O impacto do custo de vida nas famílias numerosas voltou a ganhar atenção numa altura em que alimentação, energia, roupa e despesas do dia a dia continuam a pesar cada vez mais nos lares europeus. Em Espanha, o tema ganhou novo destaque com o testemunho de Raquel e Francisco, um casal com 12 filhos e outro a caminho, que contou no programa Espejo Público como gere uma casa com muitos membros sem alterar de forma radical o estilo de vida, apesar da subida generalizada dos preços.
A família admite que o aumento do custo de vida se faz sentir, mas rejeita a ideia de viver em permanente contabilidade. Francisco explica que, numa casa desta dimensão, há sempre despesas inesperadas e que a subida dos preços acaba por ser apenas mais uma pressão entre muitas outras, de acordo com o jornal digital espanhol Noticias Trabajo.
Ainda assim, o casal tem uma noção clara do peso total do orçamento. Sem luxos, aponta para um gasto anual na ordem dos 40 mil euros, um valor que ajuda a perceber como a dimensão do agregado transforma qualquer aumento de preços num problema mais visível.
Uma casa grande onde cada escolha pode fazer diferença
Numa família com tantos filhos, o impacto da inflação não se resume ao supermercado. Há mais comida para comprar, mais roupa para substituir, mais encargos escolares e mais imprevistos do que num agregado de menor dimensão.
Raquel e Francisco explicam que, por isso mesmo, acabam por ajustar o consumo sempre que é preciso. Aproveitar roupa entre irmãos, travar compras ao que é realmente necessário e aceitar que nem todos os pedidos podem ser satisfeitos faz parte da gestão diária da casa.
“Eles próprios veem a realidade. Às vezes não se atrevem a dizer que querem ir a todos os aniversários ou coisas assim”, explica a mãe, sublinhando que, numa família numerosa, até pequenas decisões têm peso no orçamento.
Dinheiro é importante, mas não decisivo
Apesar das contas exigentes, o casal, com 12 filhos, diz que nunca equacionou deixar de os ter por razões económicas, de acordo com a mesma fonte. Mais do que os números, destaca uma forma de viver assente na adaptação, na contenção e numa visão menos centrada no consumo. “Desde que casámos nunca nos faltou nada”, afirma Raquel, associando essa estabilidade à forma como o casal encara a vida e organiza as prioridades dentro de casa.
O caso mostra que, mesmo em contexto de aperto financeiro, há famílias que tentam responder à subida dos preços sem mudar por completo o seu projeto de vida. Isso não significa ausência de dificuldades, mas antes uma tentativa de as absorver com escolhas mais prudentes, refere ainda o Noticias Trabajo.
Em Portugal, a pressão também existe
Em março de 2026, a taxa de inflação estimada pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) subiu para 2,7%, sinal de que a pressão sobre os orçamentos familiares continua longe de desaparecer.
Os dados oficiais mostram também que a despesa média anual dos agregados familiares em Portugal foi de 23.900 euros em 2022/2023 e que cerca de dois terços desse valor se concentraram em habitação, alimentação e transportes. Só a habitação representou 39,3% da despesa média e a alimentação 12,9%, o que ajuda a perceber porque é que qualquer subida nestas rubricas pesa tanto no fim do mês.
Além disso, o INE indicou que os agregados com crianças dependentes gastam, em média, mais 8.861 euros por ano do que os agregados sem filhos dependentes. Num país onde 15,4% das pessoas estavam em risco de pobreza em 2024, a gestão de uma família numerosa torna-se, por isso, um exercício ainda mais exigente.
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