Elisabete mudou-se do Algarve para Gibraltar em 1976 e, 50 anos depois, diz que continua a viver no território britânico pelas condições oferecidas aos reformados. Em entrevista à agência de notícias Lusa, a portuguesa referiu estar a acompanhar agora outra mudança histórica: o fim dos controlos na fronteira com Espanha.
Natural do Algarve, Elisabete chegou a Gibraltar com o marido numa altura em que as oportunidades de emprego em Portugal eram escassas. O casal escolheu o território britânico para recomeçar a vida e acabou por ali construir o futuro da família, incluindo a filha, que nasceu em Gibraltar e trabalha como enfermeira.
Hoje, reformada, resume a experiência de forma simples: “Vivo bem”. Entre as razões apontadas estão o acesso a habitação e diversos apoios destinados aos residentes, incluindo isenções em transportes e outros serviços públicos.
À espera da nova fronteira
A antiga emigrante prepara-se agora para assistir a uma mudança histórica. À meia-noite entra em vigor o acordo entre o Reino Unido e a UE relativo a Gibraltar, que elimina a vedação fronteiriça e os controlos de passaportes entre o território britânico e a cidade espanhola de La Línea de la Concepción.
Apesar da importância simbólica do momento, Elisabete prefere aguardar pelos resultados práticos da nova realidade. “Se não houver uma vantagem, é melhor não termos a fronteira livre”, afirmou, acrescentando que atualmente já vive num local “muito seguro para tudo”, embora reconheça que “a vida está cada vez mais cara em Gibraltar e dentro de nada é como o Mónaco”.
Território que mudou profundamente
Quando chegou, recorda que Gibraltar era muito diferente da cidade atual. “Não havia nem metade do Gibraltar que há hoje. Era só água”, contou à Lusa, referindo-se às sucessivas ampliações do território através de aterros conquistados ao mar.
Com menos de sete quilómetros quadrados, Gibraltar tem atualmente uma população estimada em cerca de 40 mil habitantes. Entre estes contam-se perto de mil portugueses com estatuto de residentes permanentes, segundo os dados oficiais citados pela agência.
Peso da comunidade portuguesa
A presença portuguesa em Gibraltar tem raízes antigas, mas ganhou maior dimensão durante o encerramento da fronteira decretado pelo regime de Francisco Franco em 1969. Nessa altura, muitos trabalhadores espanhóis deixaram de poder entrar no território, abrindo espaço à chegada de mão de obra portuguesa, sobretudo para a construção civil.
Elisabete lembra-se bem desse período e afirma que “eram os marroquinos e os portugueses que trabalhavam em Gibraltar”. O marido integrou precisamente esse setor, enquanto ela acabou por trabalhar no hospital e também na área das limpezas antes da reforma.
Recordações de uma fronteira fechada
Ao contrário da realidade atual, viajar entre Gibraltar e Portugal era, na década de 70, uma operação bastante mais complicada. Explica a publicação que, devido ao encerramento da fronteira terrestre, o casal chegou a fazer um percurso que incluía uma viagem de avião até Marrocos, seguida de uma travessia de barco para Algeciras e só depois a deslocação por estrada até ao Algarve.
Com a reabertura progressiva da fronteira, Gibraltar continuou a crescer económica e urbanisticamente, beneficiando também do contributo da comunidade portuguesa que ali se fixou ao longo das últimas décadas.
Futebolista português que também ficou
Entre os portugueses que fizeram de Gibraltar casa está igualmente Bernardo Lopes, futebolista nascido em Cascais, que representa há cerca de uma década os Lincoln Red Imps e que acabou por adquirir nacionalidade gibraltarenha para jogar pela seleção local.
O jogador reconhece que a adaptação foi gradual, mas garante que hoje se sente plenamente integrado. “Sinto-me em casa neste momento”, afirmou, admitindo que inicialmente foi estranho representar uma seleção diferente da portuguesa.
O que poderá mudar daqui para a frente
Bernardo Lopes acredita que os maiores benefícios do novo acordo serão sentidos pelos milhares de trabalhadores que atravessam diariamente a fronteira para exercer atividade em Gibraltar. Todos os dias, cerca de 15.000 pessoas fazem esse percurso entre Espanha e o território britânico.
Para Elisabete, que vive em Gibraltar há quase 50 anos, a mudança representa mais um capítulo de uma história iniciada muito antes do Brexit. Ao longo desse percurso assistiu ao crescimento da cidade, à evolução da comunidade portuguesa e prepara-se agora para testemunhar o desaparecimento de uma barreira física que marcou gerações.













