Numa reportagem da Renascença publicada em 27 de novembro de 2024, Gracinda Silva tinha 106 anos e mantinha uma rotina que surpreendia pela autonomia: caminhava cerca de um quilómetro para chegar à horta, onde continuava a sachar, regar e tratar do que cultivava. Questionada sobre o segredo para uma vida tão longa, a resposta foi simples: trabalhar.
Gracinda Silva nasceu e construiu a sua vida na Aldeia de Santo António, no concelho do Sabugal, onde, à data da reportagem, vivia na própria casa, acompanhada por uma das filhas.
Um quilómetro até à horta podia demorar duas horas
A distância entre casa e a horta rondava um quilómetro, mas o percurso já era feito ao ritmo possível para alguém com mais de um século de vida. Segundo a reportagem, Gracinda demorava cerca de duas horas a chegar ao terreno, fazendo pausas para descansar.
“Que remédio tenho eu. Ainda vou quase todos os dias à horta”, contou na altura.
E chegar ao terreno não significava apenas acompanhar os familiares. Uma das filhas, Filomena Martins, explicou que a mãe continuava a sachar e regar, mantendo-se envolvida no trabalho agrícola.
“O segredo é trabalhar e governar a vida”
Quando lhe perguntaram qual seria o segredo para chegar aos 106 anos, Gracinda deu uma resposta ligada à vida que sempre conheceu: “O segredo é trabalhar e governar a vida para criar os filhos”.
A agricultura acompanhou-a durante décadas e, mesmo numa idade muito avançada, continuava integrada na sua rotina. Filomena contou à Renascença que a mãe chegava a calçar as botas de borracha antes dela, pronta para ir regar. A filha ajudava a semear as batatas e a lavrar, mas Gracinda também fazia questão de trabalhar na terra.
Tratava da horta, das galinhas e até do cão
A autonomia não se limitava às deslocações. Na altura da reportagem, Gracinda continuava a ir buscar os ovos das galinhas, a dar de comer ao cão e a participar nas tarefas de casa, segundo o testemunho da filha Maria Teresa Martins, com quem vivia.
A centenária era então viúva havia cerca de 19 anos e continuava na Aldeia de Santo António, mantendo uma ligação próxima à terra e à família.
O testemunho não permite concluir que trabalhar na agricultura seja, por si só, responsável pela longevidade. Segundo a Organização Mundial da Saúde, a forma como se envelhece é influenciada por fatores genéticos, pelos hábitos de vida e pelas condições físicas e sociais em que se vive. A alimentação equilibrada e a atividade física contribuem para preservar a saúde, mas não constituem uma garantia de chegar aos 100 anos.
Portugal tem cada vez mais centenários
O caso de Gracinda insere-se também num país com mais pessoas a ultrapassar um século de vida. Segundo as estimativas do INE disponibilizadas pela Pordata, Portugal tinha, em média, 3.993 residentes com 100 ou mais anos em 2025, acima dos 3.625 estimados para 2024. Estes valores integram a revisão das estimativas populacionais divulgada pelo INE em junho de 2026.
A maioria dos centenários era composta por mulheres. Na mesma série estatística, os dados referentes a 2025 apontavam para 3.304 mulheres com 100 ou mais anos.
O envelhecimento estende-se ao conjunto da população: de acordo com os dados atualizados do INE disponibilizados pela Pordata, em 2024, cerca de 23% dos residentes em Portugal tinham 65 ou mais anos.
No caso de Gracinda, porém, os números ganhavam uma dimensão concreta: aos 106 anos, continuava a calçar as botas, percorrer o caminho até à horta e resumir numa frase aquilo que considerava ter marcado a sua vida — “o segredo é trabalhar”.
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