O novo Relatório da Democracia do V-Dem confirma uma mudança que já não pode ser tratada como episódica. A democracia está em regressão. Em 2025, 44 países encontravam-se em processo de autocratização. E o recuo já não acontece longe de nós.Há uma evolução negativa em algumas democracias ocidentais, incluindo os Estados Unidos, a Itália e o Reino Unido. A democracia liberal enfrenta hoje sinais de alarme que já não podem ser ignorados.
Não estamos perante uma simples mudança no equilíbrio entre esquerda e direita. É outra coisa. Uma mudança de terreno.A corrente populista percebeu que há uma maneira muito eficaz de fazer política: escolher as palavras, simplificar-lhes o sentido, decidir onde circulam e, sobretudo, quem lhes dá credibilidade. As redes sociais deixaram de ser apenas canais de comunicação. Tornaram-se fontes privilegiadas de informação, comentário e interpretação. Em tudo isto, uma mesma operação: transformar questões complexas em testes de pertença – imigração, segurança, género, diversidade,identidade nacional, justiça. De que lado é que estás?
A cultura tornou-se uma espécie de fronteira. Já não separa apenas ideias. Separa pessoas. O woke foi particularmente útil para isso. Uma palavra elástica, suficientemente larga para caber quase tudo. Diversidade. Linguagem inclusiva. Ativismo identitário. Debates sobre género, raça e discriminação. Tudo pode entrar no mesmo saco. E, uma vez lá dentro, já não é preciso discutir cada coisa. Basta dizer “woke”. É uma palavra que poupa trabalho.
Nada disto pode ser simplesmente tratado como ignorância ou intolerância. Há problemas reais por baixo desta reação. A perda de confiança nas elites, a distância em relação às instituições, as tensões associadas à imigração, as mudanças sociais e a sensação de que algumas transformações culturais foram demasiado rápidas. O problema começa noutro lugar, quando o medo impregna a discussão e eleger culpados se torna mais fácil — e eleitoralmente mais rentável — do que encontrar soluções.
É aqui que a resposta começa a ganhar outra dimensão. Já não se limita a contestar ideias. Quer refazer o lugar das instituições. Programas de diversidade são eliminados e a identidade de género volta a ser tratada como patologia, enquanto políticas de inclusão são revertidas. Universidades, comunicação social, organismos científicos, justiça e outras instituições são apresentados como partes de um sistema capturado pelas elites e, por isso, como estruturas a controlar, desmantelar ou reconstruir.
É neste ponto que a disputa cultural muda de natureza. Deixa de ser apenas uma questão de valores e passa a envolver instituições, direitos e poder. O Relatório V-Dem identifica precisamente este padrão nos processos contemporâneos de autocratização: ataques à liberdade de expressão e aos meios de comunicação, pressão sobre a sociedade civil, enfraquecimento dos mecanismos de controlo do poder, erosão das instituições. E, em última instância, reversões nos modelos constitucionais.
E os partidos moderados podem acabar por lhe abrir caminho. Basta o medo de parecerem brandos. Uma suspeita lançada sobre a comunicação social. Uma fronteira mais dura. Um retorno mais severo na política de imigração. Uma reversão na lei da autodeterminação da identidade de género. Uma palavra abandonada para não desagradar. Cada gesto parece pequeno. É a soma que muda o centro. O populismo não precisa de ganhar todas as batalhas. Basta-lhe deslocar o lugar a partir do qual as outras forças políticas passam a responder.
É assim que uma ideia deixa de parecer radical. Primeiro provoca. Depois incomoda. Depois entra no debate. Finalmente, torna-se normal.
As forças políticas iliberais querem mudar muito mais do que o governo. Em muitos casos, querem alterar o próprio espaço em que a política acontece. Não querem apenas ganhar eleições, mas redefinir os limites do que pode ser dito, ensinado, reconhecido, contestado e institucionalizado.
As palavras já não são apenas palavras. Tornaram-se território. Território de disputa e poder. Quem controla o vocabulário começa a controlar aquilo que pode ser pensado como legítimo. Talvez seja aqui que esteja a verdadeira questão.
A questão já não é saber se a democracia está sob pressão. Sabemos que está. É perceber quando uma sociedade continua a acreditar na democracia, mas começa a considerar incómodas as regras e os limites que a sustentam. A democracia raramente desaparece com estrondo. Às vezes, começa por parecer apenas menos necessária. E talvez seja precisamente aí que devemos começar a preocupar-nos.
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