A sardinha está a ser capturada em quantidade significativa na costa algarvia, mas a abundância do peixe não se está a traduzir em preços mais baixos nas lotas. Pelo contrário, os valores pagos por quilo têm vindo a subir e já duplicaram face ao mesmo período do ano passado, numa altura em que os Santos Populares aumentam a procura deste produto tão associado às tradições portuguesas.
De acordo com o Correio da Manhã, o Porto de Pesca do Arade, em Portimão, tem recebido várias toneladas de sardinha nos últimos dias. O peixe apresenta o calibre e o teor de gordura considerados adequados para esta fase da campanha, fatores que contribuem para a valorização do produto no mercado.
Ano muito diferente do anterior
Os números mostram uma evolução expressiva. Enquanto em junho do ano passado o preço médio rondava os 70 cêntimos por quilo, atualmente a sardinha tem sido vendida em algumas lotas por cerca de dois euros. Em muitos casos, acrescenta a publicação, os valores têm permanecido acima dos 1,50 euros desde o início da campanha.
Fábio Mateus, representante da BARLAPESCAS, explica que existem vários fatores por detrás desta valorização. “Hoje o preço por quilo rondou os dois euros em algumas lotas. Este ano, regra geral, ainda não baixou de 1,50 euros. No ano passado o preço rondava os 70 cêntimos”, afirmou ao jornal.
Procura internacional ajuda a puxar os preços
Uma das razões apontadas para esta subida está relacionada com a procura externa. Segundo o responsável da cooperativa, a redução dos stocks de sardinha em Marrocos levou várias indústrias conserveiras a procurar matéria-prima em Portugal.
“Como Marrocos registou um declínio de stock, as conserveiras têm vindo a Portugal comprar a sardinha nas lotas portuguesas”, explicou. A certificação sustentável da pescaria portuguesa é outro elemento que tem contribuído para aumentar o interesse de compradores internacionais.
A recuperação do selo azul do Marine Stewardship Council, obtida no ano passado, abriu portas a novos mercados e reforçou a valorização do pescado nacional. O reconhecimento distingue práticas de pesca sustentáveis e voltou a ser atribuído à sardinha portuguesa depois de uma década sem essa certificação.
Pescadores beneficiam da valorização
Apesar dos desafios diários da atividade, os pescadores reconhecem que o atual cenário representa um alívio para o setor. Fernando Duarte, pescador algarvio, viveu recentemente um contratempo quando uma rede se rompeu durante uma saída para o mar, reduzindo a quantidade de peixe capturada.
Ainda assim, o profissional considera que a campanha tem sido positiva. “Temos apanhado muita sardinha. Não nos podemos queixar do preço”, afirmou ao Correio da Manhã. O pescador recorda que os custos de operação aumentaram nos últimos anos, sobretudo devido à subida do preço dos combustíveis.
Menos quota disponível em 2026
A valorização da sardinha acontece num ano em que Portugal dispõe de uma quota inferior à da campanha anterior. Conforme refere a mesma fonte, o limite de captura fixado para este ano é de 33.446 toneladas, menos 960 toneladas do que em 2025.
A gestão da espécie continua a ser realizada de forma conjunta por Portugal e Espanha, ao abrigo do plano plurianual em vigor entre 2021 e 2026. A campanha arrancou a 4 de maio, cerca de um mês mais tarde do que no ano passado.
Impacto pode chegar ao consumidor
Embora os preços praticados em lota não se reflitam automaticamente no valor final pago pelos consumidores, a tendência poderá ter consequências no comércio e na restauração durante as festas populares.
Com uma procura elevada, maior interesse internacional e custos operacionais mais elevados, a sardinha chega este verão aos mercados com uma valorização significativa. A abundância do peixe nas águas algarvias continua a ser uma realidade, mas isso não impediu que o seu preço atingisse níveis bastante superiores aos registados há apenas um ano.
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