O planeta está a mudar diante dos nossos olhos. Os fenómenos extremos deixaram de ser avisos ocasionais para se tornarem o batimento acelerado de uma Terra febril. Ondas de calor sem precedentes, secas prolongadas, incêndios devastadores, tempestades cada vez mais violentas e inundações que deslocam milhões de pessoas fazem agora parte da nova normalidade.
A ciência tem sido inequívoca: estes fenómenos estão diretamente ligados ao aquecimento global acelerado pela atividade humana. Ainda assim, num dos momentos mais decisivos da história contemporânea, assiste-se ao regresso de algo que muitos julgavam ultrapassado: a negação dos factos científicos. É um retrocesso absolutamente imprevisível.
Essa realidade ficou particularmente evidente na recente Conferência de Bona, na Alemanha, encontro preparatório das Nações Unidas para a COP31, prevista para 2026. Longe dos holofotes mediáticos, este é o barómetro do verdadeiro estado da cooperação internacional. E o retrato que emerge é inquietante: em vez de discutir soluções para a crise climática, o mundo parece voltar a discutir se a própria crise existe nos termos definidos pela ciência.
Durante décadas, as negociações climáticas assentaram num princípio fundamental. Os governos podiam divergir quanto às medidas, aos prazos ou aos custos da transição ecológica, mas partilhavam uma base comum de conhecimento científico. Esse consenso permitia que a política debatesse o “como”. Hoje, porém, regressa a discussão sobre o “se”. E quando os factos passam a ser objeto de disputa ideológica, a própria possibilidade de ação coletiva fica ameaçada.
Esta mudança reflete uma ordem internacional cada vez mais fragmentada, marcada pela competição entre grandes potências. As alterações climáticas deixaram de ser apenas um desafio global para se transformarem num campo de batalha geopolítico.
Numa época dominada pelo “negocionismo” – a crença de que tudo pode ser reduzido a uma transação – os Estados Unidos voltaram a assumir uma posição de rutura face ao consenso climático internacional. A desconfiança em relação à ciência, o nacionalismo económico e a rejeição de compromissos multilaterais transformaram a maior potência mundial num dos principais fatores de bloqueio. Mas seria ingénuo reduzir esta realidade a uma divisão entre defensores e opositores da ação climática. Também China e Índia utilizam a agenda climática como instrumento de afirmação estratégica. O combate às alterações climáticas tornou-se, assim, inseparável da disputa pela influência global.
Neste cenário, a União Europeia permanece como uma das últimas grandes potências a defender, de forma consistente, uma visão baseada na ciência, na cooperação internacional e no multilateralismo. A Europa está longe de ser perfeita. Enfrenta contradições internas, dificuldades económicas e resistências políticas. Contudo, continua a sustentar uma ideia essencial: os factos científicos não são uma opinião entre muitas outras; são o ponto de partida para qualquer decisão racional. O que durante décadas pareceu um princípio elementar tornou-se hoje uma posição política.
Enquanto as grandes potências medem forças, a crise climática não espera. Os termómetros sobem, os incêndios destroem territórios, as secas ameaçam comunidades e os fenómenos extremos multiplicam-se. A natureza não reconhece fronteiras, não participa em campanhas eleitorais nem negoceia compromissos diplomáticos.
A principal lição de Bona talvez seja esta: o maior perigo já não reside apenas na insuficiência das soluções. Reside na erosão do consenso sobre os próprios factos. Quando a ciência deixa de orientar a política e passa a ser refém da geopolítica, é como enfrentar uma tempestade depois de abandonar a bússola. Numa crise desta dimensão, renunciar ao conhecimento é escolher a deriva.
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