Marcado desde a infância pelo fabrico dos gelados, Tiago Correia deixou Lisboa e a engenharia para regressar a Mértola e assumir o negócio familiar Nicolau, com 66 anos de história, segundo avança o Jornal de Notícias (JN).
A ligação de Tiago ao Alentejo e à produção artesanal começou depois de um acidente que alterou o rumo da família. O pai foi atropelado à porta de casa e a mãe, sem condições para cuidar simultaneamente do marido e dos três filhos, viu-se obrigada a confiar as crianças a familiares.
Tiago, então com seis anos, e o irmão mais novo foram inicialmente para Castro Marim, no Algarve. Mais tarde, os tios de Mértola foram buscá-lo e foi nessa vila que começou a acompanhar o fabrico dos gelados da família.
Uma década de trabalho como engenheiro
Aos 18 anos, Tiago mudou-se para Lisboa para estudar e voltou a viver com a mãe, Marília, durante 15 anos.
Licenciou-se em Engenharia da Energia e Ambiente, na Faculdade de Ciências, e trabalhou durante uma década em empresas do setor. Apesar do percurso profissional construído na capital, Mértola e os Gelados Nicolau continuaram presentes nos seus planos.
Foi também em Lisboa que conheceu Ruth, natural de Angola e atualmente sua mulher.
“Juntámos os trapos, viemos para Mértola e aqui começámos uma nova vida ligada aos gelados, onde trabalhamos os dois”, contou Tiago Correia.
Negócio familiar chega à terceira geração
Instalado há sete anos na chamada “Vila Museu”, Tiago começou por trabalhar como empregado dos tios. Há dois anos tornou-se empresário em nome individual e passou a assumir a gestão dos Gelados Nicolau.
A produção artesanal inclui atualmente 20 sabores, comercializados em sandes, bolas em cone, taças e gelados de pau.
Os tios Amândio, de 85 anos, e Maria Emília, de 80, continuam ligados ao quotidiano da gelataria e à transmissão do conhecimento acumulado ao longo de décadas.
“Continuam a ser os professores e as pessoas que vivem comigo e com a Ruth o dia a dia da gelataria. Sabia que o negócio, além de rentável, era um legado de família, que vai na terceira geração e que era importante preservar”, afirmou Tiago.
Os Gelados Nicolau foram criados por José Nicolau Correia. O negócio passou depois para o filho Amândio, que se tornou conhecido por percorrer as ruas de Mértola vestido de branco, empurrando o carrinho da venda ambulante.
Há cerca de 40 anos, Amândio criou um pregão que ganhou notoriedade dentro e fora da vila: “Chupe, chupe, menina chupe, gelado Nicolau tem o brinde na ponta do pau.”
Venda ambulante interrompida pela primeira vez
A debilidade física de Amândio impediu que a venda ambulante se realizasse este ano, pela primeira vez na história recente do negócio.
“Dada a debilidade física do meu tio, este é o primeiro ano que não vai haver venda ambulante, mas até agora o negócio continua muito bem”, explicou Tiago.
A empresa mantém a presença nas principais feiras e eventos do distrito de Beja e recebe também clientes na loja de Mértola.
“Há muita gente que passa por Mértola, que vai à nossa loja para comer um gelado”, acrescentou.
Tiago quer recuperar o carrinho dos gelados
O novo responsável pelos Gelados Nicolau tem dois objetivos para o futuro: recuperar a venda ambulante e criar um novo espaço com melhores condições.
“Fazer regressar a venda ambulante e abrir uma gelataria com todas as condições para aumentar ainda mais as vendas e o prestígio dos nossos gelados”, revelou.
Amândio Correia considera que o legado familiar fica bem entregue ao sobrinho.
“O negócio fica muito bem entregue ao Tiago. Ele já sabe tudo da arte dos gelados. Estamos na terceira geração da família e o nome Nicolau vai continuar a dignificar Mértola”, afirmou.
O antigo vendedor recordou ainda o reconhecimento que continua a receber: “Esta semana fui ao Hospital de Beja e toda a gente perguntava: ‘Então, senhor Amândio, trouxe o carrinho com gelados?’ É muito gratificante. Com o meu sobrinho, o negócio da família vai continuar em boas mãos.”
A.Pinto / HDF
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