Rita Bravo quer fazer da poesia um encontro e do Algarve um lugar onde seja possível construir uma vida artística. Campeã nacional de poetry slam em 2025, a poeta de Faro já levou a sua voz ao Mundial de Paris e prepara a participação no Europeu de Graz, na Áustria, em novembro.
Ao POSTAL, fala das raízes que leva consigo, da liberdade de criar para lá dos prémios e da vontade de aproximar a criação artística das pessoas.
Entre as raízes algarvias e a inquietação
Postal – Nasceu, estudou e continua a criar em Faro, mas o seu percurso abriu-se a outros territórios. Que parte da sua identidade artística nasceu do Algarve e que parte só se revelou quando saiu dele?
Rita Bravo – Excelente pergunta. Para falar da minha identidade artística, tenho de falar das minhas raízes algarvias e isso inclui, sobretudo, a natureza. Cresci fora do centro da cidade, rodeada de plantas e animais, com o mar ao longe. Talvez por isso, ainda hoje, o mar continue a ser um dos lugares a que chamo casa. A natureza ensinou-me a parar, a respirar e a observar, e essa aprendizagem está muito presente naquilo que escrevo. O meu primeiro poema, aliás, foi sobre uma flor que nascia no jardim da casa onde cresci.
Mas foi quando vivi em Lisboa e, mais tarde, em Cracóvia, que descobri outra espécie de beleza: a do caos, do movimento e das pessoas. Viajar e viver noutros lugares obrigou-me a sair daquilo que me era familiar e a conhecer outras realidades, culturas e formas de viver. Muitas dessas experiências acabaram por entrar na minha poesia.
Hoje reconheço um contraste muito forte naquilo que escrevo: de um lado, a calma, a contemplação e a ligação à natureza e aos seus elementos; do outro, a inquietação, a desconexão e a complexidade das cidades e das relações humanas. Talvez tenha sido ao sair do Algarve que percebi o quanto ele vivia em mim.

Quando escrevo, não penso em prémios, concursos ou validação. Escrevo porque preciso de escrever
Em C(ALMA), poesia, fotografia e introspeção procuram um lugar de serenidade; IN(QUIETA) parte da rutura para alcançar a harmonia. O que mudou em si e na sua escrita entre os dois projetos?
Da obra C(ALMA) à IN(QUIETA) sinto que passei de uma escrita mais centrada no olhar para dentro para uma escrita que, sem deixar de ser íntima, procura compreender o que existe à minha volta. C(ALMA) nasceu muito da necessidade de me escutar e de procurar respostas para as perguntas inquietas que tinha — e que continuo a ter. IN(QUIETA) nasce da experiência e da consciência de que a inquietude também pode ser um lugar de recomeço, descoberta e contemplação.
Hoje sinto que tenho menos necessidade de encontrar respostas imediatas. Interessa-me mais explorar possibilidades, viver o imprevisível, atravessar a dúvida e aceitar aquilo que ela pode revelar. Acho que essa foi uma das maiores mudanças na minha escrita: aprendi a confiar mais no processo do que na resposta.
A própria estrutura da IN(QUIETA) — rutura, procura, alquimia e harmonia — traduz esse percurso. Não vejo a plenitude como um estado permanente, mas como a capacidade de encontrar serenidade mesmo quando a vida continua a ser inquieta. Afinal, a harmonia não está em deixarmos de ser inquietos, mas em aprendermos a escutar aquilo que a inquietude nos quer dizer.
Do silêncio da página aos palcos internacionais
A escrita poética nasce na intimidade, mas IN(TEMPO) e o poetry slam expõem palavra, voz e corpo ao público. O que ganha — e o que perde — um poema quando deixa a página e sobe ao palco?
Na página, o poema pertence muito ao silêncio e à imaginação de quem o lê. No palco, ganha corpo. Passa a existir também através da voz, da respiração, do gesto, do ritmo e da relação com quem está a ouvir. O corpo torna-se, de certa forma, parte do próprio poema. Uma mesma peça pode ser exatamente igual no papel e no palco e, ainda assim, tornar-se uma experiência completamente diferente.
Mas também há algo que se perde: o controlo sobre a interpretação. No palco, há uma entrega. O poema deixa de ser apenas meu e passa a pertencer, de alguma forma, àquele momento e às pessoas que o recebem. Na verdade, isso é o que mais me fascina no poetry slam: a poesia deixa de ser um objeto fechado e transforma-se num encontro. E há algo de profundamente humano nesse momento em que uma experiência que nasceu na intimidade de quem escreve encontra o corpo e a escuta de quem está do outro lado.
Distinções literárias, uma bolsa de criação e o título nacional de poetry slam reconheceram facetas diferentes do seu trabalho. Como a competição e o reconhecimento impedem que a liberdade de criar se manifeste?
Acho que o reconhecimento pode ser simultaneamente gratificante e uma armadilha. É maravilhoso sentir que o nosso trabalho chega a alguém e é valorizado, mas existe sempre o risco de começarmos a criar para corresponder àquilo que já foi reconhecido ou às expetativas que esse reconhecimento cria.
Por isso, tento separar as duas coisas. Quando escrevo, não penso em prémios, concursos ou validação. Escrevo porque preciso de escrever. Depois, há momentos em que decido colocar esse trabalho num determinado contexto competitivo ou apresentá-lo a alguém. O desafio está em não deixar que esse contexto determine aquilo que quero dizer, nem transformar aquilo que faço numa resposta às expetativas dos outros.
Curiosamente, o slam ensinou-me que competir não significa necessariamente estar contra alguém. Muitas vezes, significa desafiar-nos a nós próprios, testar os limites da nossa linguagem e descobrir até onde conseguimos levar um poema. No fundo, tento lembrar-me de que o reconhecimento pode ser uma consequência bonita do caminho, mas nunca pode ser o motivo pelo qual o caminho existe.

Representar Portugal no Mundial de Paris expôs a sua poesia a outras línguas, ritmos e públicos. O que essa experiência lhe revelou sobre a poesia portuguesa e sobre a identidade artística que quer levar a Graz?
Paris mostrou-me que a poesia pode atravessar fronteiras mesmo quando as palavras não são imediatamente compreendidas. Estar num espaço com poetas de tantos países, línguas e culturas fez-me perceber como existem experiências profundamente universais — o amor, a perda, a identidade, o medo, a esperança — mas também como cada pessoa encontra uma forma singular de lhes dar voz.
Ao mesmo tempo, fez-me valorizar ainda mais aquilo que é específico da nossa língua e da nossa cultura. Quando estamos rodeados de outras línguas, percebemos melhor a nossa própria.
Para Graz, levo a minha identidade e forma de olhar o mundo, que, inevitavelmente, foi construída a partir do lugar de onde venho, das pessoas que encontrei e dos lugares por onde passei. Representar Portugal é, para mim, levar o Algarve comigo. É levar uma língua, uma paisagem, uma memória, um cheiro e uma voz que nasceu aqui, mas que não precisa de ficar só por aqui.
Criar comunidade a partir do Algarve
Criou o Poets Wanted, promove workshops com jovens e trabalha numa incubadora de inovação social em Faro. Que sinais lhe mostram que a poesia deixou de ser apenas expressão individual e começou, de facto, a transformar uma comunidade?
Penso que o maior sinal seja quando alguém percebe que também tem uma voz, e que essa voz importa. Quando alguém que inicialmente diz “eu não sei escrever poesia” e acaba por escrever alguma coisa que nunca tinha conseguido dizer em voz alta, percebo que a poesia já fez qualquer coisa.
O Poets Wanted, por exemplo, nasceu da vontade de criar um espaço onde todos pudessem ter voz, ser ouvidos e encontrar pessoas com interesses semelhantes, a começar pela poesia. Nos workshops, a partilha acontece através de exercícios ligados à criatividade, a práticas de mindfulness, ao uso dos sentidos e das emoções, entre outras ferramentas que nos convidam a estar mais atentos a nós próprios e ao mundo que nos rodeia. Porque, no fundo, a poesia somos nós. E, para conseguirmos escrevê-la, temos de aprender a descrever aquilo que somos, e isso só é possível através da escuta, da observação e da presença.
É daí que também vejo o potencial da poesia enquanto ferramenta de transformação social. A poesia não resolve, por si só, os problemas de uma comunidade, mas pode abrir espaço para o diálogo, despertar empatia e permitir-nos olhar para as mesmas realidades a partir de outras perspetivas. Muitas vezes, uma mudança começa na capacidade de olhar para um problema de uma outra forma.
Com o mestrado em Processos de Criação prestes a começar, que futuro artístico quer construir a partir do Algarve e que mudança espera provocar através dele?
Gostaria de construir um percurso artístico em que não tenha de escolher entre a poesia, a performance, a música, a comunicação e o trabalho com a comunidade. Interessa-me particularmente o lugar onde essas linguagens se cruzam e gostaria de o explorar a partir do Algarve, porque acredito que a arte pode ser também uma forma de criar comunidade, gerar diálogo e provocar mudança.
Durante muito tempo, pareceu-me que para ter uma carreira artística, era necessário sair daqui. Hoje, penso que talvez uma das coisas mais interessantes que posso fazer seja criar condições para que seja possível ficar, desenvolver e reencontrar uma comunidade.
O mestrado surge nesse caminho como uma oportunidade para aprofundar a minha prática, experimentar e investigar novos processos de criação. No futuro, gostaria de desenvolver projetos que aproximassem a arte das pessoas e que contribuíssem para o desenvolvimento do território, para que o Algarve seja também uma região viva de criação, encontro e transformação.
Se conseguir que alguém se sinta mais livre para criar, mais disponível para escutar o outro ou simplesmente mais atento ao mundo depois de entrar em contacto com o meu trabalho, já estarei a provocar a mudança que procuro.

Uma flor, um poema e o caminho de Rita Bravo até ao palco
Rita Bravo tinha dez anos quando uma flor lhe abriu caminho para a poesia. Numa aula de Língua Portuguesa do 5.º ano, a professora pediu à turma que escrevesse um poema. Em poucos minutos, encontrou as palavras e as rimas para descrever uma flor que imaginava no jardim de casa. É assim que a autora recorda, num relato autobiográfico partilhado com o POSTAL, a primeira memória concreta da sua ligação à escrita poética.
No final da aula, a professora chamou-a à parte. Estava impressionada e considerava o poema o melhor da turma. Rita lembra-se das borboletas no estômago e da pergunta que então se colocou: “Uau, que giro. Se calhar tenho jeito para isto. Será que vou seguir poesia?”
Na adolescência, a escrita ganhou também uma função de companhia. Filha única, habituara-se a passar tempo sozinha. Ao chegar a casa, escrevia sobre o dia, registava aprendizagens e procurava compreender o que sentia. No papel, encontrava uma conversa sem julgamento. “O silêncio, a música e o mar sempre foram os meus ruídos favoritos”, escreve.
As mudanças de escola e a dificuldade em sentir que pertencia verdadeiramente a um lugar ou a um grupo alimentavam perguntas. Rita passava-as para o papel, em textos de reflexão que procuravam transformar inquietações em algo mais próximo de uma resposta. Quando escolhe três palavras para se descrever desde criança, aponta “curiosa, criativa e resiliente”.
Da comunicação à descoberta de um lugar de pertença
No ensino secundário, integrou a equipa do jornal da Escola Secundária João de Deus, em Faro. No último ano, mudou-se para a Escola Secundária Francisco Fernandes Lopes, em Olhão, onde colaborou com a revista e foi líder da rádio escolar.
A Casa da Juventude de Olhão proporcionou-lhe outra experiência: o teatro. Nesse ano, desempenhou o primeiro papel como atriz e descobriu uma relação diferente com o palco. Já não se tratava apenas de se expressar, mas de conduzir o espectador pela vida de uma personagem, através das palavras, das emoções e dos gestos.
Na universidade, começou por frequentar Línguas, Literaturas e Culturas, no ramo de Francês e Inglês. Acabou por se licenciar em Ciências da Comunicação, na Universidade do Algarve. A mudança respondeu à procura de um equilíbrio entre teoria e prática e permitiu-lhe explorar áreas como a comunicação audiovisual, a psicologia, a publicidade e os métodos de investigação.
O percurso conduzia-a a uma ideia: “Tudo o que fazemos é comunicação.” No final da licenciatura, a pergunta passou a ser como comunicar ao mundo aquilo que fazia. Já escrevia contos, poemas e músicas, e não queria separar a escrita da dança, do teatro ou das outras formas de expressão em que encontrava liberdade.
Seguiu para Lisboa e frequentou o curso de Promoção e Produção de Música, na World Academy, em Carnaxide. Recorda essa formação como a primeira experiência num ambiente verdadeiramente alinhado com o que a movia. Diz ter passado de uma aluna de 13 valores para uma aluna de 18 e 19, descobrindo a diferença de estudar aquilo que a apaixonava. Mais do que os resultados, encontrou pessoas com quem se identificava e um sentimento de pertença. “Afinal, era ao mundo artístico que eu pertencia.”
Um livro na estante e um microfone aberto em Cracóvia
No final do curso, cada aluno tinha de apresentar um projeto editorial de autoria. Rita escolheu um livro, concretizando um objetivo que já a acompanhava. Nasceu assim a primeira edição de “C(ALMA)”, reunindo poemas escritos entre os 16 e os 25 anos e fotografias de Rafael Duarte, um amigo que aceitou participar no projeto.
A experiência desenvolveu-se na disciplina de Projeto Editorial, lecionada por Alexandre Cortez. Depois, o livro ficou na estante: chegara o momento de procurar um trabalho “a sério”, como escreve no seu relato.
Trabalhou como promotora de marcas, bartender e empregada de mesa. Juntou dinheiro para emigrar e encontrou na Polónia uma oportunidade profissional na área da Comunicação. Já em Cracóvia, nos primeiros meses, conheceu Lígia Reyes, escritora e colega de trabalho. Da aproximação entre as duas nasceu a ideia de organizar encontros de poesia com microfone aberto.
A pergunta era simples: e se todas as pessoas tivessem um palco onde pudessem expressar-se e partilhar a sua poesia? Pensavam em artistas, amantes da literatura e cidadãos de diferentes nacionalidades e percursos que procurassem um espaço para dizer aquilo que tinham dentro de si.
Assim surgiram os eventos Poets Wanted, com a intenção de criar uma comunidade internacional em torno das palavras. O primeiro realizou-se no Teatro Barakah, em parceria com este espaço e a Câmara Municipal de Cracóvia, e é recordado pela autora como “um verdadeiro sucesso”.
Entre a folha de um exercício escolar e um palco aberto a outras vozes, Rita reconhece um percurso que não conseguiria antecipar aos dez anos. “A poesia tinha entrado na minha vida através de uma flor, num exercício de escola, quando eu tinha dez anos. Sem eu saber, estava apenas a começar”.
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