Uma queixa publicada nas redes sociais voltou a chamar a atenção para a presença de algas na Praia do Carvoeiro, no Algarve. Uma visitante descreve uma situação marcada por “mau cheiro e imensas moscas, numa altura em que a presença da espécie invasora Rugulopteryx okamurae continua a ser apontada como um problema para várias zonas costeiras.
“Como é que ninguém trata das algas na Praia do Carvoeiro? Algo tem de ser feito. Mau cheiro e imensas moscas, nem se consegue nadar”, escreveu a visitante numa publicação no Facebook. A queixa surge durante o verão, período em que a acumulação desta macroalga tende a tornar-se mais visível nas praias afetadas.
Espécie que continua a avançar
A Rugulopteryx okamurae é uma macroalga de origem asiática que se tem expandido pelas costas europeias e que, segundo especialistas citados pelo jornal Público, deverá continuar a aparecer em grandes quantidades no Algarve e em Cascais. O fenómeno não é considerado pontual e está associado a condições ambientais que favorecem o crescimento da espécie.
Rui Santos, investigador da Universidade do Algarve, explicou durante uma conferência no Museu de Portimão, em maio, que a macroalga “todos os anos contribui com mais 500.000 indivíduos por metro quadrado”. Experiências realizadas no Centro de Ciências do Mar apontam também para um possível agravamento à medida que aumentam os picos de temperatura e a concentração de dióxido de carbono na atmosfera.
A dimensão do problema já se refletiu nas operações de limpeza realizadas em diferentes pontos do litoral. Só na Praia do Carvoeiro foram retiradas 40.000 toneladas de algas durante o verão de há dois anos. Em Cascais, a recolha chegou às 1.300 toneladas no ano passado, com um custo de cerca de 500.000 euros.
Impactos que vão além do areal
A acumulação da espécie representa uma preocupação não apenas para os municípios e para a atividade turística, mas também para os ecossistemas marinhos. Autarcas e pescadores têm relatado o desaparecimento de espécies como ouriços-do-mar, navalheiras, sapateiras e santolas, além de registos de polvos mortos associados à falta de oxigénio provocada pela presença de grandes quantidades de algas.
A dimensão da invasão torna, contudo, a erradicação total uma tarefa considerada inviável. “A Rugulopteryx veio para ficar”, afirmou Rui Santos, segundo a mesma publicação, apontando para a necessidade de encontrar formas de reduzir os seus efeitos e aproveitar a biomassa que é retirada das praias.
Entre as soluções em estudo está a possibilidade de criar biorrefinarias destinadas à produção de biometano. A utilização da biomassa na agricultura é outra das hipóteses consideradas, embora existam limitações legais à comercialização de espécies invasoras no espaço comunitário.
O que está a acontecer no Algarve
A espécie foi identificada pela primeira vez em França, em 2002, e entretanto espalhou-se por diferentes zonas costeiras. A sua presença já foi registada em países como Suécia, Marrocos, Itália e Grécia, bem como nos arquipélagos da Madeira e dos Açores.
O Público refere que Portugal está a preparar um plano nacional de monitorização e mitigação para responder à expansão da espécie. O objetivo passa por acompanhar a evolução do fenómeno e definir medidas capazes de reduzir os seus impactos, numa altura em que as condições ambientais podem favorecer o crescimento da macroalga.
A Praia do Carvoeiro é, entretanto, uma das zonas onde o problema tem assumido maior expressão devido às grandes quantidades de biomassa recolhidas. A situação ajuda a explicar as queixas de visitantes que, durante a época balnear, encontram algas acumuladas junto à água e no areal.
Praia marcada pela paisagem
Apesar das ocorrências relacionadas com a alga invasora, a Praia do Carvoeiro mantém as características que fazem deste local um dos pontos conhecidos do litoral algarvio. Segundo o portal Algarve Portugal Tourism, trata-se de uma praia de pequenas dimensões inserida numa baía rodeada por casas de arquitetura tradicional da região.
O areal conserva também a ligação à antiga atividade piscatória da localidade. Ainda podem ser encontradas embarcações no local, embora atualmente sejam utilizadas sobretudo em passeios turísticos pela costa, refere a mesma fonte.
A presença da Rugulopteryx acrescenta, assim, uma questão ambiental a uma praia que recebe visitantes durante os meses de maior procura. Para já, a estratégia passa pela monitorização, recolha da biomassa e procura de soluções para reduzir os efeitos da espécie, enquanto as autoridades e os investigadores acompanham a sua expansão.
















