A frase “não trabalhámos toda a vida para viver na pobreza”, citada pelo portal espanhol Noticias Trabajo na manchete de uma reportagem sobre pensões, resume o sentimento de muitos idosos argentinos que hoje enfrentam dificuldades económicas profundas, apesar de décadas de trabalho. Histórias contadas por esse site e pelo diário argentino La Nación mostram uma realidade cada vez mais visível: reformados obrigados a dormir em carros, a procurar trabalho aos 70 anos ou a depender de apoios sociais mínimos para comer.
É o caso de Santiago, de 70 anos, cuja rotina mudou drasticamente há mais de dois anos. De acordo com o La Nación, vive num Honda azul estacionado junto ao Parque Centenário, em Buenos Aires. A pensão que recebe, pouco acima do valor mínimo do sistema público argentino, deixou de chegar para pagar a renda, depois de ter tido de abandonar o emprego que mantinha após a reforma, na sequência de problemas de saúde agravados por um internamento devido à Covid-19.
Segundo relata, passa grande parte dos dias a dormir para “deixar o tempo passar”, uma forma de resistência que identifica noutras pessoas em situação de rua. Santiago conta que antes alugava um pequeno apartamento, mas que, quando deixou de conseguir suportar o valor, optou por viver no carro.
Diz que usa “o dinheiro da reforma apenas para sobreviver” e que, apesar de receber um pouco mais do que a pensão mínima, o montante continua longe de permitir pagar uma habitação. A primeira noite no automóvel terminou com a polícia a bater-lhe à janela, depois de a responsável de um restaurante de fast food ter chamado as autoridades ao vê‑lo dormir no parque de estacionamento.
O que vive não é exceção. Há poucos meses, outra história ganhou destaque: a de Roberto Cordal, de 70 anos, que, apesar de reformado depois de 47 anos de descontos, teve de aceitar trabalhos como empregado de mesa em eventos de catering para complementar a pensão.
Como relatou ao La Nación, a escalada de preços empurrou-o para baixo da linha de pobreza, obrigando-o a cortar em alimentação, deslocações e pequenas despesas do dia-a-dia.
Uma vida de trabalho que já não garante dignidade
A precariedade também atinge Zulema, de 72 anos, que durante toda a vida cuidou de idosos e pessoas dependentes. Agora, reformada, conta que “apenas sobrevive” com a pensão mínima e um subsídio para comprar comida.
Diz querer regressar ao trabalho, mas admite que a prioridade é garantir o teto: vive numa pequena pensão em Buenos Aires, onde quase todo o rendimento se esgota na renda, deixando‑a em permanente risco de ficar sem casa.
Jaime Coromina, também com 70 anos, passou grande parte da vida em empregos informais. Hoje vive com um rendimento modesto, assente em prestações sociais e em trabalho precário, que mal chega para pagar o quarto onde dorme, sem recibo.
Procura apoio numa igreja, que lhe fornece roupa, alimentos e aquilo a que chama “contenção”, uma rede mínima de apoio emocional e social para enfrentar a velhice com poucos recursos.
A pobreza entre os mais velhos está a crescer
O Observatório da Dívida Social Argentina revela números preocupantes: uma em cada quatro pessoas com mais de 60 anos vive em situação de pobreza. Entre os maiores de 75 anos, a proporção é de uma em cada cinco. Estes dados, citados pelo La Nación e pelo Noticias Trabajo, ilustram um problema estrutural que já não pode ser visto como um conjunto de casos isolados.
“Nunca pensei ver-me assim”
Para Santiago, a frase resume tudo: “Nunca pensei ver‑me nesta situação, nem nos momentos em que pior estive.” O reformado recorda também a vergonha que sentiu ao ver-se numa reportagem de televisão, ao imaginar que os filhos e a ex‑mulher poderiam testemunhar a sua nova realidade.
O testemunho espelha o sentimento de abandono partilhado por muitos idosos que, após uma vida inteira de trabalho, enfrentam uma velhice marcada pela instabilidade, pela falta de apoio e por condições que nunca imaginaram viver.
E em Portugal?
Em Portugal, o fenómeno da pobreza na velhice também começa a ganhar mais visibilidade. De acordo com dados da Pordata baseados no Inquérito às Condições de Vida e Rendimento, em 2023 a taxa de risco de pobreza entre pessoas com 65 ou mais anos subiu para 21,1 %, face aos 17,1 % registados em 2022.
Estima‑se que cerca de uma em cada cinco pessoas idosas viva sozinha ou em agregado com rendimento bruto mensal inferior a aproximadamente 632 euros por adulto equivalente, ou faça parte de um agregado familiar em situação de pobreza.
Este agravamento contrasta com a ligeira diminuição do risco de pobreza no conjunto da população portuguesa e evidencia as vulnerabilidades específicas associadas à velhice: pensões baixas, rendas em subida, custos de saúde acrescidos e redes de apoio familiar nem sempre presentes.
















