem de sentir que estar com os outros faz falta.
Se observarmos com atenção, estamos constantemente ligados a alguém: os vizinhos, o senhor do café, a rapariga da loja, as pessoas com quem nos cruzamos diariamente. Com algumas delas, sabemos até o nome — e é pelo nome que nos cumprimentamos. Muitas vezes, criamos pequenas relações de proximidade, com conversas simples e recorrentes. Esta aparente simplicidade, seja numa relação casual ou mais próxima, é também uma forma de criar laços.
Ter estas ligações afetivas — mais ou menos íntimas, mais ou menos frequentes — faz parte de nós. Integram o nosso quotidiano e são essenciais, não só para a vida em sociedade, mas sobretudo para essa sensação de pertença. É através dela que o ser humano se conhece e se reconhece como membro de um grupo — seja ele a família, os amigos, os colegas ou a comunidade. E isso oferece uma base importante para o bem-estar emocional.
Conversar sobre algo banal, dar um abraço a alguém que nos é importante ou rir às gargalhadas com outra pessoa são experiências simples, mas profundamente significativas. Ficam guardadas em nós e vão construindo um alicerce de alegria, paz e conexão. Esse alicerce contribui para uma visão mais saudável e equilibrada da vida e de nós próprios.
Por sua vez, isto facilita a forma como lidamos com situações mais desafiantes. Quando enfrentamos momentos difíceis, esse “fundo emocional” ajuda-nos a responder com mais equilíbrio, clareza e assertividade.
Importa, no entanto, esclarecer: não é pelo simples facto de termos relações superficiais — como trocar algumas palavras com a vizinha — que, automaticamente, estaremos preparados para lidar com todas as dificuldades da vida. Também não é apenas por sermos sociáveis ou simpáticos que resolvemos os nossos desafios internos.
O essencial aqui é compreender que, quando reconhecemos que fazemos parte de um todo — que, de alguma forma, estamos ligados —, criamos dentro de nós um sentimento de segurança. E essa segurança interna reflete-se no exterior: na forma como nos posicionamos, como nos expressamos e como lidamos com as oscilações da vida.
Cultivar laços afetivos, desde o início da nossa vida e ao longo de todo o nosso percurso, é uma das formas mais saudáveis de nos relacionarmos — não só com os outros, mas também connosco próprios.
- Artigo da autoria de Andrea Moura e Joaquim Caeiro
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