A 12 de junho de 1985 ainda não era nascido. Por essa altura o meu pai tinha 16 anos e a minha mãe 15. Não se conheciam. O meu pai tinha deixado a aldeia — que em tempos foi vila — para sobreviver. Nesse tempo, pelo Alentejo, ainda se vivia numa recuperação lenta, morosa e penosa de uma pobreza que não se sentia apenas nos bolsos das gentes, sentia-se igualmente nas suas almas, nos seus pensamentos. Um vazio de ideais que se estendia pelo horizonte e que a planície teimava em afastar a cada passo que se tentava dar, a cada promessa que se ouvia e se tornava cinza da brasa da esperança. Ainda era um tempo em que o “de sol a sol” continuava a pesar nas horas que contavam os dias e em que se começava a entender que a reforma agrária tinha sido uma catástrofe — mais uma utopia que acabou por levar a perder tudo quem na realidade nunca nada teve. Em 1985, havia já 11 anos de democracia, mas no Alentejo ainda se viviam os rescaldos de décadas de facismo embrenhados no pensamento. O meu pai tinha 16 anos. A minha mãe 15. Não se conheciam. Olhando para trás tínhamos uma Europa que queria o progresso mas que vivia ainda com muros que separavam famílias e amigos, onde ideais opostos tornavam o outro num inimigo, num alvo a abater. O meu pai, já tinha deixado a aldeia há dois para trabalhar a construir cidades, rumou para onde havia algo a explorar, para a grande Lisboa. Foi com 14 anos, que em 1983, fez a única coisa que podia fazer para subsistir, trabalhar sem mais alternativas. A minha mãe, por certo, brincava noutra vila bem longe daquela em que o meu pai vivia — esta, no Algarve. A realidade dela não me é tão presente como a que tenho do Alentejo, mas sei que onde cresceu foi um antigo bairro de lata, em Vila Real de Santo António. A 12 de junho de 1985 formaliza-se a entrada de Portugal para a CEE e, a notícia pouco entendida por muitos, trazia um ideal estranho, uma ideia de um país “dentro de um país” que na realidade era um continente. Coisa complicada de assimilar para quem viveu nos anos 70 com a ilusão de que Portugal era um dos maiores países do mundo. Ainda assim, foi uma ideia que trouxe esperança. Em 1988 o meu pai já era mestre e foi levado para o Algarve, onde conheceu a minha mãe, que sempre viveu próximo da foz do guadiana, com banhos de sal e o mar como fonte de rendimento. Apaixonam-se, claro, eram jovens. Escusado será dizer que 9 meses depois apareci eu. Naquele tempo tudo o que havia de lento equilibrava-se com o que havia de rápido. Da vila à beira mar, a minha mãe ruma com o meu pai para o Alentejo profundo, Vila Ruiva, Cuba chegando lá algures entre 88 e 89. Havia já 4 anos de CEE mas no Alentejo só nessa altura começam a surgir as primeiras estruturas, os primeiros investimentos. Quando reflito sobre isto, questiono o que iria na cabeça da minha mãe ao aterrar naquela cruel realidade. O isolamento, o calor abrasador, a distância do mar… Neste tempo são um casal jovem, ele com 20, ela com 17, e são pais numa aldeia que já na época era isolada. Para muitos dos jovens de hoje isto é uma ideia aterrorizante. Acredito que para eles também o tenha sido. Aguentaram-se.
Quando nasço, nasço em democracia, nasço na Europa. Não sei o que é um país sem liberdade democrática, não sei o que é Portugal sem Europa e se hoje vos escrevo estas palavras é porque nasci a tempo de ver chegar a Europa ao Alentejo. Quando fiz 14 anos, acredito que o meu pai olhou para mim, reviu-se com a minha idade e recordou que por essa altura já estava fora de casa à procura de uma vida melhor. Eu, por sua vez, descobria a vida e aquilo que o conhecimento me provocava a pensar. Ainda que muito aprendesse, pouco ou nada sabia do que existia à minha volta. No entanto, com 14 anos já estudava em Cuba, fora da aldeia, e lidava diariamente com realidades de colegas e conhecidos que eram muito diferentes da minha. Aprendi cedo que não partimos todos do mesmo lugar quando nascemos e que o peso de uma herança é mais pesado quando nada se tem. Ficamos, desde pequeninos, com uma responsabilidade acrescida de termos que provar que valemos a água que bebemos, ainda para mais num Alentejo onde, antes do Alqueva, a água valia ouro. No ano de 2004, vi Portugal organizar o Campeonato Europeu de Futebol, a volta à França em Bicicleta, La vuelta Espanhola, o Giro Italiano e os jogos Olímpicos a regressarem à sua casa, Atenas. Tinha 15 anos, quase 16 e a televisão trazia-me paises, línguas e culturas que desconhecia. Vibrava com as cores das diferentes bandeiras. Foi aqui que tive a primeira consciência da Europa mal sabia eu que a Europa me iria abrir as portas da percepção.
No verão de 2004 terminei o ensino básico, sei que a minha tia ficaria orgulhosa e queria muito que não ficasse por aí. Seguia-se o secundário mas Beja ficava caro e não daria para ser o meu desafio. Tive nessa altura um professor que me disse por outras palavras: “Luís, vai por aqui” e comecei a estudar Design onde sempre estive, Cuba. Nesta escola explicaram-me a União Europeia e os Parlamentos nacionais e europeus. Não com ideias, não com livros, mas com projetos. Quando disse à minha mãe que iria para Itália com 16 anos a resposta saiu da sua boca mais rápida do que a internet ADSL que tardava a carregar um email: “Nem pensar. Não há dinheiro para gastar nessas coisas”. Levei algum tempo a convencê-la que não seria preciso dinheiro, que esta era uma oportunidade que a Europa dava a quem se candidatava e apresentava bons indicadores. Com o projeto Sócrates Comenius saí da aldeia, saí da vila, saí do Alentejo, cheguei à Europa. Seguiram-se os Parlamentos Português com o “Parlamento do Jovens” e o Europeu com o “Euroescola”. Já com 17 anos, o programa Leonardo Da Vinci levou-me para a Grécia e comecei a minha carreira profissional. No final dos anos 90, início dos 2000 a Europa já tinha chegado ao Alentejo. As autoestradas já encurtaram distâncias, o progresso já se fazia sentir. Sei e sabemos que podia ter sido bem melhor, poderia até ter sido mais rápido, mais estrutural, melhor gerido, mas chegou-nos e chegou-me. E com essa chegada, pela primeira vez, as promessas e esperanças que depositaram no Alentejo começaram a ser possíveis de agarrar. Eu agarrei e sei que não fui o único.
Sem a União Europeia não teria tido as oportunidades que tive e por certo não teria hipótese de vos falar nem da minha mãe, nem do meu pai. Nasci na Europa, nasci na União Europeia, cresci e fiz-me pessoa como Europeu. Não sei o que era Portugal antes disso, só o que a história me conta. Sei por isso que tudo isto que conhecemos é frágil: Os ideais da fraternidade, a igualdade, a equidade, os direitos humanos, a liberdade de expressão, religiosa, sexual, a livre circulação de bens e pessoas, a liberdade de género, as oportunidades de educação, o direito à habitação e o direito à saúde entre tantas outras coisas que damos por adquiridas e que estão explanados na nossa constituição, uma das mais bonita e progressistas do mundo. Tudo isto é frágil e está em risco aqui e na Europa.
Hoje, 19 de maio de 2025, Vila Nova de Famalicão. Acordei para escrever este texto com o sol a entrar pela janela do hotel. O meu país virou à direita. A esquerda viu-se reduzida a uma franja que quase cai para cima dos olhos e faz-nos querer que volte a ocupar o seu papel num cabelo que não nos faz de pala encurtando as vistas. Procurei por um equilíbrio ao centro pois nunca gostei de extremismos. Cresci num Alentejo que ainda hoje é profundo e embora bem mais acessível e inclusivo do que fora, continua mergulhado num vazio ideológico que permitiu uma ascensão de extrema direita demagoga. E não está a acontecer apenas com o meu Alentejo, com o meus pais mas também com a minha Europa. Sinto-me preocupado, desiludido e um pouco triste ao constatar que a mesma utopia que alimenta o mais belo sonho consegue turvar a mente e levar-nos a ver beleza no inferno.
Sobre o autor do artigo: Luís Caracinha, nascido a 10 de março de 1989 em Vila Ruiva, Alentejo, é um criativo português cuja carreira multifacetada abrange música, design, produção cultural e empreendedorismo.
Desde jovem, demonstrou uma inclinação para as artes. Aos 15 anos, iniciou estudos em Design e, simultaneamente, começou a explorar instrumentos musicais. Aos 16 anos, teve a sua primeira experiência profissional como designer e realizou o seu primeiro concerto, marcando o início da sua carreira artística no ano de 2005.
Concluiu a licenciatura em Design de Comunicação na Universidade do Algarve em 2010. Durante este período, envolveu-se em iniciativas culturais na sua terra natal, co-fundando a Ode – Associação Artístico-Cultural em 2010, que dinamizou a cena cultural local com eventos diversos.
Como músico, Luís Caracinha é conhecido pelo alter ego “Alfaro” destacando-se como compositor, autor, baixista e guitarrista. Participa em projetos musicais variados, incluindo Esfinge, The Mirandas e Riding a Meteor e Recante, explorando géneros como Música Tradicional Alentejana, Fado, Blues, Rock e Eletrónica. Nos últimos anos, expandiu a sua atuação para a produção de canções para outros artistas, consolidando-se como produtor musical.
No ano de 2015, fundou a Epopeia, empresa dedicada ao design, à edição de música, agenciamento artístico, edição, distribuição, produção e promoção cultural. A Epopeia rapidamente se destacou no panorama cultural português, desenvolvendo projetos nas áreas da música, edição literária e comunicação para eventos culturais. É nesta empresa que o seu trabalho como como designer de comunicação e diretor criativo se tem destacado desenvolvendo projetos de comunicação visual, web design, fotografia e branding para clientes nacionais e internacionais, podendo o seu trabalho ser visto e reconhecido em mais de 40 países.
Luís Caracinha considera-se um criativo que utiliza diferentes formas de expressão para transmitir mensagens e alcançar objetivos. A sua abordagem interdisciplinar reflete-se na diversidade dos projetos em que se envolve, sempre com o intuito de impactar positivamente o público e a comunidade. A sua trajetória exemplifica a integração harmoniosa entre arte, design e empreendedorismo, destacando-se como uma figura influente nas indústrias criativas em Portugal.

“40 Visões da Europa”
A 12 de junho de 1985, Espanha e Portugal assinaram o Tratado de Adesão às então Comunidades Europeias (Comunidade Económica Europeia, Comunidade Europeia da Energia Atómica e Comunidade Europeia do Carvão e do Aço). Este foi o terceiro alargamento.
O Europe Direct Algarve, a CCDR Algarve, a Eurocidade do Guadiana e outros parceiros transfronteiriços associaram-se para assinalar a data. A rubrica «40 Visões da Europa» vai dar voz a 40 pessoas (líderes políticos e associativos, jovens, cidadãos ,..)
Entre 4 de maio e 12 de junho (data da assinatura dos 40 anos do Tratado de Adesão) todos os dias um artigo . Mais informação sobre a campanha na página conjunta (4) Facebook
Leia também: 40 visões da Europa: Juventude, Património e Futuro – 20 anos da Convenção de Faro | Por Núria Rey

O Europe Direct Algarve faz parte da Rede de Centros Europe Direct da Comissão Europeia. No Algarve está hospedado na CCDR Algarve – Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Algarve.
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