Os romances do autor japonês Kazuo Ishiguro continuam a surgir, com novas cores nas suas capas artísticas, em formato de mosaico, nestas belíssimas edições da Gradiva. Um pouco como a visão da sua protagonista de Klara e o Sol, um robot que via o mundo numa sobreposição de painéis, assim são as novas capas desenhadas como um azulejo de rostos, objetos e tons que insinuam pistas de leituras e se complementam.
A sua escrita é, por regra, cristalina e envolvente, e os seus enredos enigmáticos e ambíguos. De modo geral, o presente e o passado explorados na narrativa não parecem interligar-se cabalmente… mas muitas vezes há enigmas nas suas obras que pedem para ser desvendados…, contudo revelá-los nestas recensões seria estragar o prazer da leitura.
Depois das reedições de Klara e o Sol e Nunca Me Deixes, já aqui apresentados, saíram também com novas capas os romances Os Despojos do Dia, As Pálidas Colinas de Nagasáqui e Quando Éramos Órfãos. A compor a estante, surgem agora mais dois livros do autor: O Gigante Enterrado e Um Artista no Mundo Flutuante.

Doutorado em Literatura na UAlg
e Investigador do Centro de Investigação em Artes e Comunicação (CIAC)
Em Os Despojos do Dia (1989), vencedor do Booker Prize e adaptado ao cinema, com interpretações de Anthony Hopkins e Emma Thompson, a ação decorre no período pós-guerra em Inglaterra, em 1956, quando Stevens, um mordomo, empreende uma viagem de carro que é também o mote para uma digressão ao seu passado. Ao fim de três décadas de serviço incondicional, este mordomo dá por si a rever o seu passado, a sua lealdade para com o senhor da casa, Lord Darlington, figura moralmente duvidosa, mesmo que Stevens o tenha servido sempre incondicionalmente, procurando ignorar as falhas do patrão. Este mordomo que procurou ser sempre um modelo de dignidade e das regras de etiqueta (considere-se, a título ilustrativo, essa série de costumes que é Downton Abbey que tão bem procura retratar o modo de vida e os dilemas da criadagem de uma grande casa senhorial) pode parecer ao leitor uma figura pouco simpática, pela sua reserva e conservadorismo, mas cuja verdadeira natureza humana, cheia de dúvidas e remorsos, se vai revelando mais e mais, até ao reencontro entre Stevens e Miss Kenton em que ela lhe confessa como tentou que ele respondesse aos seus sentimentos e afecto.

Nunca Me Deixes (2005), nomeado para o Booker Prize, conta-nos uma extraordinária história que varia em muito em termos de género das suas obras anteriores, como é aliás habitual neste autor, incorrendo nos meandros da ficção científica. Alguns críticos encararam a história como chocante, o que não invalidou a sua adaptação ao cinema, contando com interpretações de uma geração mais jovem de autores como Keira Knightley, Carey Mulligan e Andrew Garfield. O tema do livro é uma visão da humanidade confrontada com a sua própria fragilidade, a sua mundanidade e o seu desejo de imortalidade pois o leitor aperceber-se-á que as personagens de Kathy e Tommy, estudantes em Hailsham, a melhor e a mais privilegiada das escolas, sujeitos a uma vigilância constante e a testes médicos semanais, são afinal clones, que vivem vidas breves e vazias, criados pelo Estado com a função única de gerarem e providenciarem órgãos saudáveis aos cidadãos britânicos.
As Pálidas Colinas de Nagasáqui é, na verdade, a obra de estreia do autor japonês, publicada em 1982.

Etsuko é uma mulher japonesa que vive em Inglaterra, divorciada, com duas filhas de dois homens diferentes. Keiko, a sua filha mais velha, suicidou-se recentemente. E Niki, nascida em Inglaterra, vive com o namorado em Londres mas não tem qualquer intenção de se casar ou ter filhos. Niki tem aliás um nome que resulta de um acordo entre a mãe japonesa e o pai inglês, que insistia que a filha tivesse um nome japonês. Logo nesta informação, avançada nas primeiras linhas do romance, sente-se que a tradição parece aqui colocada em causa… e de facto, é isso que se sentirá ao longo do livro. Como transparece também na relação entre Jiro, o primeiro marido de Etsuko, que menospreza o pai em prol da sua ambição profissional, ou na amiga que vive obcecada com o americano que um dia poderá levá-la para a América, apesar de pressentir que não passa de uma ilusão e de lhe maltratar a filha.
Quando Niki visita a mãe durante os dias chuvosos e frios de Abril, em sequência do suicídio da irmã, a cujo enterro não compareceu, Etsuko dá por si numa retrospetiva dos primeiros tempos da sua gravidez, nos anos seguintes à destruição de Nagasáqui, em que continua presente o impacto da bomba na vida dos que sobreviveram, e revive as memórias da sua amizade com Sachiko, uma mulher que perdeu a sua fortuna e a sua boa posição devido à guerra e vive agora numa casa pobre, com uma filha rebelde e peculiar.

Uma história absorvente e enigmática, cheia de camadas, onde as respostas se escondem de forma pouco óbvia mas estão bem à vista.
Sobre Um Artista do Mundo Flutuante, a intriga decorre entre outubro de 1948 e junho de 1950, época em que o Japão recupera da Segunda Grande Guerra e está em franca reconstrução e reorganização, inclusive em termos culturais. Pela voz do mestre pintor Masuji Ono, ficamos assim a conhecer um país em busca de uma nova identidade e fôlego, ao mesmo tempo que apesar de já estar na reforma acompanhamos a memória desse período conturbado, época que coincide ainda com a formação do então jovem pintor.
O Gigante Enterrado
Não contando com os contos de Nocturnos (2009), O Gigante Enterrado foi o regresso do autor ao romance, em 2016.
Da mesma forma que a ficção científica não tem apenas a ver com naves e robots, mas sim com as grandes questões existenciais da Humanidade e da ausência ou da possibilidade de um futuro melhor, quer seja ou não suportado por uma evolução tecnológica, a fantasia e a alegoria permitem atentar no real e no ordinário tão ou mais eficazmente do que um retrato cruamente realista dessa mesma realidade. O Gigante Enterrado tem sido considerado como uma obra de fantasia (ressalve-se na capa do romance a citação de um dos mais aclamados contemporâneos autores de fantasia, Neil Gaiman, que escreveu sobre este romance no The New York Times), onde o mito e a memória, a alegoria e a imaginação, jogam um importante papel.

«Teria sido necessário procurar muito tempo para encontrar o género de vereda sinuosa ou de prado tranquilo que mais tarde viriam a celebrizar a Inglaterra. (…) Nevoeiros gélidos pairavam sobre rios e pântanos, sendo vantajosos para os ogres que nesse tempo ainda habitavam a região.» (p. 9). O início do romance remete claramente a ação a um passado distante e situa-a na Inglaterra do mito e das brumas, esboçando ainda com a referência aos ogres o género de ficção aqui explorada, uma fantasia pós-moderna cujos limites são naturalmente esbatidos, que catapulta o leitor para um tempo remoto, em oposição ao futuro explorado no romance anterior.
A bruma referida logo na abertura do romance e que inicialmente parece representar essa eterna condição climatérica nebulosa da Grã-Bretanha, é afinal um nevoeiro que traz consigo não tanto a falta de visibilidade, mas sobretudo o esquecimento. Por isso mesmo, os protagonistas Axl e Beatrice são um casal de idosos por quem é inevitável sentir profunda simpatia e carinho, dada a sua profunda devoção um pelo outro, mesmo que eles próprios já não se recordem porque permanecem juntos ao fim de tantos anos. E a reforçar esse sentido alegórico da narrativa pode ler-se que «Talvez esses não fossem os seus nomes exactos ou completos, mas, por uma questão de facilidade, é assim que nos iremos referir a eles.» (p. 10).
Kazuo Ishiguro escreve sobre um mundo de outrora que não consegue recuperar o seu passado, sem história e sem rumo, condizente com o período medievalizante que retrata, de Idade das Trevas, possivelmente entre os séculos V ou VI, num reino outrora governado por Artur, em que Bretões e Saxões convivem pacificamente. Apesar do nevoeiro desmemoriante que assola esse mundo, Beatrice agarra-se à convição de que ela e Axl tiveram em tempos um filho, que partiu para uma aldeia distante e de quem há muito não recebem notícias, mas que ela sente intensamente chamar por eles. Encetam assim uma viagem por territórios desconhecidos, mas vagamente familiares, num reino de bruxas, ogres, monges e dragões, encontrando pelo caminho cavaleiros que parecem personificar figuras lendárias como Beowulf, no caso do guerreiro Wistan, cuja missão é matar o dragão Querig, ou cavaleiros da Távola Redonda como Gawain, sobrinho do Rei Artur (e figura assaz quixotesca) cuja missão é defender essa mesma criatura. Mas não confundamos este romance com o género épico patente em A Guerra dos Tronos: aqui o ritmo é lento, os diálogos são ritmicamente repetitivos, a ternura entre o casal de velhotes é símbolo de um amor que vive além do tempo e dos erros do passado, o sentido de honra é premente mesmo quando cavaleiros se digladiam entre si ao mesmo tempo que tecem louvas ao nobre adversário, e o passado espreita sempre sob um primeiro olhar de breve reconhecimento. Numa narrativa simples, poética, por vezes com ritmo lento, perceberemos, num final em aberto, e com algumas surpresas, que nem tudo é assim tão linear, nomeadamente quando se fala nesse barqueiro que no fim da travessia interroga os casais, para apurar se estão realmente unidos pelo amor verdadeiro, ou de como um jovem mordido por um dragão se torna num apaixonado do dragão-fêmea, cujo bafo é o responsável pela neblina que embota a memória, e de como o esquecimento tem a grande virtude de permitir perdoar e viver numa paz aparente com o outro. Fica também a dúvida, no final, se o Gigante Enterrado é o dragão, o peso do esquecimento e do passado, ou talvez a esperança que dá pelo nome dessa Espada que desenterrada traria os tempos áureos do Rei Artur de volta.

Kazuo Ishiguro nasceu em Nagasáqui, no Japão, em 1954, e vive na Grã-Bretanha desde os cinco anos. Recebeu o Prémio Nobel da Literatura em 2017 e a sua obra está traduzida em mais de cinquenta línguas. Entre as outras distinções que reconhecem o seu mérito literário contam-se o grau de Oficial da Ordem do Império Britânico e a condecoração francesa como Cavaleiro da Ordem das Artes e Letras.
Ishiguro dedica-se ainda esporadicamente à escrita de argumentos para cinema. O argumento que escreveu para o filme Living valeu-lhe, em 2023, nomeações para os Óscares e para os Prémios BAFTA.
A sua obra é editada em Portugal pela Gradiva.
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