Numa das suas cartas, Florbela Espanca escreveu: “Toda a mulher que acarinha os filhos de outra tem uma alma bem formada”. Certamente teria em mente Mariana do Carmo Toscano, conhecida em Vila Viçosa como “Mariana Inglesa”. Esta senhora foi madrasta e madrinha da poetisa Florbela Espanca, nascida em 1894, e do seu irmão Apeles, nascido em 1897, ambos naturais da dita vila alentejana.
A história familiar pode resumir-se em breves linhas. Mariana era casada com João Maria Espanca, também natural de Vila Viçosa. Por ser infértil e sabendo do desejo do marido de ter filhos, consentiu que este mantivesse uma relação com Antónia da Conceição, uma criada de servir. Deste relacionamento nasceram Florbela e, mais tarde, o irmão Apeles.

Apesar das dificuldades económicas dos primeiros anos, o casal Toscano Espanca assumiu a criação das crianças e conseguiu proporcionar-lhes uma educação cuidada. Florbela e o irmão quase não conheceram a mãe biológica, e a relação da futura poetisa com a madrasta oscilou entre o afeto e uma disciplina exigente.
Talvez para dar voz às inquietações que a acompanhariam ao longo da vida, Florbela começou a escrever poesia aos oito anos. O seu percurso foi marcado por numerosas adversidades: uma constante melancolia, o estigma da ilegitimidade, várias tentativas de suicídio, dois casamentos fracassados e a morte prematura do irmão.
Em 1918, sofreu um aborto espontâneo que lhe afetou os ovários e pulmões. Na tentativa de recuperar física e emocionalmente, veio viver para Quelfes, onde residia uma cunhada que exercia funções como professora. Os meses passados no chamado “ermitério de Quelfes” revelam já o estado de profunda neurose que a dominava. Escreveu então: “Estou tão triste e aborrecida! Tenho ódio ao Algarve” (livro Charneca em Flor).
A fragilidade da sua saúde, as deslocações a Faro para tratamentos e o isolamento contribuíram para criar uma imagem pouco favorável da região. Ainda assim, o seu julgamento tornou-se mais equilibrado quando escreveu: “Não há cinquenta pessoas em Portugal que digam ser o Algarve mais bonito que o Norte. Eu não desgosto do Algarve, mas não o acho nenhuma beleza” (Carta n.º 72).
Do ponto de vista cultural, seria particularmente interessante integrar Quelfes, no concelho de Olhão, numa rota literária dedicada a Florbela Espanca. Tal iniciativa evocaria a passagem pelo Algarve de uma das maiores poetisas portuguesas, cuja vida, embora breve, terminando aos 36 anos, foi de uma intensidade rara e deixou uma marca profunda na literatura portuguesa.
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