Nos últimos dias, têm vindo a ganhar força dentro da União Europeia (UE) várias propostas que, a concretizarem-se, poderão alterar rotinas do dia a dia, desde a forma como se trabalha até à forma como se conduz, ainda que, para já, se trate apenas de recomendações. Entre as ideias em análise estão medidas como o incentivo ao teletrabalho, a redução dos limites de velocidade e a adaptação de hábitos de consumo energético, sendo que nenhuma delas é, neste momento, obrigatória, mas podendo vir a ganhar peso no debate europeu.
Os Estados-membros estão a ser incentivados a analisar este conjunto de propostas no âmbito de uma estratégia mais ampla e, ao mesmo tempo, a preparar-se para diferentes cenários, ainda que a aplicação concreta dependa de decisões nacionais. Segundo a mesma fonte, estas recomendações não são totalmente novas e já tinham sido consideradas noutras fases recentes, embora regressem agora à discussão num contexto diferente, o que reforça a sua relevância atual.
O que está por trás destas propostas
A escalada do conflito no Médio Oriente está a pressionar os mercados internacionais de energia e, ao mesmo tempo, a UE começa a preparar-se para um cenário de instabilidade prolongada, numa altura em que os preços do gás e do petróleo continuam a subir de forma significativa.
Neste contexto, o comissário europeu da Energia, Dan Jorgensen, instou os 27 Estados-membros a anteciparem possíveis interrupções nas cadeias de abastecimento e, por isso, a começarem desde já a aplicar medidas que permitam reduzir o consumo energético.
Segundo explicou, esta crise poderá não ser passageira e, consequentemente, exige uma adaptação progressiva tanto por parte dos governos como dos cidadãos, sobretudo tendo em conta a dependência europeia de combustíveis fósseis importados.
Plano inclui várias mudanças no quotidiano
O conjunto de medidas em discussão baseia-se num plano de dez pontos elaborado pela Agência Internacional da Energia, que já tinha sido criado em 2022 e que, entretanto, volta a ganhar relevância no atual contexto.
Entre as propostas está o incentivo ao teletrabalho, uma vez que permite reduzir deslocações diárias e, consequentemente, diminuir o consumo de combustíveis no setor dos transportes, sobretudo nas áreas urbanas mais densas. Ao mesmo tempo, prevê-se a promoção da partilha de automóvel e o reforço da utilização de transportes públicos, procurando, assim, reduzir o número de veículos em circulação e aliviar a pressão sobre a procura energética.
Outra das medidas passa pela redução dos limites de velocidade nas autoestradas, já que velocidades mais baixas tendem a traduzir-se num menor consumo de combustível e, por conseguinte, numa utilização mais eficiente dos recursos disponíveis. Além disso, é sugerido privilegiar o uso de eletricidade em detrimento do gás em tarefas domésticas como cozinhar, contribuindo, assim, para reduzir a dependência deste recurso.
O plano inclui também a redução de viagens aéreas, sobretudo quando existam alternativas viáveis, como o transporte ferroviário, que apresenta menor impacto energético. A estas propostas juntam-se medidas dirigidas ao setor energético, como o adiamento de operações de manutenção em refinarias, de forma a manter níveis elevados de produção e evitar constrangimentos adicionais.
Paralelamente, recomenda-se que os Estados-membros assegurem níveis adequados de armazenamento de gás antes do próximo inverno, reforçando, assim, a segurança do abastecimento. O documento aponta ainda para a necessidade de aumentar a eficiência energética em edifícios e empresas e, simultaneamente, incentivar consumos mais moderados.
Por fim, é defendida a promoção de campanhas de sensibilização junto da população, de modo a incentivar mudanças voluntárias de comportamento que possam contribuir para reduzir a procura energética global.
Preços sob pressão e impacto já visível
Desde o início do conflito, os preços na UE subiram cerca de 70% no gás e 60% no petróleo e, como resultado, em apenas 30 dias foram acrescentados cerca de 14 mil milhões de euros aos custos de importação de combustíveis fósseis.
“Não nos devemos iludir: as consequências desta crise para os mercados da energia não serão de curta duração. Porque não serão”, afirmou Dan Jorgensen, ao mesmo tempo que sublinhou a necessidade de preparação antecipada. O responsável europeu alertou ainda que esta situação evidencia uma vulnerabilidade estrutural da Europa, que continua fortemente dependente de energia importada.
Para já, sem medidas obrigatórias
Apesar das recomendações, os países europeus ainda não avançaram com medidas obrigatórias de redução da procura e, por agora, também não estão a ponderar cenários mais restritivos, como o racionamento de combustíveis.
Assim, a estratégia passa sobretudo por incentivar mudanças voluntárias, ao mesmo tempo que se evita impor impactos imediatos mais severos na vida quotidiana dos cidadãos.
Transportes entre os setores mais expostos
O setor dos transportes surge como um dos mais vulneráveis à atual crise, sobretudo devido à forte dependência do Golfo Pérsico, de onde a UE importa uma parte significativa do combustível utilizado.
Segundo explicou Jorgensen, esta dependência é agravada pela limitada disponibilidade de fornecedores alternativos e, simultaneamente, pela reduzida capacidade de refinação dentro da Europa. “A segurança do abastecimento da UE continua garantida. Mas temos de estar preparados para uma possível interrupção prolongada do comércio internacional de energia”, afirmou.
Cenário pode agravar-se nos próximos meses
Os receios de prolongamento do conflito têm vindo a intensificar-se e, por isso, cresce também a pressão sobre os mercados energéticos, num contexto de elevada incerteza. O preço do petróleo Brent chegou a atingir os 119 dólares por barril e, entretanto, voltou a ultrapassar os 107 dólares, valores bastante superiores aos registados antes da escalada do conflito.
Alguns analistas admitem que, num cenário mais extremo, os preços possam aproximar-se dos 200 dólares por barril, o que, por sua vez, teria um impacto significativo na economia europeia. Entretanto, a Agência Internacional da Energia alertou que os problemas de abastecimento poderão intensificar-se nos próximos meses, mesmo depois da libertação de reservas estratégicas.
Também o chanceler alemão, Friedrich Merz, advertiu que os efeitos desta crise poderão aproximar-se dos registados durante a pandemia. Perante este cenário, a UE reforça a necessidade de agir de forma coordenada e atempada, combinando medidas estruturais com mudanças práticas no dia a dia, segundo a Comissão Europeia.
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