A vitória de Montenegro é secundária face à da narrativa do Chega, que se tornou o programa eleitoral da AD e também do PS.
Ventura é há muitos anos o vencedor de todas as eleições e debates, desde que passou a ser quem dita os temas e o tempo de discussão. Se não o era antes, tornou-se claro quando o seu refluxo gástrico se sobrepôs a todos os outros assuntos, apesar de não ser uma regurgitação substancialmente diferente das que lhe conhecemos.
Já a ética – mais fundamental do que a legalidade – torna-se cada vez menos uma preocupação para o eleitorado, quando o seu desbaratamento é permanente na acção e postura das figuras políticas.

Autor, tradutor e editor
Chamar fachos a milhões dos seus votantes oculta o problema verdadeiro: quando as condições de vida se degradam, a tendência é procurar refúgio em quem demonstra força, autoritarismo e personaliza o inimigo ao invés de falar da conjuntura
Mais vincada que nunca é a ineficácia de quem desempenha cargos políticos, pois continua a subjugar-se ao cardápio económico e mediático e o discurso redunda invariavelmente no mesmo, com o foco agora em fazer da imigração a ameaça principal quando as guerras – culturais e territoriais – escalam lá fora e quando a crise ambiental nem é sequer já uma consideração. Isso acontece porque personificar o mal em ameaças exteriores, é uma manobra de diversão com resultados comprovados ao longo da história.

É a classe política a responsável pela sua própria aniquilação ao demitir-se de ser, pelo menos, um negociador entre o poder privado e os interesses da população, com a agravante de se aproveitar invariavelmente da sua posição de privilégio. Também a classe jornalística tem responsabilidade ao posicionar-se como para além de qualquer viés ao invés de o assumir como parte da conversa. Quando é gritante que a agenda noticiosa se verga à luta das audiências no que é agora apenas mais uma actividade corporativa, é impossível não secundarizar a informação perante o gerar lucro, conseguido através da espectacularização de todas as coisas, até mesmo apresentando o sobrevivente do refluxo como uma visão abençoada.
À esquerda, o receio de ser radical, moderou o discurso de tal forma que a tornou inócua como uma espécie de PS, promovendo uma versão fofinha deste modelo social selvagem e predatório e abdicando de apresentar uma alternativa real.
Mesmo num modelo de democracia onde a representatividade é pouco mais que irrisória, as zonas de baixa densidade populacional acabam por ver os seus votos desperdiçados quando não aplicados nos partidos maioritários. A forma de resolver isto é com dois boletins de voto, um em que se vota para Primeiro Ministro e outro para o representante regional.
Será certamente uma questão de tempo até que Ventura seja membro do governo ou mesmo PM, os ciclos assim o parecem determinar. Chamar fachos a milhões dos seus votantes oculta o problema verdadeiro: quando as condições de vida se degradam, a tendência é procurar refúgio em quem demonstra força, autoritarismo e personaliza o inimigo ao invés de falar da conjuntura.
A incapacidade de decifrar esse tipo de discurso tem origem na galopante iliteracia cultural e, portanto, política, fruto não só do sistema educativo, mas também das circunstâncias económicas que tornam impossível ou inconcebível para tantos ambicionar mais do que chegar à zona de conforto há tanto prometida, a tal onde apenas os extremamente privilegiados anunciam nada interessante acontecer.
O autor escreve de acordo com a antiga ortografia
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