As burlas sentimentais digitais estão a transformar-se numa das formas de criminalidade mais insidiosas da atualidade, combinando falsas histórias de amor com promessas de investimento e o uso crescente de inteligência artificial. O caso de Francisco, um homem de 66 anos que perdeu praticamente todas as suas poupanças por acreditar numa mulher que nunca existiu, é apenas um exemplo de uma tendência que se está a espalhar rapidamente.
Tudo começou com algo aparentemente banal: um grupo de WhatsApp onde eram prometidos ganhos financeiros elevados. Francisco entrou, investiu pequenas quantias e viu o saldo crescer, o que lhe deu confiança para continuar. Foi nesse espaço virtual que conheceu “Josefa”, uma mulher de 47 anos que rapidamente estabeleceu uma relação próxima com ele.
Segundo contou o homem de 66 anos ao programa Malas Lenguas, a ligação foi imediata. “Disse que estava apaixonada por mim”, recorda. As conversas tornaram-se diárias e a suposta companheira foi ganhando a sua confiança, ao mesmo tempo que o incentivava a investir cada vez mais, de acordo com o jornal digital espanhol Noticias Trabajo.
Escalada do golpe
Depois de uma primeira fase de ganhos aparentes, Josefa convenceu Francisco a transferir novos valores. Primeiro, pequenas quantias. Depois, pediu-lhe mais 100 mil euros, pagos de forma faseada, além do dinheiro que já tinha investido. No total, o homem acabou por entregar cerca de 200 mil euros.
O homem de 66 anos garante que chegou a fazer videochamadas e que a mulher que via no ecrã correspondia às fotografias que tinha recebido. No entanto, a investigação do programa revelou que nada era real.
Uma identidade criada por inteligência artificial
As imagens tinham sido roubadas de uma pessoa verdadeira, mas as mensagens e até os vídeos eram gerados por sistemas de inteligência artificial capazes de simular conversas e rostos de forma altamente convincente, de acordo com a mesma fonte.
“Fui enganado em 200 mil euros. Cheguei a apaixonar-me por alguém que não existe. Estou a perceber que é a inteligência artificial a entrar no lado humano para enganar”, desabafou Francisco.
Um fenómeno em rápido crescimento
O inspetor José María Benito, da Polícia Nacional espanhola, confirma que este tipo de burla está a evoluir rapidamente. “Já vimos criminosos a criar pessoas com inteligência artificial que conseguem conversar contigo. É uma variante da burla do amor, mas aqui diziam-lhe para investir para que ambos ganhassem dinheiro”, explicou.
Segundo dados oficiais, só no ano passado a Polícia Nacional registou mais de 1.200 denúncias por burlas sentimentais digitais em Espanha, um aumento de 30 por cento face ao ano anterior.
Por detrás de muitas destas queixas estão perfis falsos, fotografias roubadas e sistemas de IA capazes de manter diálogos longos, coerentes e emocionalmente envolventes, tornando o engano cada vez mais fácil, refere o Noticias Trabajo.
E em Portugal?
Em Portugal, este tipo de burla também está a aumentar de forma preocupante. A Polícia Judiciária tem vindo a alertar para o crescimento das chamadas burlas românticas e burlas de investimento associadas a relacionamentos online, em que as vítimas são levadas a transferir dinheiro para pessoas que acreditam ser parceiros afetivos.
Estas situações enquadram-se no crime de burla, previsto no artigo 217.º do Código Penal, podendo agravar-se quando envolvem meios informáticos ou prejuízos de elevado valor. As autoridades portuguesas sublinham que os casos estão a tornar-se mais sofisticados com o uso de inteligência artificial, tornando cada vez mais difícil distinguir perfis verdadeiros de identidades totalmente fabricadas.
Por isso, os alertas têm-se multiplicado, sobretudo junto de pessoas mais velhas ou com menor literacia digital, já que este tipo de crime deixou de exigir encontros presenciais e pode ser cometido apenas com um telemóvel, uma ligação à Internet e ferramentas de IA cada vez mais realistas.
















