Viajar para o Algarve fora de julho e agosto pode ganhar peso entre os turistas que procuram escapar ao calor extremo e, em alguns casos, encontrar preços mais baixos. Os inquéritos da European Travel Commission mostram que o clima influencia as escolhas dos viajantes, enquanto os registos meteorológicos deste verão voltaram a colocar o interior algarvio acima dos 40°C.
Julho de 2026 foi classificado pelo Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) como “muito quente” em Portugal continental e tornou-se o sétimo julho mais quente desde 1931. A temperatura média mensal atingiu 24,04°C, mais 1,41°C do que a normal de 1991-2020, enquanto a média das máximas chegou aos 31,46°C, ficando 1,96°C acima do valor normal.
O valor mais elevado do mês em Portugal continental foi registado a 3 de julho, quando os termómetros atingiram 44,3°C em Mora, no distrito de Évora. A onda de calor que começou nos últimos dias de junho e terminou a 11 de julho foi considerada pelo IPMA uma das mais relevantes desde 1981, apresentando a maior magnitude e a segunda maior extensão espacial entre os episódios analisados.
Verão de 2026 trouxe mais de 42°C ao interior do Algarve
O Algarve também ultrapassou a barreira dos 40°C. Dados da rede de estações meteorológicas automáticas do IPMA, indicam que Martim Longo, no concelho de Alcoutim, chegou aos 42,3°C a 1 de julho e aos 41,7°C no dia seguinte. Na estação de Cavalos de Caldeirão, no concelho de Loulé, foram registados 39,6°C a 2 de julho.
O calor voltou a superar os 40°C em agosto. Segundo os dados do IPMA citados pela mesma publicação, Martim Longo atingiu 40,1°C no dia 8, igualando São Pedro do Corval, no Alentejo, como o valor mais elevado registado nesse dia na rede. No Algarve, a estação do aeródromo de Portimão chegou aos 36,3°C e a de Cavalos de Caldeirão aos 36,1°C.
A nível nacional, o resumo preliminar do IPMA para agosto, divulgado a 9 de setembro, aponta para um máximo mensal de 43,5°C, registado no Pinhão a 18 de agosto. Apesar destes extremos, agosto apresentou uma temperatura média de 23,07°C em Portugal continental, apenas 0,16°C acima da normal de 1991-2020. O mês foi também o quinto agosto mais chuvoso desde 1931, pelo que os episódios de calor intenso não traduzem, por si só, as condições de todo o mês.
AHETA aponta boas perspetivas para setembro e outubro
A Associação dos Hotéis e Empreendimentos Turísticos do Algarve (AHETA) também vê com otimismo o prolongamento da atividade turística depois de agosto. “A perspetiva para setembro e outubro é positiva”, afirmou Hélder Martins à Lusa, em declarações divulgadas na quinta-feira da passada semana. O dirigente destacou o contributo do tempo favorável e a procura de visitantes com maior disponibilidade e capacidade de despesa após o regresso às aulas.
Após o início do ano letivo nas escolas, há uma “diversificação” do cliente para “pessoas com mais disponibilidade de tempo, mais poder de compra”, que são, normalmente, as que mais procuram o Algarve em setembro e outubro.
“Eu espero que isso continue a verificar-se, porque são dois meses que ainda fazem parte do verão e que permitem ter um complemento daquilo que são os meses normais de verão, antes de chegar ao período de novembro, dezembro e janeiro, que são, de facto, os piores meses para o Algarve”, concluiu.
Outono pode ganhar terreno entre os turistas
Uma investigação da European Travel Commission (ETC), organização sem fins lucrativos dedicada ao desenvolvimento sustentável do turismo europeu, divulgada em julho, concluiu que 76% dos inquiridos afirmam que fatores relacionados com o clima influenciam o seu comportamento nas viagens. O estudo acompanha dez mercados emissores europeus, entre os quais o Reino Unido, a Alemanha, a França e Espanha.
Entre as adaptações identificadas estão a procura de destinos com temperaturas mais amenas, a consulta das previsões meteorológicas antes da reserva e a decisão de evitar locais propensos a calor extremo. Estes resultados mostram que o clima pesa nas escolhas, mas não demonstram, por si só, uma transferência de reservas de julho e agosto para o outono no Algarve.
O próprio estudo apresenta um contraponto importante: o verão continua a dominar as intenções de viagem, com 86% a preverem viajar entre junho e setembro. O sul da Europa e a região mediterrânica mantêm-se como a área preferida, escolhida por 61% dos potenciais viajantes, mais quatro pontos percentuais do que um ano antes.
É neste contexto que a chamada época intermédia — os períodos entre o pico turístico e a época baixa — pode ganhar importância. No Algarve, a diferença de temperaturas é significativa quando se comparam as médias de longo prazo: segundo as normais climatológicas do IPMA para 1991-2020, a média das máximas em Faro é de 29,4°C em julho e de 29,2°C em agosto, descendo para 26,4°C em setembro e 23,3°C em outubro. Estes valores são médias históricas, não previsões para uma determinada semana de férias.
O enquadramento europeu também aponta para um clima em mudança. Segundo o relatório sobre o Estado do Clima na Europa em 2025, produzido pelo serviço Copernicus e pela Organização Meteorológica Mundial, pelo menos 95% da Europa registou temperaturas anuais acima da média nesse ano. A Europa é o continente que está a aquecer mais rapidamente, a um ritmo superior ao dobro da média mundial. Os indicadores do Copernicus situam a temperatura média sobre as áreas terrestres europeias nos últimos cinco anos cerca de 2,4°C acima dos valores típicos da segunda metade do século XIX.
Férias fora da época alta podem trazer preços mais baixos
A mudança de datas também pode trazer diferenças relevantes no preço. A associação britânica de agências de viagens e operadores turísticos ABTA aponta a flexibilidade nas datas e a escolha de períodos fora da época de maior procura como formas de reduzir os custos e encontrar destinos menos concorridos.
Isso não significa que outubro seja sempre mais barato do que agosto. A comparação deve considerar as datas concretas, os aeroportos de partida, a duração da estadia, o tipo de quarto e o regime de refeições. Uma oferta pontual também não permite concluir que todos os hotéis ou pacotes de férias de um destino seguem a mesma diferença de preços.
A Travel Forward, organização sem fins lucrativos que trabalha com destinos e empresas turísticas, sublinha que os riscos climáticos já estão a alterar as condições em que o setor opera. A organização defende uma resposta coordenada entre entidades públicas e privadas, com a adaptação às alterações climáticas integrada nas decisões dos destinos, em vez de tratada como uma preocupação secundária.
Espanha também procura turistas fora do pico do verão
A procura de alternativas à época alta não se limita a Portugal. Espanha foi o país estrangeiro mais visitado por residentes na Grã-Bretanha em 2024, com cerca de 18,2 milhões de visitas, segundo as estimativas do Office for National Statistics (ONS), corrigidas em 4 de setembro de 2026. Os números contabilizam viagens realizadas, não pessoas distintas, e permanecem sujeitos a revisão.
Atrair visitantes fora da época alta e para destinos menos procurados faz parte da orientação turística espanhola. Na apresentação de uma campanha internacional da Turespaña, em junho de 2025, o Governo espanhol enquadrou estes objetivos na estratégia Espanha Turismo 2030, procurando distribuir melhor os benefícios económicos do turismo e reduzir a concentração da procura.
Segundo um balanço apresentado pelo executivo espanhol em abril de 2025, entre 2018 e 2024 o crescimento do número de visitantes e da despesa turística foi superior nos meses de época média e baixa, de outubro a maio, ao registado nos meses de época alta. Esta evolução não permite, contudo, atribuir a mudança exclusivamente ao calor.
Calor extremo também condiciona França
França foi o segundo destino estrangeiro mais visitado por residentes na Grã-Bretanha em 2024, depois de Espanha, com cerca de 9,1 milhões de visitas, de acordo com as estimativas corrigidas do ONS.
Bordéus é um exemplo dos extremos que podem condicionar uma viagem. A cidade atingiu 41,9°C a 22 de junho de 2026, segundo a Reuters, durante um episódio de calor que afetou vários países europeus.
Ainda em junho, o Foreign, Commonwealth and Development Office atualizou os seus conselhos de viagem para França, Espanha e Portugal com informação sobre temperaturas extremas, conforme noticiou a Travel Weekly. Para Portugal, as recomendações britânicas aconselham a consultar as previsões do IPMA, contactar o operador turístico e seguir as indicações das autoridades locais.
Portugal já tinha dado um sinal de calor excecional antes do verão. A 27 de maio, Mora atingiu 40,3°C, estabelecendo um novo recorde absoluto de temperatura máxima para maio em Portugal continental, segundo o IPMA. O episódio lembra que viajar na primavera também não garante escapar a temperaturas muito elevadas.
Os 44,3°C registados na mesma localidade pouco mais de um mês depois e os 42,3°C alcançados no interior algarvio mostram que o debate sobre as datas tradicionais das férias não assenta apenas em previsões. Para destinos como o Algarve, a primavera e o outono podem assumir um peso crescente entre quem procura temperaturas mais moderadas e, em determinadas datas, preços mais baixos. Por enquanto, os estudos citados sustentam essa possibilidade, não uma mudança já comprovada nas reservas para a região.
Leia também: Portugal não está preparado para a crise turística que se aproxima | Editorial de Henrique Dias Freire















