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Cultura, Edição Papel, Opinião

Ria Formosa: o pulmão azul | Por Maria João Neves

CAFÉ FILOSÓFICO: Artigo de Maria João Neves publicado no Caderno de Artes Cultura.Sul de junho

10:00 16 Junho, 2023 09:18 15 Junho, 2023
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MARIA JOÃO NEVES
Doutorada em Filosofia Contemporânea, investigadora da Universidade Nova de Lisboa

Comemorou-se no passado dia 5 Junho o Dia Mundial do Ambiente. Que terá a nossa Ria Formosa que oferecer a esta celebração? Quem a atravessa de barco provavelmente não sabe que está a navegar sobre um importante pulmão do planeta. De facto, mais do que nas florestas, é junto ao mar que são absorvidas grandes quantidades de dióxido de carbono da atmosfera. Embora seja de cor negra, por ser armazenado nos ecossistemas costeiros e marinhos, chama-se-lhe carbono azul.

Recordemos o ciclo de carbono: os animais consomem alimentos ricos em carbono, e respirando oxigénio libertam o carbono sob a forma de dióxido. As plantas, que igualmente respiram, sob a luz solar, através da função clorofilina, decompõem-no libertando oxigénio e fixando o carbono. Esta transformação é um dos elementos chave para o equilíbrio da vida.

Há muito tempo atrás começámos a construir máquinas que também têm como base do seu combustível o carbono, em forma de carvão ou petróleo. Também estas máquinas libertam o excesso de carbono na atmosfera. A diferença é que o combustível que consomem provém das profundezas da terra, onde esse carbono estava retirado do ciclo de carbono, até que nós encontrámos uma forma de o extrair. Em consequência, o carbono na atmosfera aumentou exponencialmente causando o aquecimento global que está na base das alterações climáticas que estamos a presenciar.

Ria Formosa – Fotos DR

Com todo este carbono que está a sair do estado armazenado, o papel da natureza em absorvê-lo tornou-se criticamente importante. Na escola ficamos com a ideia de que as florestas, as plantas, fazem todo o trabalho. Porém, como vimos acima, grande parte do carbono é absorvido pelos oceanos. Pradarias marinhas, mangais e sapais são capazes de retirar da atmosfera entre 8 a 30 vezes mais carbono do que as florestas. Vejamos:

– mais de 95% do carbono em prados de ervas marinhas é armazenado nos solos;

– o oceano armazena 93% do carbono do planeta;

– os habitats costeiros cobrem menos de 2% da área oceânica total e representam aproximadamente metade do carbono total sequestrado nos sedimentos oceânicos.

Nos mais de 4,5 mil hectares de sapais e pradarias da nossa Ria Formosa, os investigadores estimam que estejam armazenadas 320 mil toneladas de carbono. A cada ano somam-se mais mil e quinhentas toneladas. O equivalente às emissões anuais de sete mil carros. Ao longo de vários metros de profundidade dos sapais e pradarias esconde-se esta maravilhosa câmara de sequestro. Existem nove sistemas como o da Ria Formosa em Portugal continental que são verdadeiros sumidouros de carbono. Como se disse atrás, e não é demais recordar, estes ecossistemas são 8 a 30 vezes mais eficientes a sequestrar carbono do que as florestas!

Infelizmente, a pressão costeira tem destruído muitos destes habitats. Perdeu-se metade destes ecossistemas nos últimos 100 anos, com impactos que só agora se começam a perceber. Quando destruímos estes ecossistemas, não estamos apenas a impedir o sequestro de dióxido de carbono que actualmente existe na atmosfera, mas estamos também a lançar na atmosfera o carbono que estava retido há centenas ou milhares de anos. Reparem: destruir 10% dos sapais da Ria Formosa impede que se captem as emissões de CO2 de 700 carros, e lançam-se na atmosfera outros 120.000 toneladas de CO2 armazenados. É extraordinariamente perigoso! Repito: quando estes ecossistemas se degradam, todos aqueles reservatórios de carbono que estavam no sedimento, voltam outra vez para a atmosfera. É imprescindível garantir que esta lama negra não sai daqui!

No entanto, estamos a perder estes ecossistemas aquáticos ainda mais depressa do que qualquer outro ecossistema no planeta. Por cada mangal, sapal ou pradaria marinha que destruímos, estamos não apenas enviar o carbono armazenado para a atmosfera, mas estamos também a destruir maternidades marinhas, a erodir a protecção natural contra as tempestades, a impedir a filtragem natural da água, a reduzir a oxigenação…

Estes ecossistemas costeiros existem em todos os continentes excepto na Antártida. Porém, no mundo inteiro já perdemos cerca de 29% das pradarias marinhas, 35% de sapais e 50% de mangais. E persistimos na nossa conduta devastadora!

Tomando consciência da gravidade deste problema, a Fundação Calouste Gulbenkian lançou um projecto pioneiro em Portugal com as seguintes prioridades:

1. Identificação, mapeamento e caracterização (dimensão, condição em que se encontra, taxa anual de sequestro de carbono, entre outras características) dos ecossistemas marinhos e costeiros ricos em carbono azul, em Portugal continental;

2. Definição, com base no mapeamento, das medidas de conservação ou restauro mais adequadas, sua valoração e criação de uma carteira nacional de intervenções nos ecossistemas de carbono azul. Esta informação será disponibilizada às entidades que pretendam investir nestas áreas ou compensar a sua pegada carbónica, em alternativa à compensação feita, por exemplo, através de projectos de reflorestação;

3. Desenvolvimento de um policy brief sobre o potencial de carbono azul em Portugal, com vista a criar um mercado voluntário de carbono azul no nosso país.
(https://gulbenkian.pt/projects/gulbenkian-carbono-azul/)

A um nível mais global, a Blue Carbon Initiative é um programa que trabalha para mitigar as mudanças climáticas por meio da restauração e uso sustentável de ecossistemas costeiros e marinhos. Concentra-se, precisamente, em mangais, sapais e pradarias marinhas. Reúne governos, centros de investigação, organizações não governamentais e comunidades de todo o mundo. A iniciativa é coordenada pela Conservação Internacional (CI), a União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) e a Comissão Oceanográfica Inter-governamental da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (IOC-UNESCO).

E cada um de nós, à nossa pequena escala, o que pode fazer? Podemos, por exemplo, escolher peixe e marisco que foi pescado sem danar a sustentabilidade ambiental e os ecossistemas naturais; podemos optar consumir preferencialmente produtos provenientes de agricultura biológica; podemos andar a pé o mais possível e utilizar veículos menos poluentes como a bicicleta; podemos poupar água; podemos reciclar… Sobretudo, podemos ganhar consciência da nossa ligação com o planeta que nos acolhe. Sim, o planeta acolhe-nos, de certo modo, nós pertencemos-lhe, não somos seus donos como as nossas terríveis acções parecem demonstrar. Enquanto não nos dermos todos conta de que este ponto de vista está tergiversado o nosso modo de agir facilmente se torna prejudicial.

Como professora de Estética e Ética Ambiental que fui, sempre me chamaram à atenção os ditos novos animistas. Estes pensadores inspiraram-se na maneira séria com que alguns povos indígenas interagem com animais, plantas e coisas inanimadas através de rituais, cerimónias e outras práticas. Defendem que a substituição do animismo tradicional ― a visão de que almas personalizadas são encontradas em animais, plantas e outros objectos materiais ― por uma forma de positivismo desencantador leva diretamente a uma perspectiva antropocêntrica, responsável, em grande parte, pelo desrespeito humano pela natureza.

Num artigo intitulado “Adorno and the disenchantment of nature”, o investigador do Reino Unido Alison Stone afirma que num mundo desencantado não há ordem significativa de coisas ou eventos fora do domínio humano, e não há fonte de sacralidade ou pavor do tipo sentido por aqueles que consideram o mundo natural povoado por divindades ou demónios. Quando uma floresta já não é considerada sagrada, quando já não há espíritos que precisam de ser aplacados e nenhum risco misterioso está associado ao desmatamento ou à poluição dos mares e oceanos o homem torna-se um predador-destruidor temível. Uma natureza desencantada não está viva! Por este motivo não impõe respeito, reverência ou amor. Não passa de uma máquina gigante, a ser dominada para servir os propósitos humanos. Assim, os novos animistas defendem uma modificação da fronteira entre pessoas e não-pessoas. Para eles, a natureza viva compreende não apenas humanos, animais e plantas, mas também montanhas, florestas, rios, desertos e até mesmo planetas.

Quer a noção de que uma montanha ou uma árvore deva ser considerada como uma pessoa seja tomada literalmente ou não, a tentativa de se envolver com o mundo circundante como se de pessoas se tratassem pode, possivelmente, fornecer a base para uma atitude respeitosa em relação à natureza. No seu livro Animism. Respecting the Living World o britânico Graham Harvey, especialista em paganismo moderno, descreve de forma muito acessível este modo de estar ido ao mundo. Se o desencanto é uma fonte de problemas ambientais e destruição, então o novo animismo pode ser considerado como uma tentativa de re-encantar e ajudar a salvar a natureza. Mais poeticamente, em The Spell of the Sensuous o filósofo americano David Abram argumentou que uma abordagem fenomenológica na esteira de Merleau-Ponty pode-nos revelar que somos parte da “carne comum” do mundo, que somos, em certo sentido, o mundo pensando-se a si mesmo.

Na sua investigação, a filósofa australiana Freya Mathews tentou articular uma versão do animismo ou pampsiquismo que capta as formas pelas quais o mundo ― não apenas a natureza ― contém muitos tipos de consciência e sensibilidade. Para ela, existe uma unidade subjacente de mente e matéria em que o mundo é um sistema de auto-realização contendo uma multiplicidade de outros sistemas semelhantes. No seu livro For Love of Matter, Mathews considera que estamos emaranhados em comunicação e comunicação potencial com o “Um” ― o eu cósmico maior ― e os seus muitos eus menores. E em Reinhabiting Reality: Towards a Recovery of Culture afirma que o materialismo é auto-destrutivo ao encorajar uma forma de “solipsismo coletivo” que trata o mundo como incognoscível ou como uma construção social. Mathews também se inspira na sua interpretação da ideia taoísta central de wuwei como “deixar ser” e provocar mudanças por meio de “ação sem esforço”. O foco na gestão ambiental, desenvolvimento e comércio deve estar em sinergia com o que já existe, e não na demolição, substituição e interrupção. Em vez de tentar eliminar plantas e animais selvagens ou exóticos e devolver os ambientes a algum estado primitivo imaginado, devem ser encontradas formas de promover sinergias entre os recém-chegados e as populações nativas mais antigas, de maneira a manter os fluxos ecológicos e promover o maior desdobramento e desenvolvimento dos processos ecológicos. O pampsiquismo, argumenta Mathews, liberta-nos da “grade ideológica do capitalismo”, pode reduzir o nosso desejo por novidades de consumo e pode permitir que nós e o mundo envelheçamos juntos com graça e dignidade. Como se pode observar, aqui ecoam também entendimentos indígenas de uma subjetividade ampliada.

Este projecto geral de re-encantar o mundo tem ressonâncias surpreendentes com as visões de outros que se baseiam mais explicitamente em entendimentos científicos da vida na Terra. A ciência dos sistemas terrestres, por exemplo, baseia-se na hipótese de Gaia proposta pelo químico inglês James Lovelock que sugere que os seres vivos agindo juntos regulam aspectos significativos do ambiente global. Escritores posteriores descrevem a hipótese de Gaia como uma conjectura de que algo negligenciado pelo pensamento científico anterior era de vital importância para entender a única coisa que sustenta toda a vida na Terra, ou seja, um grande sistema de retro-alimentação estabilizador que se regula de maneira a manter a habitabilidade do planeta. Este sistema de feedback está sob a ameaça de um clima em mudança, super-população humana e reduções na biodiversidade.

Em síntese, se o desencantamento é uma fonte de atitudes ambientalmente destrutivas ou indiferentes, então tanto o re-encantamento estético e ético, animista/pampsiquista do mundo pretende oferecer um antídoto para tais atitudes, e talvez também inspirações para novas formas de gestão para a sustentabilidade.

***

Grata a Rui Santos, investigador sénior do CCMar/UAlg, pela informação sobre o estado da arte e verificação científica deste artigo. Contaremos com a sua presença no Café Filosófico de Junho.

Café Filosófico Ria Formosa: o pulmão azul | 22 Junho 2023 | 18.30 | Tavira AP Maria Nova Lounge Hotel

Contribuição: 5€ – Inclui água aromatizada / cálice de vinho

Esta sessão terá como convidado especial Rui Santos, Investigador Sénior do CCMAR/UAlg

Inscrições: [email protected]

*A autora escreve de acordo com a antiga ortografia

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