“A contribuição que uma Europa organizada e dinâmica pode dar à civilização é indispensável para a manutenção de relações pacíficas. (…) Por a Europa não se ter unido, tivemos a guerra.
A Europa não se construirá de uma só vez, nem de acordo com um plano único. Construir-se-á através de realizações concretas que criarão, antes de mais, uma solidariedade de facto.”
Esta declaração, já muitas vezes repetida, de Schuman, espelha na perfeição a principal matéria que fundamenta a União Europeia. A única forma de garantir que Países secularmente conflituantes, vários antigos impérios coloniais intercontinentais, pudessem viver em paz e prosperidade era através da interdependência económica. A guerra seria materialmente impossível dentro de portas. Este raciocínio desaguou no, provavelmente, maior sucesso que este Continente já conheceu, com um período de paz e bem-estar sem paralelo.
Foi assim não só nos anos 50 e 60 para os países fundadores, como também para aqueles que foram entrando posteriormente, como os Países de Leste, que após a queda da União Soviética, se catapultaram, em particular depois dos alargamentos de 2004 e 2007, para um crescimento económico confiante e robusto. Mas também nós, juntamente com Espanha, na já longínqua assinatura do Tratado de Adesão em 1985. Os anos que se seguiram foram, a todos os níveis, sem precedentes, com Portugal liderado por Cavaco Silva e Espanha por Felipe Gonzalez. Ambos os Países construíram vias de comunicação, escolas ou hospitais, bem como educaram populações e ajudaram a fazer crescer classes médias com um estilo de vida à semelhança do que já se conhecia no centro da Europa. A Economia estava aberta, as oportunidades emergiam e esta fórmula pragmática e material ia disfarçando alguma falta de foco num eventual vínculo cultural e existencial por aprofundar.
Aliás, diria mesmo que quando a fórmula pragmática da interdependência económica quis ir mais longe (como a criação do Euro), acompanhando-se de uma arquitetura jurídica também essencial e que procurava dar resposta a necessidades objetivas da organização europeia (Tratado Constitucional e outras tentativas do tempo), esbarrámos em qualquer coisa. O Euro e o Tratado de Lisboa acabaram por chegar depois da insistência, é verdade – e ainda bem -, mas há uma Europa além do pragmatismo, uma Europa aspiracional que faz falta fortalecer e que deve ser também motor de outros avanços de integração.
Posso até me estar aqui a colocar por caminhos apertados, não vou mentir, uma vez que na qualidade de pessoa formada em Economia poderia circunscrever-me a esta Europa da Economia, ou do Estado Social e do Bem-Estar, que tem, sem dúvida, muitos sucessos para enumerar. Seria a minha praia. Mas até sobre uma lente puramente económica, não será impreterível que numa sociedade interdependente economicamente, e que, portanto, necessite de mecanismos de solidariedade e coesão social, deva haver um chão comum existencial sólido? Não terá sido esse o sucesso dos Estados-Nação?
O principal desafio da Europa, no meu entender e neste momento, está no reforço deste chão comum que em boa parte já existe. Falta contar histórias, construir-se mitos e criar efemérides que aproximem cada vez mais um português e um polaco, um sueco e um esloveno, um letão e um irlandês. A partilha histórico-cultural e territorial é uma realidade, mas temos de narrá-la.
“A religião cristã, o direito romano, certas concepções, eu diria quase, sobre o Bem e o Mal, sobre o Belo e o Feio. As concepções elementares sobre a nossa própria cultura são concepções que são partilhadas em toda a Europa genericamente.”
Dizia Lucas Pires, como muito bem dissertava sobre esta ideia de uma Europa existencial e cultural. A história da Europa é vastíssima. A matriz greco-romana, por um lado, judaico-cristã, por outro. As influências celtas e islâmicas. As revoluções liberais, a laicização ou o iluminismo. Os sucessos dos movimentos operários social-democratas, os Estados-Sociais e de Direito ou a luta contra os totalitarismos (os de fora, mas e sobretudo os que emergiram cá dentro). Uma certa visão do Mundo universalista. De Roma a Bruxelas, de Carlos Magno a Churchill, de Kant a Voltaire. Há muito por onde, sem fanatismos, evidenciar uma identidade europeia que não coloque em causa todas as outras.
Num Mundo a caminhar para lógicas isolacionistas e conflituantes, precisamos de uma Europa que queira estar mais unida e coesa, que sabe de onde vem e para onde quer ir, que reconhece os seus erros, mas que possa estar munida de uma autoestima que qualquer projeto coletivo humano necessita para sobreviver. Depois, as soluções pragmáticas, que mal ou bem demonstrámos ser capazes de encontrar ao longo destas décadas, surgirão com tanta ou mais facilidade.
“Às vezes, na esquina de uma rua, nessas curtas pausas deixadas pelas longas horas de luta comum, penso em todos esses lugares da Europa que conheço bem. Uma terra magnífica feita de tristeza e história.”
Albert Camus, Cartas a um Amigo Alemão (1941-45)
Sobre o autor do artigo: João Campos é licenciado em Economia e Mestre em Economia Internacional e Estudos Europeus pelo ISEG – Lisbon School of Economics and Management. Lacobrigense, algarvio, português e europeu. Desempenhou atividades em diversos projetos sobre assuntos europeus como o Summer CEmp e respetiva rede alumni, Praça do Luxemburgo e co-fundador do Projeto Europa És Tu. É presidente da JSD/Algarve.

“40 Visões da Europa”
A 12 de junho de 1985, Espanha e Portugal assinaram o Tratado de Adesão às então Comunidades Europeias (Comunidade Económica Europeia, Comunidade Europeia da Energia Atómica e Comunidade Europeia do Carvão e do Aço). Este foi o terceiro alargamento.
O Europe Direct Algarve, a CCDR Algarve, a Eurocidade do Guadiana e outros parceiros transfronteiriços associaram-se para assinalar a data. A rubrica «40 Visões da Europa» vai dar voz a 40 pessoas (líderes políticos e associativos, jovens, cidadãos ,..)
Entre 4 de maio e 12 de junho (data da assinatura dos 40 anos do Tratado de Adesão) todos os dias um artigo . Mais informação sobre a campanha na página conjunta (4) Facebook
Leia também: 40 visões da Europa: Também foi com a UE que aprendemos a democracia | Por Anabela Afonso

O Europe Direct Algarve faz parte da Rede de Centros Europe Direct da Comissão Europeia. No Algarve está hospedado na CCDR Algarve – Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Algarve.
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