Os dois primos de Naima, que vivem em Tetuán, Marrocos, foram avisados por um amigo na quinta-feira de que “abriram a fronteira” em Ceuta “e, claro, foram a correr”, juntando-se a uma avalanche de dezenas de milhares.
Por Margarida Pinto, enviada da agência Lusa
“Quando viram que não se podia fazer nada, voltaram” a Marrocos, tal como a grande maioria das entre 50 mil a 60 mil pessoas que formaram aquela avalanche que em menos de 24 horas entrou no pequeno enclave espanhol no norte de África, de 83.000 habitantes, contou hoje Naima, 18 anos, à agência Lusa, no ferry que em viajou de Algeciras, no sul de Espanha continental, para Ceuta.
A partir de Ceuta vai seguir, com o resto da família, de carro, até Tetuán, para as habituais férias de agosto.
Famílias como a de Naima, turistas e jornalistas são hoje praticamente as únicas pessoas que conseguem entrar em Ceuta. Todas por barco e a partir do território continental espanhol.
As entradas na fronteira terrestre e por mar com Marrocos “pararam na totalidade” durante a madrugada e “continuaram as saídas” de Ceuta para território marroquino das pessoas que entraram ilegalmente entre quinta e sexta-feira, assegurou logo de manhã o Governo espanhol.
O executivo de Madrid garantiu que pelo menos 43.800 pessoas que entraram ilegalmente voltaram a Marrocos por iniciativa própria até sexta-feira à tarde. Mais de 60 morreram afogadas no mar a tentar chegar a Ceuta.
Entre os que também entraram na quinta-feira, mas não saíram nem querem sair há sobretudo pessoas de África subsaariana, como os várias centenas ou mesmo milhares que enchem agora as imediações do centro de acolhimento temporário de Ceuta (conhecido como CETI), deitados nos passeios e na estrada de aceso, como testemunhou a Lusa ao início da tarde.
Como os primos de Naima, “ouviram dizer” ou “viram na Internet” que a fronteira com Espanha estava aberta em Ceuta e para ali se dirigiram desde as cidades marroquinas em que viviam, como Casablanca ou Tânger.
Todos os que falaram com a Lusa disseram ter chegado na quinta-feira à fronteira com Ceuta e nadaram para o lado espanhol, “com toda a gente”, nas palavras de Ali, de 32 anos, que saiu há quatro anos do Senegal, onde se dedicava “ao pequeno comércio”, para tentar a sorte em Marrocos ou na Europa.
“Quero viver bem, como todos. E a liberdade”, disse à Lusa, sob o sol abrasador do início da tarde em Ceuta.
“Estamos aqui desde quinta-feira e não nos dão comida, nem bebidas nem nos deixam tomar banho”, queixou-se Florence, de 32 anos, também do Senegal, que entrou a nado em Ceuta na quinta-feira depois de ter deixado Casablanca, onde vivia há dois anos, a fazer trabalhos “polivalentes”, por causa de vídeos que viu na Internet a anunciar a possibilidade de chegar a Espanha livremente via Ceuta.
A seu lado, um grupo de duas mulheres e três menores do Sudão repetem a história de Florence e dizem que estão a sobreviver com comida que a Cruz Vermelha lhes deixou, assim como casacos para aguentar a noite.
No CETI, que tem capacidade para colher pouco mais de 500 pessoas, nenhum dos recém-chegados que está nas ruas pode para já entrar, com as autoridades de Marrocos a alertarem desde quinta-feira, ainda antes da avalanche sobre a fronteira, de que o centro estava sobrelotado e havia já então nas imediações perto de mil pessoas.
Naima espera encontrar-se com os primos dentro de poucas horas em Tetuán e comprovar que “estão bem”, depois da viagem que os dois fizeram de algumas horas a Ceuta.
“Claro, foram a correr. Foram ver. Mas como não podiam fazer nada, voltaram”, insiste, corroborando que as dezenas de milhares de pessoas que cruzaram a fronteira na quinta e na sexta-feira encontraram comércios, hotéis e todos os serviços fechados, impossibilitando-lhes a permanência, a alimentação ou o lazer, mesmo para aqueles que – e seriam a grande maioria – tinham dinheiro consigo para vários objetivos.
“Houve dois tipos de pessoas. As que quiserem ir ver ou até roubar. E outras que precisam mesmo de entrar em Espanha”, resume Naima, fazendo eco do que lhe contaram e do que já leu.















