Os portugueses que se reformarem a partir de 2042 serão “os mais penalizados”, já que deverão enfrentar pensões públicas mais baixas, consequência direta das regras de cálculo aplicadas ao sistema contributivo. O aviso foi deixado pelo presidente da Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões (ASF), colocando o futuro das reformas no centro do debate económico.
Em causa não está apenas o valor das pensões, mas a forma como o sistema responde ao envelhecimento demográfico, à evolução do mercado de trabalho e à preparação financeira dos cidadãos para o período pós-atividade profissional.
Um marco temporal com impacto direto
De acordo com o Jornal PT50, Gabriel Bernardino alertou que, a partir de 2042, as taxas de substituição da pensão pública irão diminuir, uma vez que o cálculo passará a considerar toda a carreira contributiva. Este fator penaliza sobretudo quem hoje ainda está longe da idade da reforma.
Segundo a mesma fonte, o responsável abordou o assunto numa conferência da Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões dedicada à poupança de longo prazo, num contexto em que participaram decisores nacionais e europeus ligados às políticas financeiras.
A poupança existe, mas está mal aplicada
Antes de abordar soluções, o presidente da ASF sublinhou que a poupança das famílias portuguesas não é residual. Escreve a publicação que, no terceiro trimestre de 2025, a taxa de poupança atingiu 12,5%, o valor mais elevado dos últimos 20 anos.
Ainda assim, cerca de 84% dessa poupança permanece em depósitos bancários, limitando a sua capacidade de gerar rendimento real e de proteger o poder de compra face à inflação.
“Em Portugal, grande parte da poupança não produz valor e, quando está parada, perde poder de compra devido à inflação”, afirmou Gabriel Bernardino. O responsável apontou a ausência de um ecossistema eficaz que transforme poupança em investimento produtivo. Refere a mesma fonte que os fundos de pensões nacionais gerem cerca de 19,5 mil milhões de euros, um montante reduzido face aos desafios futuros do sistema de pensões.
Críticas ao modelo dos PPR
O presidente da ASF foi crítico em relação ao enquadramento atual dos Planos Poupança Reforma (PPR). Segundo a mesma fonte, estes instrumentos deveriam funcionar como produtos de capitalização a longo prazo, mas raramente cumprem essa função.
Gabriel Bernardino acrescentou que muitos PPR são utilizados sobretudo para benefícios fiscais ou liquidez imediata, referindo ainda que uma parte significativa apresenta rendibilidades inferiores à inflação.
Perante este cenário, o responsável defendeu que a poupança complementar deve assumir um papel estrutural no sistema. “A poupança complementar deixa de ser opcional e torna-se estrutural para poder proteger o nível de vida na reforma”, afirmou, citado pela mesma fonte. Esta mudança implica uma reorganização do modelo atual, com maior articulação entre trabalhadores, empresas e enquadramento legal.
Entre as propostas apresentadas, destaca-se a inscrição automática dos trabalhadores em planos de pensões profissionais de contribuição definida. De acordo com o Jornal PT50, o trabalhador manteria a possibilidade de optar por não participar.
Gabriel Bernardino defendeu ainda a criação de um sistema nacional de rastreamento de pensões, permitindo a cada cidadão consultar numa única plataforma a previsão do rendimento de reforma público e complementar, medida já recomendada pela Comissão Europeia.
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