A história de D. Filipe I de Portugal, o primeiro rei da dinastia filipina, continua a gerar debate em território nacional, mas a sua figura vai muito além da perda da independência. Culto, meticuloso e profundamente ligado a Portugal por laços familiares e afetivos, o monarca espanhol marcou uma época decisiva da história portuguesa.
Nascido em Valladolid, a 21 de maio de 1527, como Filipe II de Espanha, e falecido a 13 de setembro de 1598, em São Lourenço do Escorial, foi um dos soberanos mais poderosos do seu tempo. Filho do imperador Carlos V e de Isabel de Portugal, era neto de Manuel I de Portugal, o que lhe conferia legitimidade dinástica sobre o trono português, de acordo com o site de notícias de lifestyle VortexMag.
Sucessão após Alcácer Quibir
A crise sucessória portuguesa teve origem na morte de Sebastião I de Portugal na batalha de Alcácer Quibir, em 1578. Sem descendência direta, abriu-se caminho a várias pretensões ao trono.
Em 1581, nas Cortes de Tomar, Filipe foi aclamado Rei de Portugal como o décimo oitavo monarca português, assumindo o título de Filipe I. Aceitou governar respeitando os foros, privilégios e autonomia do reino, comprometendo-se a nomear portugueses para cargos de relevo ou membros da família real.
Um rei obcecado pela organização
Conhecido como “El Rey de los Papeles”, “O Rei dos Papéis”, Filipe I ganhou fama pela sua obsessão pela escrita e pela burocracia. Passava longas horas no gabinete a analisar documentos, despachos e relatórios, acumulando resmas de papel.
A sua disciplina administrativa era quase extrema. Tomava nota de tudo o que dizia respeito aos negócios do reino, desde questões diplomáticas a pormenores financeiros. Só a gota, doença que lhe provocava dores intensas e por vezes o deixava com as mãos imobilizadas, o impedia de escrever mais, de acordo com a mesma fonte.
Saúde frágil e morte insólita
Além da gota, sofria de febres terçãs, associadas à malária, com picos de febre regulares. Um edema obrigou-o a permanecer longos períodos acamado, situação que agravou o seu estado físico nos últimos anos de vida.
Apesar do quadro clínico debilitado, não foi uma doença crónica que determinou a sua morte. Segundo relatos da época, terá falecido após complicações associadas a uma infeção cutânea provocada por parasitas, mais concretamente piolhos, episódio que ficou registado como um fim insólito para um dos homens mais poderosos da Europa do século XVI.
O amor por Portugal
A dinastia filipina não é geralmente recordada com simpatia em Portugal, por representar a perda da independência durante a União Ibérica. Contudo, a figura de Filipe I como Rei de Portugal distingue-se, em vários aspetos, dos seus sucessores. Filho de mãe portuguesa, cresceu sob forte influência cultural lusa. Apesar de ter sido educado em Madrid, conviveu com portugueses, aprendeu a língua e manteve contacto com costumes e tradições herdadas da família materna.
Essa ligação refletiu-se no início do seu reinado em Portugal. Após a aclamação, permaneceu cerca de três anos em Lisboa, procurando conhecer de perto os hábitos, as estruturas administrativas e a realidade do reino, de acordo com a fonte anteriormente citada.
Respeito pela autonomia e obras em Portugal
Filipe I manteve um grau significativo de autonomia administrativa para Portugal, superior ao concedido a outras regiões da monarquia hispânica. Exigiu que os documentos oficiais continuassem a ser redigidos em português, mesmo quando enviados para Madrid.
Durante o seu reinado foram promovidas intervenções e obras públicas relevantes. No Convento de Cristo, em Tomar, ordenou melhorias que incluíram o célebre aqueduto que garantiu maior autonomia no abastecimento de água ao complexo monástico. O monarca também incentivou a preservação da língua portuguesa e procurou respeitar as estruturas administrativas existentes, numa tentativa de evitar tensões internas.
Herança histórica
O desgaste da União Ibérica viria a acentuar-se com os seus sucessores, cujo centralismo e menor sensibilidade às especificidades portuguesas contribuíram para o descontentamento que culminaria na Restauração da Independência, em 1640.
Como curiosidade histórica, Filipe I terá mandado fabricar um crucifixo e o próprio caixão com madeira proveniente da nau portuguesa Cinco Chagas, gesto frequentemente apontado como símbolo da sua ligação afetiva ao reino, de acordo com a VortexMag.
A memória coletiva portuguesa, moldada pelo nacionalismo dos séculos seguintes, foi particularmente crítica da dinastia filipina. Ainda assim, a figura de Filipe I permanece como uma das mais complexas da história comum entre Portugal e Espanha, marcada por poder, controlo administrativo e uma relação singular com o país que governou durante quase duas décadas.
Leia também: Portugal vai ter cortes de água prolongados nestes dias e estas serão as regiões afetadas
















