Foram identificados dois conjuntos de pinturas murais dos séculos XVI/XVII e XVIII, ocultos sob camadas de cal na capela lateral da Igreja Matriz de Santa Maria do Castelo, em Tavira, durante trabalhos de restauro.
Dois conjuntos de pinturas murais foram identificados durante trabalhos de conservação na capela lateral da Igreja Matriz de Santa Maria do Castelo, em Tavira. As imagens estavam ocultas sob camadas de cal e surgiram numa intervenção realizada em 2024.

O achado revelou pintura de dois períodos diferentes, algo sem paralelo conhecido no Algarve e que obrigou a uma avaliação imediata por parte das equipas de restauro.
O primeiro conjunto remonta ao final do século XVI ou início do XVII. O segundo pertence ao século XVIII e encontra-se parcialmente sobreposto ao anterior. A leitura das paredes mostra uma sucessão de intervenções que acompanharam a evolução do espaço religioso ao longo de vários séculos.
A capela, de planta quadrangular, integrou o núcleo funerário da família Melo, ligada à Ordem de Santiago. Passou por diferentes fases de utilização: foi dedicada a São Miguel no século XVI, depois à confraria de Nossa Senhora do Rosário e, mais tarde, partilhada com a confraria do Senhor dos Passos.
Pinturas e decisão de conservação
O conjunto mais antigo inclui figuras de anjos associadas à iconografia mariana do Rosário. Destacam-se anjos músicos representados com instrumentos como corneto, harpa, fagote e cordas semelhantes ao violoncelo, além de outras figuras ligadas à música sacra, num programa decorativo centrado na relação entre liturgia e representação do divino.
O conjunto do século XVIII apresenta decoração vegetalista com rosas, cravos, frutos e cornucópias, por vezes com aplicação de folha de ouro. Este segundo ciclo foi executado a seco e revelou-se mais vulnerável ao desgaste, apesar do valor decorativo que acrescenta ao espaço.
Num período posterior, já no século XX, o interior da capela foi integralmente caiado, o que ocultou ambas as camadas pictóricas até à intervenção recente.
A descoberta colocou os responsáveis perante uma decisão de conservação: preservar as diferentes fases históricas ou valorizar o conjunto mais antigo.
O processo envolveu a paróquia, a empresa In Situ – Conservação e Restauro, a autarquia e a CCDR Algarve, tendo sido dada prioridade às pinturas mais antigas devido ao seu estado de conservação e à sua relevância artística.
O caso da Igreja Matriz de Santa Maria do Castelo mostra como os edifícios históricos resultam de camadas sucessivas de intervenção, onde cada período deixa marcas materiais que coexistem e, por vezes, entram em conflito na hora de restaurar.
EJ/CM
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