“Três gerações podem edificar um império e para o reduzir a cinzas”.
Ibn Kaldhun, polímata muçulmano, séc. XIV
“Todo o príncipe deverá ambicionar a fama de bondoso e não de cruel,
mas deverá ter a cautela de não empregar mal a sua clemência”.
Nicolau Maquiavel, séc. XVI, in “O Príncipe”
O Estado e as suas funções continuam no centro do debate político actual com duas linhas de força, os que vêem o Estado como elemento central da soberania nacional, protector dos cidadãos, dos seus direitos, outros defendem o “Estado mínimo”, privatizações de recursos públicos, as leis de mercado a controlar as sociedades.
Ao estudarmos os contactos e influências entre povos da bacia do mediterrâneo, é interessante conhecer as diversas filosofias de governação da polis e dos territórios, como evoluíram os modelos políticos desenvolvidos desde a Antiguidade das Cidades-Estado e dos grandes Impérios.

Sociólogo
Platão na “República” desenvolveu a ideia de uma organização política, na qual a justiça era obtida por um sistema hierárquico de filósofos-reis, detentores dos conhecimentos. A harmonia social resultaria da divisão de funções, cada indivíduo desempenhava o que lhe é mais adequado, contribuindo para o bem comum.
O Infante D. Pedro (1392-1449), regente do trono de Portugal na infância de D. Afonso V escreveu a “Carta de Bruges” ao irmão e rei D. Duarte e o “Livro da Virtuosa Benfeitoria”, textos nos quais defende princípios morais humanistas na governação, os muitos benefícios que deles poderiam resultar para os povos.
No século XIV encontramos no mundo muçulmano Ibn Kaldhun (1332- 1406) nascido em Túnis, personalidade destacada do pensamento medieval.
Com origem numa família andaluza de etnia iemenita, fugida às perseguições cristãs no Al Andalus, Kaldhun viveu no Magrebe, revelou-se eficiente como conselheiro de sultões, exercendo também funções de ministro e embaixador.
Com longa experiência e intensa actividade nos bastidores do poder, decidiu aos 45 anos afastar-se da política e dedicar-se à investigação histórico-social, elaborou uma História Universal que antecipou princípios de análise sociológica.
É referido por diversos investigadores como um polimata, pioneiro em várias disciplinas, como a Sociologia, a Filosofia da História ou a História Cultural.
Ibn Khaldun escreveu em 1377 o prefácio do seu primeiro livro da planeada história do mundo, “Kitab al-ibar” ou o Livro de Conselhos.
Estudou a formação dos Impérios cujo surgimento correspondia a aumentos significativos de população, a demografia histórica demonstrou que a densidade populacional e tributação são essenciais ao desenvolvimento do modelo imperial.
Sobre a sociologia, descreveu a dicotomia entre vida sedentária e o nomadismo beduíno, os homens sem Estado, olhando espaços geográficos e a longa duração.
Na “Muqaddimah” desenvolve o conceito de “aṣabiyyah” ou “asabia” que significa “coesão social” ou “solidariedade tribal”, promotora da divisão do trabalho e do fortalecimento da comunidade.
Da coesão social nascem grupos com ligações de parentesco e a mesma cultura religiosa, produzem as elites de poder, dinastias que poderão criar impérios.
O Estado sediado nas cidades assegura o monopólio da violência, tem o exclusivo das forças armadas, integra soldados recrutados nas tribos periféricas, também trabalhadores para actividades produtivas, na agricultura e oficinas de artesãos.
Os árabes das arábias, meio milhão de indivíduos divididos em tribos, derrotaram bizantinos e persas tendo a religião como factor de unidade, permitiu até ao século XI a existência de um império, surgiram então diversas dinastias no Magrebe, almorávidas, almóadas, saadianos, que escolhem o monarca.
Um império ou uma dinastia, segundo Khaldun, é construída e destruída em três gerações de cerca 40 anos em 120 anos de reinados. A primeira geração é a dos conquistadores ou fundadores, a segunda a dos filhos que mantêm fidelidade, recebem benefícios e não perturbam a ordem vigente. A terceira e última não reconhece os vínculos, derruba e altera o regime e as regras.
Ibn Kaldhun morreu no Cairo onde foi professor, antecipou o pensamento moderno.
Nicolau Maquiavel (1469-1527) nasceu em Florença, marcou a política e diplomacia florentinas no Renascimento, apesar de secretário de chancelaria, escreveu das obras mais lidas e estudadas de todos os tempos, “O Príncipe”, que dedicou a Lourenço de Médicis.
É uma Teoria da História, focada na “virtú“, as qualidades do governante, a quem aconselha a não acreditar apenas na bondade e sabedoria, deve usar a violência para se fazer respeitar e temer, os fins justificam os meios, ideia considerada “maquiavelismo”, separação entre a política e a ética, ausência de moralidade.
Maquiavel era admirador da república romana, tem uma visão laica do exercício do poder que antagoniza a concepção da Igreja, foi violentamente atacado pelo fanático dominicano Giralamo Savonarola e seguidores. O conhecimento da sua biografia revelou um pensador independente, diferente da imagem criada.
Napoleão Bonaparte séculos mais tarde foi leitor e estudioso da obra de Maquiavel, que muito publicou e morreu pobre sabendo que a sua obra perduraria no tempo.
As teorias sobre o Estado continuam hoje divergentes, balanceando entre o pluralismo liberal democrático, baseado num Estado de Direito hipoteticamente neutro e o poder autoritário que concentra a decisão política, económica e cultural.
O autor escreve de acordo com a antiga ortografia
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