Ao longo do mundo, existem pontes que não são apenas estruturas de passagem, mas verdadeiros monumentos históricos e culturais. Em África, um país com raízes milenares guarda algumas dessas pontes, verdadeiros testemunhos silenciosos de séculos de intercâmbio, fé e poder. Neste artigo, falar-lhe-emos de uma ponta que lá fica e que é conhecida como a “Ponte Portuguesa”.
Uma ponte de pedra com séculos de história
No coração da Etiópia, rodeada por vales profundos e paisagens verdejantes, encontra-se a Sebara Dildiy, que em amárico significa “ponte quebrada”. Apesar do nome, esta estrutura continua a impressionar quem a visita, não apenas pela beleza, mas também pelo mistério que envolve a sua origem.
A ponte portuguesa da Etiópia?
Conhecida também como Ponte Portuguesa, a Sebara Dildiy está localizada a nordeste da cidade de Mota, na região de Amhara, atravessando o majestoso rio Abay, conhecido internacionalmente como o Nilo Azul. Tem cerca de 60 metros de comprimento e quatro metros de largura, destacando-se pela imponência num cenário natural de grande impacto, de acordo com a VortexMag.
Construída no reinado de Fasilides
Acredita-se que a ponte foi construída durante o reinado do imperador Fasilides, entre 1600 e 1660, num período marcado pela introdução de novas técnicas de engenharia trazidas de fora, incluindo influência portuguesa.
Embora nem todos os especialistas na matéria concordem com essa origem, sabe-se que a técnica de argamassa de cal usada na construção foi introduzida na região por artesãos indianos ao serviço dos portugueses.
Durante o período Gondarino, quando Gondar se tornou capital imperial, várias pontes de pedra foram erguidas para facilitar ligações comerciais e religiosas. Entre todas, a Sebara Dildiy destacou-se, servindo mercadores, peregrinos e populações locais ao longo de séculos.
Uma lenda de culpa e redenção
Segundo a tradição, o imperador Fasilides, atormentado após mandar executar um monge crítico do seu reinado, procurou o perdão espiritual. Após sonhos sucessivos, uma escrava aconselhou-o a construir uma ponte num local perigoso. O objetivo era que cada pessoa que atravessasse dissesse: “Deus salve a alma de Fasilides”, ajudando-o assim a alcançar a redenção, refere a mesma fonte.
Um gesto que ficou na memória
Décadas depois, o viajante italiano Alberto Pollera relatou ter ouvido mercadores repetirem essa frase ao cruzar a ponte, mostrando como o gesto do imperador perdurou na memória coletiva etíope.
Ao longo dos séculos, a ponte sofreu danos significativos. No século XIX, um senhor da guerra mandou retirar uma das arcadas para travar invasões. Ainda assim, os locais continuaram a usá-la com tábuas e cordas improvisadas. Em 1908, o imperador Menelik II ordenou a reconstrução da ponte, adicionando um arco monumental. Porém, em 1941, durante a retirada das tropas italianas na campanha da África Oriental, a ponte foi destruída novamente.
Durante décadas, a travessia foi perigosa, causando inúmeros acidentes. Só em 2002 se iniciou uma recuperação, com a instalação de uma ponte metálica provisória. Em 2009, foi construída uma nova ponte suspensa para peões, devolvendo a segurança à população local e aos visitantes.
Paisagem de ‘cortar a respiração’
Segundo a fonte anteriormente citada, visitar a Sebara Dildiy é também contemplar a paisagem etíope em todo o seu esplendor. Atravessando a ponte, chega-se a um miradouro natural com vista para uma cascata de 600 metros, especialmente impressionante durante a estação das chuvas, entre julho e setembro.
O percurso até à ponte permite observar babuínos Gelada, espécie endémica da Etiópia, conhecida pelo comportamento social complexo e pelo pelo comprido que lhes cobre o pescoço e peito.
Uma viagem ao passado da Etiópia
Apesar da sua história rica e paisagens consideradas dignas de visita, a ponte continua fora dos roteiros turísticos mais comuns. Uma visita a Debre Libanos, a duas horas de Adis Abeba, pode ser conjugada com a descoberta deste monumento, podendo oferecer ao viajante uma experiência autêntica.
Mosteiro de Debre Libanos
Próximo da ponte, encontra-se o Mosteiro de Debre Libanos, fundado no século XIII, considerado um dos centros religiosos mais importantes da Etiópia. O local atrai peregrinos e estudiosos de todo o mundo, refere o NCultura.
A ponte de Sebara Dildiy é um exemplo de como a engenharia, a história e a espiritualidade se unem em locais menos conhecidos, mas de valor imensurável. Para quem procura lugares com alma e histórias para contar, este é um destino a não perder.
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