Tendo capacidade para 400 mil passageiros por ano, este aeroporto parece desproporcional para uma cidade de apenas 90 mil habitantes, onde a rede elétrica nacional nem sequer chega. A eletricidade é fornecida pelo país vizinho ou através de alguns painéis solares, e a água potável é escassa, obrigando as famílias a racionar o consumo diário. Localizado na cidade costeira de Gwadar, no Paquistão, o novo Aeroporto Internacional contrasta fortemente com a realidade que o rodeia. O Baluchistão, província onde se insere, é uma das mais pobres e instáveis do país, marcada por décadas de conflito e carências básicas que afetam o dia-a-dia da população.
O projeto, avaliado em 240 milhões de dólares (aproximadamente 207 milhões de euros) faz parte do Corredor Económico China-Paquistão (CPEC), um investimento multibilionário que liga a província chinesa de Xinjiang ao Mar Arábico. Para as autoridades, trata-se de um motor de desenvolvimento. Para muitos locais, é apenas mais uma obra pensada para servir interesses externos, refere a Executive Digest.
Opinião de um especialista
O especialista Azeem Khalid resume esta perceção numa frase: “Este aeroporto não é para o Paquistão ou Gwadar. É para a China, para que os seus cidadãos possam ter acesso seguro a Gwadar e ao Baluchistão.” A afirmação ecoa um sentimento crescente entre a população, que vê pouca melhoria nas condições de vida desde que o projeto foi anunciado.
O Baluchistão é rico em recursos minerais e ocupa uma posição geoestratégica crucial, mas isso também o tornou alvo de disputas e insurgências. Grupos separatistas acusam o Governo de explorar as riquezas locais sem beneficiar a população, atacando tanto forças militares como trabalhadores estrangeiros, com destaque para os chineses.
Cidade fortemente militarizada
A minoria étnica balúchi denuncia discriminação e exclusão de oportunidades noutras regiões do país, acusações que Islamabad rejeita, segundo a mesma fonte. Entretanto, para proteger os investimentos e os trabalhadores chineses, Gwadar transformou-se numa cidade fortemente militarizada, com postos de controlo, barricadas e vigilância permanente.
As ruas podem ser encerradas sem aviso, vários dias por semana, para a passagem de comboios de segurança que escoltam engenheiros e figuras políticas. Para os habitantes, tornou-se rotina viver com restrições constantes à mobilidade e sob a sensação de estarem sempre a ser observados.
Há meio século, a história era diferente. Gwadar pertencia a Omã e funcionava como escala para navios a caminho de Mumbai. O trabalho era abundante, a pesca garantia sustento, e a água potável estava sempre disponível. Hoje, a seca prolongada e a exploração excessiva esgotaram as reservas, deixando um cenário de escassez e incerteza.
O Governo garante que o CPEC criou cerca de 2 mil empregos locais, mas nunca especificou se “local” significa habitantes do Baluchistão ou trabalhadores vindos de outras regiões. Para muitos residentes, a sensação é de que os benefícios ficaram nas mãos de quem chegou de fora.
Clima de medo
Desde o início da insurgência balúchi, há cinco décadas, milhares de pessoas desapareceram. Moradores e ativistas denunciam detenções arbitrárias, desaparecimentos forçados e casos de tortura. O Governo nega estas acusações, mas o clima de medo é evidente, segundo a mesma fonte.
Após uma grande operação militar em 2014, a violência diminuiu, mantendo-se relativamente estável até ao final da década. Contudo, desde 2021 os ataques voltaram a aumentar, impulsionados pelo fim do cessar-fogo entre o talibã paquistanês e o Governo, em novembro de 2022.
Entre os grupos mais ativos está o ilegal Exército de Libertação Balúchi, que intensificou ações armadas e ganhou encorajamento de alianças informais com outras forças militantes. A instabilidade tornou-se, mais uma vez, uma constante no quotidiano do Baluchistão.
Questões que atrasaram a inauguração
Estas questões de segurança atrasaram a inauguração oficial do aeroporto. As autoridades temiam que as montanhas circundantes pudessem servir de ponto estratégico para ataques. Em vez de uma grande abertura, houve apenas uma cerimónia virtual entre o primeiro-ministro paquistanês Shehbaz Sharif e o seu homólogo chinês Li Qiang.
O primeiro voo, reservado a convidados, foi mantido longe da imprensa e da população. Nenhuma data foi anunciada para a abertura ao público, deixando a estrutura como um símbolo parado de promessas por cumprir, de acordo com a Executive Digest.
Problemas prosseguem em Gwadar
Enquanto o aeroporto permanece vazio, Gwadar continua a enfrentar a mesma escassez de água, as mesmas falhas de energia e as mesmas barreiras físicas e políticas que travam o desenvolvimento. Para muitos, é o retrato de um investimento que chegou demasiado cedo ou para as pessoas erradas.
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