A dificuldade no acesso à habitação, sobretudo ao arrendamento por quartos, tornou-se um dos temas mais sensíveis da atualidade, tanto em Espanha como em Portugal, onde a escassez de oferta, os preços elevados e a instabilidade laboral continuam a empurrar jovens, reformados e idosos para situações cada vez mais frágeis no mercado imobiliário.
Em Espanha, o debate ganhou novos contornos após o testemunho de uma jovem proprietária que assumiu publicamente preferir arrendar quartos apenas a pessoas mais novas, afastando reformados e pessoas de idade mais avançada. A situação, divulgada nos meios de comunicação social, levanta questões que também encontram eco em Portugal, onde o arrendamento informal por quartos se tornou uma solução comum, mas nem sempre acessível a todos.
O caso foi tornado público no programa Y Ahora Sonsoles, quando Alba Aldehuela, uma jovem de 25 anos residente em Madrid, explicou os critérios que utiliza para escolher quem partilha a sua casa. O testemunho foi posteriormente citado pelo jornal digital espanhol Noticias Trabajo, gerando uma onda de reacções.
Alba é proprietária de um apartamento adquirido pelo pai, onde vive de forma permanente, e arrenda quartos a terceiros. Segundo a própria, a preferência por inquilinos jovens não está relacionada com preconceito, mas com a convivência diária e com estilos de vida semelhantes ao seu.
Por que razão exclui reformados e idosos
“Não me agrada porque quero que seja um bom ambiente”, afirmou a jovem, explicando que se sente mais confortável a viver com pessoas da mesma faixa etária. “Vivendo ali, quero alguém com quem consiga conviver bem”, sublinhou, reforçando que se trata de uma decisão pessoal ligada ao seu dia a dia.
Apesar disso, reconhece a gravidade da crise habitacional. “Já me apareceram mães com bebés à procura de um quarto”, contou, admitindo que a situação a marcou. Ainda assim, defende que a escolha dos inquilinos deve ter em conta o facto de a casa ser também a sua residência habitual, de acordo com a mesma fonte.
“Não me incomoda, é apenas a minha preferência”
A jovem esclareceu ainda que viver com uma pessoa mais velha “não é que me incomode, mas é a minha preferência”. Segundo explicou, é ela quem mostra a casa e gere todo o processo, num contexto em que a procura é elevada. “Estamos em Madrid e há imensa gente à procura de quartos”, acrescentou.
Alba deu como exemplo o seu estilo de vida, admitindo que chega tarde a casa quando sai à noite. “Se chego às cinco da manhã, isso interfere na convivência. Tem de haver adaptação dos dois lados”, disse, frisando que nunca impôs formalmente um limite de idade, de acordo com a fonte anteriormente citada.
Uma realidade que também se sente em Portugal
Embora o caso tenha ocorrido em Espanha, situações semelhantes começam a ser relatadas em Portugal, sobretudo nas grandes cidades como Lisboa e Porto. Com o aumento do arrendamento por quartos, muitos proprietários optam por perfis considerados “compatíveis”, o que acaba por excluir pessoas mais velhas, como reformados e idosos, mesmo quando estas têm rendimentos estáveis, como pensões.
Tal como em Espanha, o mercado português vive uma forte pressão, com estudantes, trabalhadores deslocados e reformados a ‘competir’ pelo mesmo tipo de alojamento. A preferência por jovens é frequentemente justificada com argumentos de convivência, mas levanta dúvidas sobre discriminação etária.
O testemunho de Alba Aldehuela, citado pelo Noticias Trabajo, ilustra uma tendência crescente num mercado cada vez mais informal e desregulado. A escolha de inquilinos com base na idade, mesmo quando apresentada como opção pessoal, abre um debate mais amplo sobre o direito à habitação e sobre quem fica, na prática, excluído destas soluções.
Em Portugal, onde o envelhecimento da população é uma realidade evidente, a falta de respostas habitacionais para idosos com baixos rendimentos pode agravar ainda mais o problema, sobretudo num contexto em que o arrendamento tradicional continua fora do alcance de muitos.
















