As falhas no abastecimento de água em Almada continuam a gerar contestação e, desta vez, a resposta partiu dos próprios moradores. Um grupo de cidadãos criou a plataforma online Água Cidadã, onde os munícipes podem registar as leituras dos contadores, de forma a perceber se o consumo doméstico no concelho é, de facto, superior à média nacional.
Segundo o Notícias ao Minuto, a iniciativa surge depois de a autarquia e os Serviços Municipalizados de Água e Saneamento de Almada terem apontado o consumo elevado das famílias como uma das explicações para a pressão sentida na rede. A plataforma pretende testar essa justificação com dados recolhidos diretamente junto dos agregados familiares.
Plataforma quer testar explicação da autarquia
A ideia partiu de René Pfitzner, morador em Almada, que decidiu criar uma ferramenta simples, independente e sem ligações político-partidárias. O objetivo, explicou ao Notícias ao Minuto, é confrontar a narrativa oficial com leituras reais, feitas pelos próprios consumidores.
“Pareceu-me que essa explicação devia ser testada com dados reais e não aceite como um dado adquirido”, afirmou René Pfitzner à mesma publicação.
Até ao momento, a plataforma já reuniu registos de 339 agregados familiares, correspondentes a quase mil cidadãos do concelho. O dinamizador do projeto sublinha que a amostra ainda precisa de crescer, tendo como meta os mil participantes, para ganhar maior robustez estatística. Ainda assim, os primeiros resultados apontam para uma tendência diferente da que tem sido avançada pelos responsáveis locais.
Segundo René Pfitzner, os dados recolhidos até agora indicam que os agregados familiares de Almada não consomem mais água do que a média nacional. Pelo contrário, o consumo apurado parece ser inferior, com uma média de 114 litros por pessoa por dia e uma mediana abaixo dos 100 litros.
Rede opera perto do limite, dizem moradores
A análise feita pelo grupo, com base em dados publicados no blogue do projeto e em relatórios dos próprios SMAS, aponta para um problema mais estrutural. Segundo os moradores, a rede de distribuição de Almada estará a funcionar, num dia médio, a cerca de 80% da sua capacidade máxima, deixando pouca margem para responder a ondas de calor, picos sazonais ou ruturas.
René Pfitzner afirmou ao Notícias ao Minuto que esse nível de utilização “não deixa praticamente margem” para situações extraordinárias, incluindo fugas no abastecimento. Para os responsáveis da plataforma, a onda de calor terá sido apenas o fator que tornou mais visível um sistema já pressionado.
As perdas na rede surgem como uma das questões centrais. A ministra do Ambiente e Energia, Maria da Graça Carvalho, apontou recentemente Almada como o concelho com as maiores perdas de água do país, estimando que mais de 35% da água tratada se perca devido à degradação das infraestruturas e à falta de investimento.
Para o porta-voz da Água Cidadã, estes dados contrariam a explicação centrada no consumo doméstico. “E essa direção contraria a versão dos SMAS”, afirmou, referindo-se à tese de que o problema estaria sobretudo no comportamento dos consumidores.
Cidadãos pedem transparência e dados abertos
A autarquia tem avançado com medidas de reforço do abastecimento, incluindo a adjudicação de novos furos de captação de água. No entanto, os moradores ligados ao projeto defendem que estas soluções podem aliviar a pressão no curto prazo, mas não resolvem as causas estruturais do problema.
René Pfitzner acusa os SMAS de falta de transparência e pede que sejam divulgados dados mais claros sobre a rede. “Está na hora de os SMAS serem honestos com os cidadãos de Almada sobre o que realmente causou a situação em que nos encontramos: um sistema de distribuição de água mal gerido, com manutenção insuficiente e desatualizado”, afirmou ao Notícias ao Minuto.
Os responsáveis pela plataforma defendem que a autarquia deve disponibilizar informação oficial em regime de dados abertos, permitindo aos cidadãos acompanhar onde ocorrem as maiores falhas, fugas e perdas no concelho. Para o grupo, só com informação acessível será possível perceber a dimensão real do problema e avaliar as soluções apresentadas.
A plataforma continua a apelar à participação dos moradores de Almada, pedindo que submetam de forma anónima e segura as leituras dos seus consumos. O objetivo é aumentar a amostra e tornar a análise mais representativa antes de apresentar conclusões mais sólidas aos decisores públicos.
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