Janeiro 2026, num gélido dia em que a neve caía em flocos lentos, estranhamente ruídosos, havia vento, e um tremer interior de alma. Chegámos a Oświęcim.
Num ermo, numa entrada para um museu, difícil de imaginar como poderia retrar história tão pesada que criámos no imaginário, com o que lemos, aprendemos ou com a sétima arte recriámos. Todos lembramos o filme “A vida é bela”, e até conseguimos arranjar uma nostalgia boa, daquilo que foi um campo dos horrores.
Aguardámos, com um pequeno grupo e com o guia, que foi igualmente o transfer de Crakóvia, até ao “museu”.

Pelo caminho, uns quilómetros, passou um filme, não disponível nas plataformas livres, imagine-se pela dureza das imagens. Com discurso direto e narração do fotógrafo que presenciou e registou momentos, cenas, rostos, do maquevélico plano nazi, o nosso imaginário transporta-nos para o obscuro. Lá chegados… partilhávamos a mesma antecipação sombria. Ouvíamos os passos de cada um na neve, no rápido caminhar para chegar ao célebre portão.
Lá estava ele.
“Arbeit macht frei” — O trabalho liberta. Aquela falsidade gravada em ferro, um gozo, uma humilhação sórdida, oferecia a promessa dissimulada de esperança a quem nada mais podia acreditar. Havia um peso impossível de ignorar.
Ali, naquele lugar onde o horror foi tão quotidiano, onde milhões de vozes foram silenciadas, tiro ou não tiro a fotografia? Arrepia-nos a alma, e numa ripidez entre o frio e o arrepio do coração, prosseguimos, com milhentas questões no intímo, sobre tudo e todos que arquitecturaram o plano do extremínio.
Auschwitz não é uma monstruosidade isolada ou inexplicável. É psicopatia? Jogo de poder, frio e louco? É a evidência da facilidade da manipulação de um coletivo? Um líder, milhares de oficiais, operários, um povo, a favor de extermínio de uma raça? Dominados pela manipulação da frustação individual, que se projeta com raiva nos outros? Centenas, contra milhões?
Neste primeiro campo, experimental, tudo foi pensado, de raíz construído, com regua e esquadro, como se um matadouro animal se tratasse, mas que explora ao limite a resiliência humana, enquanto máquinas de trabalha, sem direito a assistência ou reparação. Pavilhões, numerados, secionados, com uma linha de montagem de teste, onde entravam para a ilusão do banho e saiam cremados. O crematório!

Dentro dos blocos, os artefactos expostos e salvos pelo fim da guerra — sapatos, óculos, roupas, cabelos, proteses — correspondem as milhões de vidas interrompidas. Tudo tinha valor económico, para valorizar, excepto a vida humana. Também lá estavam muitas das latas de zyklon, químico que continha cianetos, cloro, nitrogênio e que foi intencionalmente empregado, por conta das características de toxicidade, para matar.
O grande arrepio, é com as fotografias, alinhadas e organizadas, mostravam rostos que poderiam ser os nossos filhos, pais, irmãos, os de amigos, de pessoas como nós, os invejados, os desajeitados ou os injeitados, judeus, ciganos, homosexxuais, famílias dos mesmos e os anti fascistas, aos olhos da ditadura nazista. A idade, os nomes o cálculo cruel da breve diferença temporal entre a chegada e a morte: apenas dois meses, mais ou menos o tempo que um corpo relativamente saudável pode necessitar para sucumbir à fome, à doença, ao frio e à exaustão. As crianças, até a essas lhes foi despido o cabelo. Para nada serviam, salvo aquelas que eram estripadas para experiências no Bloco 10. Há imagens reais, não só na chapa da fotografia, mas registado na película de pequenos filmes. Macabro!
A Orquestra Feminina de Auschwitz tocava enquanto se exterminava. Aliviaria a dor do medo? não sei. Alimentava certamente o masoquismo, da raça superior, os nazis. Lá estão as pautas e os instrumentos, as fotografias, como testemunhas do ato, incapazes de retratar o sentimento.
Num lugar, vila mais afastada, temos o segundo e gigantesto campo, que amplia, e multiplica o modelo, já sem margem para perder eficácia: Birkenau. Era o lugar onde chegavam os comboios, onde acontecia o grosso daquilo que os nazis chamaram de Solução Final. Os carris, defeniam as três portas de entrada cruzada, a morte imediata, a serviçal ou a lenta de quem ainda servia para trabalhar. O portão estava aberto, mas só consegui passar ao lado.
Ali tudo acontecia rapidamente, até os ratos comiam dedos das mãos e pés, das mulheres, homens e crianças, que gelados, amontoados, já nada sentiam. A wolkvagen, formeceu imensos equipamentos para aquecer cada uma das centenas de casas / barracão, mas não passou disso, um luxo instalado, a criar a ilusão de que um dia aqueceria os dormitários de quem sobrevivesse.
O silêncio aí ampliava a paisagem, e o vento levava a neve em rajadas que pareciam querer apagar as memórias visíveis e invisíveis. A terra que florescia timidamente sob o branco frio era uma ironia cruel: rosas vermelhas ali deixadas em memória de milhões de alguém, num campo negro, agora aliviado pelo manto branco
Ao sair, sentia-me mais fria do que quando entrei. Não apenas pelo tempo — mas porque a neve, o vento e o vazio daquela vastidão haviam escavado em mim algo que não se descreve: uma reverência misturada com uma tristeza profunda, e o firme propósito de testemunhar e recordar, para que a memória daqueles que não voltaram seja mais do que fotos ou palavras. Porque lembrar é um acto de resistência contra o esquecimento, de um terror recente aos olhos de uma Europa que sucumbia a uma guerra.
Voltei com a firme convição de que não podemos esquecer, e que temos que manter bem vivos os saberes, e os propósitos, que levaram ao Holocausto.
Houve um ditador, louco, psicopta, eleito democraticamente, que encantou o seu eleitorado, chegando-lhes ao coração pela soma das suas fragilidades. Depois de líder ninguém o depôs, o seu séquito, fez dele um montro recente.
Noutras escalas, noutras latitutudes, noutras dimensões, assistimos a muitos “holocaustos”, e mesmo com tanto saber, tecnologia, moralidade, inteligência emocional, organizaçoes mundiais pela paz, cresceram as ditaduras no mundo. Dá que pensar, e moralmente agir, em cada um dos nossos pequenos mundos. Falamos de seres humanos, que sentem, sonham, sofrem como nós…
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