Portugal preserva inúmeros locais emblemáticos do seu percurso histórico, alguns dos quais se tornaram referências da arquitetura e destinos turísticos de destaque. Entre esses espaços, existe uma unidade hoteleira que se afirmou como símbolo de sofisticação e inovação no coração do interior do país. A sua fundação remonta ao início do século XX, mas a narrativa que lhe conferiu notoriedade teve início ainda antes.
Um palácio a norte
O Vidago Palace é um desses exemplos. Trata-se de um palácio convertido num dos hotéis mais reconhecidos de Portugal, localizado na freguesia de Vidago, no concelho de Chaves, no norte do país. Apesar das várias dificuldades que enfrentou ao longo do tempo, o espaço foi recuperado e continua a representar o luxo e a distinção a nível nacional.
Tudo começou por volta de 1860, quando um agricultor bebeu água de uma nascente local e sentiu um alívio imediato de dores abdominais. A história correu depressa e despertou a atenção de um médico, que mandou analisar a água. Com as propriedades terapêuticas confirmadas, surgiram as primeiras estruturas termais e a vila passou a atrair numerosos visitantes à procura de tratamentos.
A génese do grande empreendimento
Com a procura em crescimento, surgiu o primeiro Grande Hotel, mas cedo se percebeu que seria necessário um projeto mais ambicioso. Nasceu então a ideia de construir uma unidade hoteleira que pudesse rivalizar com as melhores da Europa. Os planos foram concluídos em fevereiro de 1908, mas o regicídio ocorrido nesse mês atrasou o arranque da obra. Ainda assim, a construção prosseguiu pouco depois.
A abertura estava prevista para 6 de outubro de 1910. No entanto, um dia antes, a monarquia foi abolida e instaurada a república. D. Manuel II, que devia presidir à inauguração, partiu para o exílio. O hotel abriu portas sem a presença da família real, mas manteve o esplendor com que havia sido idealizado.
Inovação ao serviço da hospitalidade
De acordo com o NCultura, o Vidago Palace foi o primeiro hotel português a disponibilizar elevadores e telefones nos quartos. Contava com 365 janelas, simbolizando os dias do ano, e os salões eram alimentados por eletricidade. Os quartos dispunham de duches e frigoríficos elétricos, algo raro na época. Até uma garagem foi construída, apesar do reduzido número de automóveis em circulação no país.
O arquiteto Miguel Ventura Terra chegou a propor um edifício ainda mais arrojado, no cimo de um monte e acessível por teleférico. A proposta foi recusada por motivos financeiros. A localização foi então revista e o projeto final foi entregue a António Rodrigues da Silva Júnior. Ainda assim, o resultado manteve a imponência e o carácter inovador no contexto nacional.
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Um marco de uma geração
O investimento rondou os 300 mil contos de réis, o que hoje equivaleria a cerca de 120 milhões de euros. As tarifas diárias incluíam refeições e custavam dois escudos, sem bebidas alcoólicas. Segundo a mesma fonte, em 2005, uma noite já ultrapassava os 80 euros. Atualmente, em época baixa, os valores podem chegar aos 200 euros. O hotel consolidou a sua reputação como símbolo de elegância ao longo dos anos.
Recebeu figuras, como Salazar, Egas Moniz e António Spínola. Destacou-se também pela sua escadaria central, muitas vezes comparada à do Titanic. Mais tarde, foi construído um campo de golfe de nove buracos, inaugurado em 1936, que ainda hoje ocupa parte dos terrenos circundantes e reforça a vertente de lazer do empreendimento.
Um declínio anunciado
Com o passar do tempo, as termas foram sendo preteridas em favor das praias e novos empreendimentos turísticos surgiram no litoral. A procura pelo Vidago Palace foi diminuindo e, em 2006, a UNICER decidiu encerrar a unidade para dar início a obras profundas. O objetivo era reposicionar o hotel, modernizando as instalações e recuperando o prestígio original.
As obras representaram um investimento de 48 milhões de euros e prolongaram-se por quatro anos. A estrutura interior foi totalmente renovada, mantendo-se apenas a fachada original. As peças de valor histórico foram catalogadas e recolocadas nos respetivos locais. O número de quartos foi reduzido de 200 para 70, elevando o padrão de conforto.
Do passado para o ecrã
Em 2017, o Vidago Palace serviu de cenário para a minissérie luso-espanhola “Vidago Palace”, cuja ação decorre em 1936. A produção contou com a participação de atores como Pedro Barroso e Mikaela Lupu e estreou na plataforma HBO, dando uma nova projeção ao hotel e mostrando os seus espaços interiores, jardins e ambiente histórico.
Hoje em dia, o Vidago Palace mantém-se como uma referência do turismo nacional. Combinando herança histórica, comodidade e sofisticação, continua a atrair visitantes nacionais e estrangeiros. A intervenção de requalificação respeitou a identidade do edifício e permitiu-lhe atravessar gerações, mantendo-se como um dos locais mais prestigiados de Portugal.
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