Uma mulher de 58 anos foi morta em Olhão, no Algarve, alegadamente pela própria filha, depois de anos marcados por agressões, denúncias e uma condenação anterior por violência doméstica. A suspeita, Sandra Gregório, de 40 anos, tinha sido condenada em 2019 a dois anos e oito meses de prisão por agredir a mãe, mas encontrava-se em “ausência ilegítima” desde janeiro de 2024, depois de não regressar ao Estabelecimento Prisional de Tires após uma saída precária.
De acordo com o Notícias ao Minuto, a Direção-Geral de Reinserção e Serviços Prisionais confirmou que a mulher beneficiou de uma “saída de curta duração, preparatória da liberdade, uma vez que já tinha cumprido mais de dois terços da pena a que se encontrava condenada e estava a quatro meses do fim da pena”. A reclusa, no entanto, não regressou à prisão na data prevista. A DGRSP garante que o estabelecimento prisional “procedeu conforme o protocolado para este tipo de ocorrência, comunicando aos diferentes órgãos de Polícia Criminal e aos tribunais que a reclusa não se tinha apresentado na data e hora determinadas”.
Estava em ausência ilegítima desde 2024
Sandra Gregório já tinha estado em fuga no passado, tendo sido detida e entregue ao Estabelecimento Prisional de Tires em agosto de 2021 para cumprir pena. Em janeiro de 2024, voltou a sair da cadeia numa saída precária, mas nunca regressou. A partir daí, manteve-se em ausência ilegítima durante cerca de dois anos e meio.
A DGRSP afirmou ao Notícias ao Minuto que “desconhecia, naturalmente, o paradeiro da reclusa que se encontrava em ausência ilegítima” e que “a morada dada para a permanência durante as saídas precárias era distinta da morada do domicílio da mãe”. A mesma entidade acrescentou que “não havia, determinada pelos tribunais, qualquer proibição de contactos entre a reclusa e a mãe”.
Apesar disso, segundo o Correio da Manhã, a PSP já suspeitaria de que Sandra voltara a frequentar a casa da mãe e de que as agressões tinham continuado. Havia relatos, avisos e denúncias de violência doméstica. Em Olhão, segundo o mesmo jornal, a situação seria conhecida.
PSP terá ido à casa da vítima
Ainda segundo o Correio da Manhã, a PSP chegou a bater à porta da vítima, mas esta negava a presença da filha, possivelmente por medo. A situação acabou por se prolongar até ao crime que chocou Olhão esta semana.
Frederico Morais, presidente do Sindicato dos Guardas Prisionais, considera que o desfecho podia ter sido evitado se houvesse mais efetivos nas forças de segurança, incluindo na Guarda Prisional. “Este desfecho trágico podia ter sido evitado se não houvesse falta de efetivos para lidar com este tipo de situações”, afirmou ao Notícias ao Minuto, explicando que, quando um recluso não regressa de uma saída precária, “não há pessoal” para o ir procurar.
O dirigente sindical defendeu ainda que muitos reclusos só regressam à prisão quando são intercetados por acaso, por exemplo numa operação STOP ou na sequência de outro crime. “Só voltam à prisão quando são apanhados, por acaso numa operação STOP ou a cometer um outro crime. Há demasiados casos como este, infelizmente”, disse Frederico Morais.
DGRSP diz que fez as comunicações devidas
Frederico Morais recordou também que, quando alguém se encontra em “ausência ilegítima”, ou seja, quando não regressa à cadeia após uma saída precária, a pena de prisão não é agravada. Segundo o sindicalista, a consequência passa sobretudo por ficar “sem saídas precárias”. Já um evadido, que foge de um estabelecimento prisional, pode ser condenado “a mais dois anos de prisão”.
A Direção-Geral de Reinserção e Serviços Prisionais rejeita responsabilidades diretas na detenção da reclusa, sublinhando que “a competência para emissão de mandados de detenção é dos tribunais e não desta Direção Geral que efetuou, em tempo útil, as comunicações devidas aos órgãos de Polícia Criminal e aos tribunais”.
O caso deixa, ainda assim, várias perguntas por responder. Como pôde uma mulher condenada por agredir a mãe voltar a aproximar-se da vítima sem ser detida? Que acompanhamento existiu depois da ausência ilegítima? E de que forma foram tratadas as denúncias e suspeitas de novas agressões?
Corpo foi escondido num canteiro
Segundo a investigação, o crime terá ocorrido na segunda-feira, durante uma discussão. Sandra Gregório terá agredido violentamente a mãe, Rogelia Dimas, e asfixiado a vítima até à morte. Depois, terá escondido o corpo num canteiro de uma varanda do apartamento, em Olhão.
A Polícia Judiciária descreveu o caso como “macabro”. O Notícias ao Minuto compara o caso a uma “Crónica de uma Morte Anunciada”, numa referência ao livro de Gabriel García Márquez, pela sucessão de sinais que antecederam o crime. A suspeita terá ainda cortado o cabelo, mudado de visual e preparado uma fuga.
A descoberta do corpo aconteceu depois de uma denúncia feita por alguém “próximo da vítima”, que o Correio da Manhã identifica como um ex-namorado de Sandra. O homem terá estranhado o desaparecimento de Rogelia, sabendo das agressões e ameaças, e alertou a Polícia Judiciária na quarta-feira.
O corpo foi encontrado poucas horas depois e Sandra Gregório foi detida. Na quinta-feira, 16 de julho, foi presente a primeiro interrogatório judicial e ficou em prisão preventiva. Regressou ao Estabelecimento Prisional de Tires, desta vez à ordem do processo de homicídio da mãe.
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