Hoje, 24 de maio, completo 45 anos. E dou por mim a pensar no tempo — não apenas no meu, mas no nosso. No tempo de um país, de uma região, de uma Europa.
Nasci cinco anos antes de Portugal assinar o tratado de adesão à Comunidade Económica Europeia. Cresci, como tantos da minha geração, ao ritmo da integração europeia. Vi um país a modernizar-se, a abrir-se ao mundo, a construir democracia e direitos.
Vi também como, nas margens, foram ficando feridas — muitas feridas por sarar. Feridas que se abriram em comunidades esquecidas, em profissões desvalorizadas, em jovens que partem por falta de oportunidades, em ecossistemas degradados em nome do crescimento. Em nome de uma falsa sustentabilidade e energia verde. Feridas que não se curam com estatísticas, mas com proximidade, justiça social e políticas com rosto humano.
Quarenta anos depois, é impossível separar a minha história pessoal da história europeia que Portugal ajudou a escrever. Em cada hospital renovado, em cada jovem que parte com o Erasmus no bolso, em cada estrada que liga o interior ao litoral, em cada projeto de valorização ambiental, em cada campanha pela igualdade de direitos — há Europa.
Mas em cada dificuldade ignorada, em cada decisão tomada longe das pessoas, em cada política que falha na proximidade e na equidade — também há Europa. Uma Europa que precisa urgentemente de se reencontrar com os seus cidadãos.
Uma Europa mais justa, mais unida, mais próxima.
Como Deputado Municipal em Olhão, falo muitas vezes disso: da distância entre quem decide e quem vive as consequências dessas decisões. Da falta de respostas à crise habitacional. Da ausência de visão na proteção da orla costeira, dos habitats naturais e dos ecossistemas terrestres e marinhos que sustentam o Algarve.
Falo também da emergência climática, sentida de forma crua numa região como a nossa, onde a subida do nível do mar, as cheias e a escassez de água já não são ameaças futuras — são realidades atuais, alarmantes e desafiadoras.
Mas ser europeu é, para mim, continuar a acreditar que podemos mudar as coisas. Que temos o dever de exigir mais. Que cabe à nossa geração reconstruir o ideal europeu: uma Europa que protege, que acolhe, que reequilibra.
Uma Europa que volta a ser sonho — mas um sonho com os pés assentes na terra.
E, ao mesmo tempo, uma Europa que saiba defender-se. Que enfrente com firmeza os discursos extremistas, racistas e xenófobos que procuram corroer os seus/nossos alicerces. Que tanto, mas tanto custaram a erguer.
Porque a paz, os direitos e a democracia não se mantêm sozinhos — exigem vigilância, coragem e ação.
Celebrar os 45 anos da minha vida neste maio europeu é, por isso, mais do que um balanço: é um compromisso. De presença. De participação. De combate por um futuro comum que valha a pena.
Portugal não é apenas uma periferia geográfica.
O Algarve não é só destino turístico.
E Olhão não é apenas um bonito postal ilustrado.
São territórios com voz, com causas, com ideias.
E essas vozes têm de chegar a Bruxelas — não como eco, mas como proposta de um caminho a seguir.
Quarenta anos depois, talvez a pergunta não seja “O que a Europa fez por nós?”, mas sim: “Que Europa queremos continuar a construir, unidos, a partir daqui?”
Porque o projeto europeu não é uma estrutura acabada.
É uma obra viva.
Uma casa comum.
E cabe-nos a nós — agora — bater os pregos certos, antes que seja tarde demais.
Sobre o autor do artigo: Alexandre Pereira tem 45 anos, é engenheiro do Ambiente, deputado Municipal em Olhão e comissário político nacional do PAN. Ativista pelas causas ambientais, de justiça social e proteção animal, tem uma intervenção regular na vida pública local e nacional. É defensor de uma Europa mais próxima das pessoas e dos territórios, sustentável, justa e verdadeiramente solidária.

“40 Visões da Europa”
A 12 de junho de 1985, Espanha e Portugal assinaram o Tratado de Adesão às então Comunidades Europeias (Comunidade Económica Europeia, Comunidade Europeia da Energia Atómica e Comunidade Europeia do Carvão e do Aço). Este foi o terceiro alargamento.
O Europe Direct Algarve, a CCDR Algarve, a Eurocidade do Guadiana e outros parceiros transfronteiriços associaram-se para assinalar a data. A rubrica «40 Visões da Europa» vai dar voz a 40 pessoas (líderes políticos e associativos, jovens, cidadãos ,..)
Entre 4 de maio e 12 de junho (data da assinatura dos 40 anos do Tratado de Adesão) todos os dias um artigo . Mais informação sobre a campanha na página conjunta (4) Facebook
Leia também: 40 visões da Europa: 40 visões da Europa: Europa: o passado, o presente e o futuro | Por Eduardo Gonçalves

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