Natural de Faro, Francisco Miguel Sousa é hoje um dos rostos mais influentes do setor tecnológico no Médio Oriente. Lidera há oito anos a operação da Talabat no Catar, com a exigência e a precisão de quem gere logística em grande escala. A Talabat é uma plataforma ‘gigante’ de entregas de comida, compras e outros produtos, muito presente no Médio Oriente. Ao Postal do Algarve, Francisco fala da estabilidade do país, da tensão regional e da exigência de decidir com rapidez, contexto e sangue-frio num Médio Oriente sob pressão.
Em entrevista exclusiva ao POSTAL, o gestor diz que o Catar continua a ser um dos mercados mais estáveis e organizados da região, apesar do impacto da guerra no Irão e do agravamento do contexto geopolítico no Médio Oriente.
P – Como gere o contraste entre a estabilidade de Portugal e a realidade geopolítica do Médio Oriente?
R – Com contexto e disciplina emocional. A perceção externa tende a amplificar o risco, mas no terreno a operação é altamente profissional, estruturada e preparada. O foco está em separar o ruído da realidade e garantir decisões baseadas em dados, não em emoção.

O Catar é um dos mercados mais estáveis e organizados da região, mas essa perceção ainda não está totalmente refletida na forma como é comunicado externamente
P – O dia a dia em Doha mudou com o contexto regional ou a operação continua estável?
R – A normalidade continua a prevalecer. Existem ajustes operacionais pontuais, mas o país mantém estabilidade, infraestrutura robusta e níveis de consumo consistentes. A resiliência do ecossistema é clara.
P – Que impacto concreto têm as tensões regionais nas operações e no planeamento da economia em 2026?
R – O impacto é sobretudo ao nível da contingência e do planeamento. Há um reforço das redundâncias logísticas, diversificação de fornecedores e maior foco em cenários alternativos. A estratégia mantém-se, mas com maior operacionalidade e velocidade de resposta. Ao contrário de contextos onde a imprevisibilidade gera bloqueios na decisão, no Catar existe uma forte capacidade de execução: os problemas são rapidamente enquadrados e resolvidos com eficácia.
P – A perceção externa sobre a segurança no Catar está desalinhada com a realidade?
R – Claramente. Existe um desalinhamento entre a narrativa internacional e a realidade local. O Catar é um dos mercados mais estáveis e organizados da região, mas essa perceção ainda não está totalmente refletida na forma como é comunicado externamente.
P – O sentimento no terreno é de confiança ou de preparação para cenários adversos?
R – Ambos. Existe confiança na estabilidade atual, mas também uma preparação contínua para diferentes cenários. A região historicamente desenvolveu uma forte capacidade de operar com incerteza, o que se traduz em sistemas, decisões e liderança mais robustos.
P – A adaptabilidade portuguesa é uma vantagem competitiva real na liderança em contextos voláteis?
R – Sem dúvida. A adaptabilidade, a empatia cultural e a capacidade de leitura de contexto são características muito fortes dos portugueses. Quando combinadas com ambição e capacidade de execução, tornam-se uma vantagem competitiva clara em ambientes multiculturais e exigentes.
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