As igrejas em Portugal são, por tradição, lugares de culto e espiritualidade, mas muitas delas ganharam também uma dimensão cultural e turística. Por exemplo, o Santuário de Fátima, a Igreja de São Roque e a Torre dos Clérigos atraem milhares de visitantes todos os anos. No entanto, há templos menos conhecidos que também ‘merecem’ a atenção dos turistas portugueses e estrangeiros.
Situada na lezíria de Vila Franca de Xira, a Igreja de Nossa Senhora de Alcamé destaca-se pela sua localização singular e pelo valor arquitetónico que apresenta. A construção remonta ao século XVIII e foi projetada por José Manuel de Carvalho e Negreiros, a pedido de D. Tomás de Almeida, o primeiro Patriarca de Lisboa. O edifício resulta de uma combinação entre o barroco, o maneirismo e influências da arquitetura militar.
Ermida está isolada no meio do campo
Os campos que envolvem a igreja são planos e férteis, sujeitos às cheias regulares do rio Tejo. Para responder a essa realidade, a ermida foi construída sobre uma plataforma elevada, o que lhe confere um caráter imponente e isolado no meio da lezíria. A devoção a Nossa Senhora de Alcamé, considerada padroeira dos campinos, está na origem de uma tradição secular.
No final do século XIX, agricultores da região, com o apoio da Companhia das Lezírias, organizaram a primeira romaria em honra da padroeira. Esta prática religiosa manteve-se até ao período que se seguiu à Revolução de 1974. Após alguns anos de interrupção, a tradição foi retomada em 2021, graças à iniciativa do Rancho de Varinos de Vila Franca de Xira e com o apoio da Câmara Municipal, da Junta de Freguesia e da paróquia local.
Abre ao público apenas em junho
Atualmente, a igreja só está aberta ao público durante a romaria que ocorre em junho. Fora dessa celebração, o templo permanece encerrado, preservando a sua imagem de lugar recatado e quase secreto. A sua presença solitária na lezíria continua a atrair os olhares dos curiosos, mesmo à distância.
A descrição arquitetónica do edifício publicada no portal Monumentos.pt revela que se trata de uma ermida de grandes proporções, com planta longitudinal, nave única e capela-mor ao mesmo nível. O corpo da igreja apresenta uma ábside envolta por estruturas anexas que servem de sacristia e acesso à torre sineira. Os volumes e curvas que se contrapõem a superfícies retas reforçam o dinamismo típico do barroco.
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Semelhanças com a Ermida de São José
Existem paralelismos entre esta ermida e a contemporânea Ermida de São José, também situada na lezíria e ‘provavelmente’ desenhada pelo mesmo arquiteto. A principal diferença está na forma como a Ermida de Alcamé se impõe no território plano, destacando-se como um marco visual na paisagem aberta.
Para lá chegar, é necessário percorrer oito quilómetros por uma estrada de terra batida que atravessa campos agrícolas. Esta distância aumenta a sensação de isolamento do monumento e contribui para o seu fascínio. Ao longo do caminho, a paisagem mantém-se despida e sem grandes referências.
Percurso até à igreja leva-o numa viagem no tempo
A aproximação à ermida é também uma viagem no tempo. Durante décadas, estes terrenos, com cerca de 5.000 hectares, eram trabalhados por centenas de homens e mulheres. Em épocas de maior laboração, como a colheita, vinham trabalhadores de outras regiões em busca de sustento.
A construção da capela foi uma decisão tomada para fornecer apoio espiritual a esta vasta comunidade agrícola. A palavra “Alcamé” tem origem no termo árabe “achmé”, que significa trigo, sublinhando a ligação entre a igreja e a atividade agrícola predominante na região.
Pode ser vista ao longe
Sem outras construções nas proximidades, a ermida adquire uma imponência ainda maior. Erguida com grandes dimensões, podia ser avistada a longa distância pelos trabalhadores, servindo como um ponto de referência e fonte de alento durante as duras jornadas.
Hoje, a igreja já não cumpre essa função de apoio diário, mas continua a vigiar silenciosamente a planície. A sua presença solitária mantém-se como testemunho da história e da devoção que marcaram a lezíria de Vila Franca de Xira ao longo dos séculos.
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