Os CTT querem reduzir o horário de funcionamento de vários postos de correio instalados em juntas de freguesia, uma medida que está a gerar contestação entre autarcas. Em causa está a passagem de horários atuais entre seis e sete horas diárias para apenas três horas e meia, com redução da compensação paga às freguesias a partir de outubro.
A empresa justifica a decisão com a “acentuada quebra estrutural da procura pelo serviço postal tradicional” e com os níveis de procura e volumes de tráfego registados em cada posto. Questionados pela agência Lusa, os CTT afirmaram que, na grande maioria dos casos abrangidos, estes serviços atendem em média menos de 15 clientes por dia.
Apesar da justificação, vários autarcas consideram que a medida representa uma perda de proximidade para populações envelhecidas, muitas delas sem alternativas de transporte eficazes e habituadas a recorrer aos postos locais para levantar reformas, encomendas ou correio registado.
Freguesias contestam redução de horário
No concelho de Torres Vedras, a freguesia de Maxial e Monte Redondo está entre as abrangidas pela proposta dos CTT. A redução deverá afetar o serviço instalado em Monte Redondo, localidade situada a cerca de 12 quilómetros da cidade.
Nelson Aniceto, presidente da assembleia de freguesia, considera que a medida representa uma diminuição de um serviço público essencial. O autarca sublinhou à Lusa que a população é maioritariamente idosa e depende do posto para levantar reformas ou encomendas.
Também em Campelos e Outeiro da Cabeça, no mesmo concelho, a proposta de redução incide sobre Campelos. O presidente da junta, José Damas Antunes, reconhece que o serviço já não tem a mesma centralidade de outros tempos, mas defende que continua a ser útil para a população.
Segundo o autarca, a redução do horário será penalizadora, sobretudo para quem recorre ao posto para tratar de correio registado ou para aproveitar a concentração de serviços existente naquela localidade.
Sobral de Monte Agraço e Lourinhã também afetados
No concelho de Sobral de Monte Agraço, a Junta de Freguesia da Sapataria também discorda da decisão. A presidente, Cláudia Santos, recorda que a freguesia fica a cerca de 15 quilómetros da sede do concelho e que muitas pessoas utilizam o posto para receber reformas, levantar encomendas ou entregar correspondência.
A autarca contestou a medida junto da administração dos CTT, mas afirma que, em resposta, foi-lhe imposto um novo horário entre as 09h00 e as 12h00 já a partir de julho, e não apenas em outubro, como tinha sido inicialmente comunicado.
Na Lourinhã, a freguesia de Marteleira e Miragaia encontra-se numa situação semelhante. O serviço postal funciona nas instalações de Miragaia e a presidente da junta, Mónica Severino, considera a redução injusta e penalizadora.
A autarca defende que muitos utentes evitam deslocar-se à Lourinhã porque em Miragaia encontram um serviço mais rápido, personalizado e com funcionamento à hora de almoço.
Populações idosas podem ser mais penalizadas
A redução de horário preocupa sobretudo freguesias com populações envelhecidas e menor acesso a transportes públicos. É o caso de Moita dos Ferreiros, também no concelho da Lourinhã.
O presidente da junta, Rui Perdigão, afirma que a população está habituada a recorrer ao serviço de apoio local e que a falta de transportes eficazes dificulta a deslocação a alternativas nas vilas da Lourinhã ou do Bombarral.
Segundo o autarca, estas localidades ficam a cerca de 10 e sete quilómetros, respetivamente, o que torna a redução do posto local particularmente sensível para muitos moradores.
Para Rui Perdigão, a medida representa a retirada de um serviço de grande importância para a comunidade e penaliza também as contas das juntas de freguesia, devido à redução da compensação financeira paga pelos CTT.
CTT dizem que haverá alternativas próximas
Os CTT garantem que as reduções previstas têm em conta a existência de pontos de acesso alternativos a curta distância. A empresa assegura que a medida não coloca em causa o acesso das populações à oferta de serviços postais.
A empresa enquadra a decisão na evolução do setor postal, marcado por uma quebra estrutural do correio tradicional. Menos cartas e menor tráfego postal levam, segundo os CTT, à necessidade de ajustar horários à procura efetiva de cada local.
Ainda assim, os autarcas contestam que a análise seja feita apenas com base no número médio de clientes. Para as freguesias, o valor social do serviço deve pesar tanto como os indicadores de procura.
Alguns autarcas mostraram disponibilidade para manter o horário completo, mesmo com menor compensação financeira, uma vez que o atendimento geral das juntas continua a funcionar durante todo o dia.
Medida pode afetar freguesias a nível nacional
Segundo os autarcas ouvidos pela Lusa, a redução de horários não se limita aos concelhos de Torres Vedras, Sobral de Monte Agraço e Lourinhã. A medida estará a afetar outras freguesias da região e também do país.
O descontentamento já foi transmitido à Associação Nacional de Freguesias, que se encontra em negociação com os CTT. As juntas esperam que o processo permita rever ou ajustar a aplicação da medida, sobretudo nos territórios onde o posto de correio continua a ter um papel social relevante.
A discussão coloca em confronto duas realidades: por um lado, a queda da procura pelo serviço postal tradicional; por outro, a necessidade de manter serviços de proximidade em localidades afastadas dos centros urbanos.
Para muitos autarcas, o problema não está apenas no número de atendimentos por dia, mas no impacto que a redução pode ter em populações que dependem destes postos para tarefas simples, mas essenciais, do quotidiano.
















