O Partido Comunista Português (PCP) recordou o percurso antifascista e a “contribuição na Revolução de Abril” de Carlos Brito, histórico dirigente comunista que morreu esta quinta-feira, aos 93 anos, apesar das “conhecidas diferenças e distanciamento político” que marcaram os últimos anos da sua ligação ao partido.
Numa breve nota enviada à comunicação social, o PCP afirmou que, “sem prejuízo das conhecidas diferenças e distanciamento político, registamos em Carlos Brito o seu percurso antifascista e a sua contribuição na Revolução de Abril, nomeadamente no plano parlamentar”.
Também o secretário-geral do Partido Socialista, José Luís Carneiro, lamentou a morte de Carlos Brito, considerando que o desaparecimento do antigo dirigente comunista “é motivo de grande tristeza”.
O líder socialista destacou ainda o seu percurso enquanto “resistente antifascista” e “uma figura incontornável da vida política portuguesa das primeiras cinco décadas da democracia”.
José Luís Carneiro sublinhou igualmente que Carlos Brito foi “uma referência de seriedade, cidadania e de combate pelos valores que eram os seus, mesmo com custos pessoais e com a incompreensão de alguns dos que tinham sido seus camaradas”.
Morreu aos 93 anos em Alcoutim
O histórico dirigente do Partido Comunista Português Carlos Brito morreu esta quinta-feira aos 93 anos em casa, confirmou à Lusa o médico e seu amigo Paulo Fidalgo.
Paulo Fidalgo, que foi um dos fundadores do Movimento Renovação Comunista, adiantou que Carlos Brito esteve internado no hospital de Faro recentemente devido a uma infeção respiratória e teve alta hospitalar na passada segunda-feira, já recuperado.
“Inesperadamente” morreu esta tarde na sua casa de Alcoutim, disse Paulo Fidalgo.
Décadas de militância e resistência antifascista
Carlos Brito nasceu em Moçambique em 1933 e foi militante do PCP durante 48 anos, como funcionário, membro do Comité Central, líder parlamentar, diretor do jornal “Avante!” e candidato à Presidência da República.
Durante a ditadura, Carlos Brito passou dez anos na clandestinidade e oito anos na prisão. A seguir ao 25 de Abril esteve 16 anos na Assembleia da República, 15 dos quais como líder do grupo parlamentar.
Saiu “desolado” do parlamento em 1991 por não ter sido eleito pelo círculo de Faro. À altura da sua saída, tinha o recorde de “longevidade” no parlamento, desde a Assembleia Constituinte.
Divergências marcaram últimos anos no PCP
Em 1980 concorreu às presidenciais contra Ramalho Eanes e Soares Carneiro, desistindo à boca das urnas. Uma permanência de 33 anos no Comité Central terminaram em novembro de 2000, quando Carlos Brito renunciou ao lugar em desacordo com as orientações do XVI Congresso.
Em março de 2000, já tinha escrito uma carta à direção onde expressava preocupação com o rumo do partido.
Carlos Brito esteve entre os dirigentes que reclamaram um congresso extraordinário após a derrota eleitoral do PCP nas autárquicas de 2001.
No seguimento da luta interna que opôs os chamados “renovadores” aos defensores da ortodoxia do partido, Carlos Brito foi suspenso do PCP em 2002 por 10 meses.
A sanção disciplinar foi decidida pelo Secretariado do partido, entre várias expulsões de críticos da direção, entre os quais Edgar Correia, já falecido, e Carlos Luís Figueira, que viriam a formalizar alguns anos depois a associação política Renovação Comunista.
Vida dedicada à política, cultura e desenvolvimento regional
Desde 1996 que Carlos Brito evidenciou vontade de se afastar de cargos dirigentes, primeiro ao recusar integrar a Comissão Política em 1996 e depois saindo da direção do “Avante!”, em 1998.
Era casado, teve duas filhas, e estava retirado em Alcoutim, no Algarve, local de origem da sua família. Dedicou-se durante muitos anos escrever poesia, ficção e a participar no movimento associativo para o desenvolvimento regional.
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