Municípios de várias regiões, incluindo Faro e Loulé, identificaram problemas associados ao Volta, desde o lixo deixado na via pública por quem procura embalagens com depósito até à insuficiência de máquinas de recolha, sobretudo nos concelhos do interior e nas ilhas.
No Algarve, a Câmara de Loulé e a Fagar, empresa municipal responsável pela limpeza urbana em Faro, registaram situações de cidadãos a remexer ecopontos, contentores e baldes instalados nas praias para retirar garrafas e latas abrangidas pelo sistema.
Em alguns casos, os restantes resíduos acabam espalhados na via pública, obrigando a um acompanhamento mais frequente por parte das equipas municipais de limpeza.
Fagar pede articulação com entidade gestora
O presidente da Fagar, Pedro Coelho, explicou que a dispersão de resíduos está a exigir um “acompanhamento mais frequente das zonas onde o fenómeno apresenta maior incidência”.
Além de campanhas de sensibilização, a empresa municipal de Faro defende a criação de “mecanismos conjuntos de monitorização, comunicação e articulação” entre a entidade gestora do Volta e os operadores responsáveis pela recolha de resíduos.
O objetivo seria garantir o “reporte e a resolução célere de ocorrências”, incluindo situações em que as máquinas de devolução estejam temporariamente indisponíveis.
A Câmara de Loulé propôs, por sua vez, que os equipamentos usados para depositar embalagens sejam dotados de sistemas invioláveis.
A autarquia defendeu também o reforço da fiscalização e a aplicação de coimas, reconhecendo, contudo, que essa solução exigiria mais recursos municipais.
Em último caso, o município admitiu que poderá ser necessário rever o próprio modelo de recompensa.
“A introdução de um sistema que pretende aumentar a taxa de reciclagem e redução de deposição em aterro não se pode tornar uma fonte de insalubridade”, alertou a Câmara de Loulé.
Funchal também regista mais lixo nas ruas
O mesmo problema foi identificado no Funchal, onde a autarquia verificou uma “crescente tendência para a retirada de resíduos, nomeadamente de embalagens de plástico, das papeleiras e contentores de pequenas dimensões”.
Os resíduos deixados no chão podem atrair pragas urbanas e estão a aumentar os encargos do município com trabalhadores, viaturas e combustível.
Em Lisboa e no Porto, as autarquias também têm acompanhado situações provocadas por pessoas que remexem contentores para procurar embalagens com o símbolo Volta e receber os dez cêntimos pagos como depósito.
Já os municípios de Santa Cruz, na Madeira, Beja e Castro Verde indicaram não ter registado problemas significativos. O presidente da Câmara de Beja, Nuno Palma Ferro, reconheceu apenas alguns casos de “papeleiras remexidas à procura de ‘garrafitas’”.
Falta de máquinas penaliza concelhos do interior
A escassez de pontos de recolha constitui outra das principais dificuldades identificadas.
Em Castro Verde, existe apenas uma máquina em funcionamento, situação que levou o vice-presidente da Câmara, David Marques, a defender o reforço dos equipamentos disponíveis.
Em Miranda do Corvo, os dois maiores supermercados da vila dispõem de máquinas, mas a União de Freguesias de Semide e Rio de Vide, a segunda zona mais populosa e uma das mais afastadas da sede do concelho, continua sem qualquer ponto de devolução.
Mogadouro conta apenas com dois equipamentos instalados em superfícies comerciais. Os responsáveis locais consideram esse número “manifestamente” insuficiente para responder à população da cidade e do concelho.
Os comerciantes relataram a formação de filas junto às máquinas. Na maior superfície comercial de Mogadouro, os equipamentos são esvaziados, em média, 20 vezes por dia, número que deverá aumentar em agosto com o regresso dos emigrantes.
Em Boticas existe um único ponto de entrega, localizado na sede do concelho. Para muitos habitantes idosos e residentes em locais isolados, a alternativa é viajar até Chaves, a mais de 20 quilómetros.
Comerciantes apontam mais trabalho
Em Chaves, Paulo Pinto, empregado de mesa num restaurante junto ao rio Tâmega, explicou que nem sempre é fácil conservar as embalagens em condições para devolução ou impedir que os clientes as danifiquem ou levem consigo.
O estabelecimento apenas pode cobrar os dez cêntimos adicionais nas vendas em regime de take-away.
Ana Costa, proprietária de um pequeno café próximo, afirmou não encontrar vantagens no sistema, considerando que trouxe “mais trabalho para os comerciantes, que têm de ir entregar as embalagens às máquinas instaladas nos supermercados”.
Na Figueira da Foz, os estabelecimentos adotaram soluções diferentes. Nas superfícies comerciais com zonas de alimentação, as embalagens deixadas pelos clientes acabam encaminhadas para instituições às quais é possível doar o valor do depósito.
Nos restaurantes e pastelarias, os dez cêntimos pagos aos distribuidores são transferidos para o preço cobrado ao cliente. Quando este deixa a embalagem no estabelecimento, o depósito pode representar uma receita adicional para o comerciante.
A Associação Desportiva Naval Remo criou nas suas instalações, junto à zona ribeirinha da cidade, um ponto de recolha para financiar o clube, depois de observar atletas mais jovens à procura de garrafas e latas abrangidas pelo sistema.
Quatro ilhas dos Açores continuam sem pontos de devolução
Nos Açores, quatro das nove ilhas não dispõem de qualquer ponto de recolha: Flores, Corvo, São Jorge e Graciosa.
O presidente da Câmara do Corvo, Marco Silva, confirmou que o sistema ainda não funciona na ilha e afirmou que o município não foi contactado por qualquer entidade para preparar a sua implementação.
O Governo Regional dos Açores indicou que os centros de processamento de resíduos vão passar a receber as embalagens nas ilhas sem equipamentos, ressalvando que a responsabilidade pela implementação pertence ao Sistema de Depósito e Reembolso.
Consumidores recuperam dez cêntimos por embalagem
Em funcionamento desde 10 de abril, o Volta permite aos consumidores recuperarem os dez cêntimos pagos no momento da compra de garrafas e latas de utilização única, com capacidade inferior a três litros.
As embalagens abrangidas, feitas de plástico, metal ou alumínio, podem ser entregues nos mais de 2.500 pontos de recolha distribuídos pelo país.
A.Pinto / HDF
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