Uma lenda de Aljezur conta que uma feijoada de batata-doce terá ajudado os Cavaleiros de Santiago a conquistar a vila aos mouros em 1249. A história atribui ao alimento parte do vigor demonstrado pelos homens comandados por D. Paio Peres Correia, mas contém um problema reconhecido pela própria fonte: existe uma incompatibilidade cronológica com a chegada efetiva da batata-doce à Europa.
Aljezur foi fundada pelos Árabes no século X e tomada em 1249. A tradição citada pelo portal Produtos Tradicionais Portugueses conta que, antes de batalhas importantes, os Cavaleiros de Santiago recorriam a uma espécie de “poção” preparada com batata-doce como complemento alimentar.
Feijoada teria dado forças aos cavaleiros
Segundo a lenda, os homens liderados por D. Paio Peres Correia chegaram ao castelo de Aljezur com um vigor que terá surpreendido os defensores. A rapidez do ataque é descrita como determinante para uma conquista à qual os mouros não terão conseguido responder.
A suposta “poção” responsável por essa força seria, afinal, a chamada feijoada de batata-doce de Aljezur. A narrativa atravessou gerações e ficou associada tanto à história da conquista como à importância que este alimento viria a assumir na região.
Há um problema com as datas
A própria fonte, contudo, chama a atenção para uma “dissonância cronológica” entre a lenda e a efetiva introdução da batata-doce na Europa. Ou seja, a história que coloca este alimento nas mãos dos cavaleiros em 1249 não encaixa na cronologia conhecida da sua chegada ao continente europeu.
Isso não impede que a narrativa continue a fazer parte do património popular de Aljezur. A mesma fonte distingue precisamente a lenda da realidade histórica e sublinha que, independentemente da veracidade do episódio, a cultura da batata-doce possui raízes profundas naquela região.
Batata-doce de Aljezur tem características próprias
A variedade associada à indicação geográfica protegida é a Lira, apresentando normalmente forma alongada, casca de tonalidade púrpura ou castanho-avermelhada e polpa amarela. Cada exemplar pode pesar entre cerca de 50 e 450 gramas.
Entre as características destacadas encontram-se o sabor adocicado e a textura pouco fibrosa. Quando consumida crua, a mesma fonte refere ainda que pode apresentar um sabor semelhante ao da castanha, uma particularidade atribuída ao produto cultivado nesta área.
Colheita concentra-se sobretudo em outubro
O processo começa normalmente em fevereiro, com a instalação do viveiro, seguindo-se a transplantação para o terreno definitivo durante abril ou maio. A cultura permanece aproximadamente quatro meses no solo e grande parte da colheita realiza-se em outubro, quando as raízes atingem a maturação e não existe excesso de humidade.
Depois de retirada da terra, a batata-doce passa ainda por um período de cerca de oito dias de “cura”, ficando sobre o terreno para promover a cicatrização de cortes e outras pequenas lesões. Só posteriormente é limpa e armazenada num espaço fresco e arejado, a temperaturas médias próximas dos 13 ou 14 graus.
Produção ultrapassa as fronteiras de Aljezur
Apesar do nome Batata-doce de Aljezur IGP, a área geográfica reconhecida não se limita ao município algarvio. Além do concelho de Aljezur, abrange também as freguesias de São Teotónio, São Salvador, Zambujeira do Mar, Longueira-Almograve e Vila Nova de Milfontes, no concelho de Odemira.
A ligação do produto a Aljezur permanece, contudo, profundamente enraizada nos hábitos alimentares e na tradição local. E mesmo que a feijoada que alegadamente alimentou os cavaleiros em 1249 não resista à cronologia, a lenda continua a associar uma das culturas mais conhecidas do concelho a um dos episódios históricos mais marcantes da vila.
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