Com estreia marcada para 18 de setembro no Theatro Circo, em Braga, e passagem por Loulé a 22 de outubro, “Nós, sozinhas”, de Sara Barros Leitão, coloca o aborto no centro do palco quase 20 anos após a despenalização da interrupção voluntária da gravidez (IVG), num momento em que a criadora considera persistirem ameaças a este direito.
O espetáculo, com texto, encenação e criação de Sara Barros Leitão, nasceu de uma vontade antiga de abordar o tema. A atriz, autora e encenadora decidiu avançar com o projeto um ano antes de se assinalarem os 20 anos da lei que despenalizou a IVG em Portugal.
Segundo a criadora, “um espetro teima em pairar sobre esse direito”. Em entrevista à agência Lusa, Sara Barros Leitão afirmou que esse “espetro de ameaça” surge “sobretudo dos governos de direita, com mais pendor para a extrema-direita”, por considerar que, quando chegam ao poder, os direitos reprodutivos estão entre as matérias que procuram rever.
Julgamento na Maia marcou a memória da criadora
Para enquadrar a obra, Sara Barros Leitão recua a 2002, quando tinha 11 anos e vivia na Maia, cidade onde decorreu um julgamento relacionado com a prática de aborto.
O processo teve 43 arguidos, entre profissionais de saúde, ajudantes de farmácia, um assistente social e 17 mulheres. A principal arguida, uma enfermeira-parteira, acabaria condenada a oito anos de prisão.
Ao longo dos anos, a autora foi encontrando outros motivos para levar o assunto ao palco. Nas várias peças que criou e interpretou sobre mulheres, entre as quais “Monólogo de uma Mulher Chamada Maria com a Sua Patroa”, centrada no trabalho das empregadas domésticas, concluiu que a IVG é “uma questão central e uma questão de classes”.
“Seja qual for a história da mulher, é uma história central em todas nós. Seja porque já fizemos, seja porque já pensámos fazer, seja porque conhecemos alguém que fez, porque ajudámos alguém a encontrar alguém que fazia”, afirmou.
Sara Barros Leitão destacou também o medo de uma gravidez indesejada, que considera transversal à experiência de muitas mulheres e particularmente presente durante a adolescência.
“Mesmo hoje em dia, com a pílula e com contracetivos, é um medo que paira sobre a cabeça das raparigas e das meninas”, frisou, defendendo que esse receio pode impedir as mulheres de viverem a sexualidade de forma plena.
Migrações e direitos reprodutivos ligados pelo controlo social
O tema voltou a surgir durante a preparação de “Guião para um país possível”, espetáculo criado a partir dos diários da Assembleia da República, no qual Sara Barros Leitão se confrontou com os debates que antecederam a Lei da Despenalização da IVG.
A autora encontrou ainda ligações à questão na sua peça mais recente, “Suplicantes”, dedicada às migrações.
Na sua leitura, os temas centrais dos dois espetáculos — migrações e aborto — refletem diferentes formas de tentativa de controlo social presentes nos discursos da direita e da extrema-direita em Portugal.
“O macro, na perspetiva global dos migrantes, do medo do outro, do que nos vai roubar o trabalho; e, no micro, naquilo que tem sido a cartilha da extrema-direita, que é o corpo das mulheres e sua posse”, explicou.
A criadora referia-se ao “controlo do corpo das mulheres e, portanto, do seu sistema reprodutor e da gravidez”.
Como exemplos de recuos ou tentativas de limitar o acesso, Sara Barros Leitão citou a aplicação de taxas moderadoras às mulheres que recorriam à IVG durante o Governo chefiado por Pedro Passos Coelho e a posição do candidato da Iniciativa Liberal nas últimas eleições presidenciais, que classificou como “muito questionável”.
Para a encenadora, estes sinais mostram que, quase 20 anos depois da despenalização, continua a existir “um espetro que teima em pairar e em ameaçar esse direito”.
“Ainda falta muito a fazer”
Sara Barros Leitão pretende que “Nós, sozinhas” ocupe um espaço de discussão e problematização, sem receio de colocar o tema no centro do debate público.
Segundo a criadora, perante assuntos que ameaçam direitos fundamentais, existe por vezes uma tendência política para evitar a discussão, devido ao receio de que a abertura do debate possa conduzir à perda de mais direitos. A arte, sustenta, deve assumir uma posição diferente.
Por isso, a peça não surge apenas como uma reação defensiva a uma possível tentativa de recuo, mas também como uma forma de mostrar que “ainda falta muito a fazer”.
Sara Barros Leitão afirmou que o acesso à IVG continua a não estar garantido para grande parte da população.
“Há mais de 40% de hospitais que são objetores de consciência, há regiões inteiras que não conseguem médicos para garantir as IVG”, declarou, acrescentando que, na Europa, “a rota de Portugal para Espanha é a segunda mais usada” para a realização de interrupções voluntárias da gravidez.
A autora considera ainda que o prazo de dez semanas previsto na lei portuguesa “não é suficiente” e defende o seu alargamento, assim como a retirada da IVG do domínio exclusivamente hospitalar.
Para Sara Barros Leitão, o papel da arte passa por “trazer os problemas para discussão e não apenas como reação”. A criadora espera que o espetáculo “se projete para o futuro e garanta melhores direitos reprodutivos para todos”.
Acesso ao aborto continua marcado pelas desigualdades
A autora aponta a “externalização da IVG nos privados” como outro exemplo das desigualdades sociais associadas ao acesso ao procedimento, chamando também a atenção para os custos suportados pelo Estado.
Recordou ainda os casos de mulheres que viajam para Espanha por o prazo legal ser superior ao português.
“E quando vai a Espanha paga e paga bem”, afirmou, insistindo que o aborto continua a “ser uma questão de classe”.
Sara Barros Leitão abordou também as dificuldades sentidas pelas mulheres migrantes. Na sua perspetiva, a teoria do “turismo de saúde” e a agenda política contra os imigrantes têm contribuído para que muitas não recebam acompanhamento adequado nos seus direitos reprodutivos nem consigam aceder à IVG em Portugal.
“Evidentemente, estamos a falar das migrantes pobres” e dos “entraves que têm sido colocados a estas mulheres para entrarem nos serviços de saúde”, sublinhou.
A criadora considera que foram igualmente as desigualdades económicas que prolongaram durante décadas o debate sobre a despenalização em Portugal, uma vez que as mulheres com mais recursos podiam deslocar-se ao estrangeiro ou pagar pelo procedimento no país.
“Estou convencida de que demorou até 2007 porque, na classe política e na elite portuguesa, esta realidade estava assegurada e resolvida através do dinheiro — ir a Londres ou Itália ou Espanha, ou mesmo cá, pagando a médicos anestesistas. […] As mulheres burguesas sempre conseguiram ter acesso se o pagassem”, afirmou.
“Como a questão de classe estava assegurada, não era necessário trazer este assunto. São sempre as mulheres pobres que sofrem ainda mais com tudo, nomeadamente com os seus direitos reprodutivos”, acrescentou.
Uma luta com décadas de história
Sara Barros Leitão recordou que, após o 25 de Abril, existiram várias oportunidades políticas para resolver a questão do aborto, incluindo um projeto da União Democrática Popular (UDP) que propunha consagrar esse direito na Constituição.
“E poderia ter sido tão bom se tivesse passado”, comentou.
A criadora evocou ainda o caso da jornalista Maria Antónia Palla, julgada em 1979, já em democracia, depois de o Ministério Público a acusar de incitação ao crime e atentado ao pudor por ter realizado a reportagem “O aborto não é crime”.
No mesmo ano, uma jovem de 22 anos foi julgada no Tribunal da Boa-Hora, em Lisboa, por alegadamente ter praticado um aborto, na sequência de uma denúncia anónima. Tanto a jornalista como a jovem acabaram absolvidas.
“É bizarro como é que isto acontece já em democracia. É a mesma coisa que hoje um jornalista ser processado por fazer uma peça sobre tráfico de droga”, considerou Sara Barros Leitão.
A autora recordou também o manifesto escrito pela jornalista e ativista pelos direitos das mulheres Maria Antónia Fiadeiro e lançado em 1979 pela Comissão Nacional para a Legalização do Aborto. O documento reuniu perto de três mil assinaturas de mulheres que admitiam publicamente ter realizado um aborto.
Espetáculo passa por Loulé a 22 de outubro
Depois da estreia no Theatro Circo, a 18 de setembro, “Nós, sozinhas” permanece em cena em Braga durante os dois dias seguintes.
A digressão prossegue para Lamego, a 26 de setembro, Matosinhos, em 9 e 10 de outubro, e um local ainda não revelado, a 16 de outubro. A peça chega a Loulé no dia 22 desse mês.
Seguem-se apresentações em Ílhavo, a 7 de novembro, Espinho, a 20 de novembro, e Fafe, a 27 de novembro.
Em 2027, estão previstas récitas no Funchal, em 5 e 6 de fevereiro, Coimbra, a 2 de abril, Pombal, a 17 de abril, e Viseu, a 23 de abril.
A.Pinto / HDF
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