
Um antigo armazém ferroviário na Estação da Luz, em Tavira, foi transformado por um casal de Lisboa numa habitação e num espaço de alojamento turístico. Alexandra Vinagre, de 46 anos, e Alberto Garcia, de 52, recuperaram o edifício mantendo vários elementos da arquitetura ferroviária e criaram ainda, no exterior, um estúdio para receber hóspedes.
A proximidade dos carris é uma das características mais particulares do projeto. A estação continua em funcionamento e, durante a época alta, passam por ali cerca de 10 comboios por dia. Ainda assim, Alexandra garante que o movimento ferroviário não se tornou um problema para a família nem para quem fica no espaço.
Decisão que começou com um concurso público
A história do casal com o imóvel começou em 2022, quando decidiu concorrer a um concurso público para a aquisição do antigo armazém. Alberto, arquiteto, já tinha experiência e interesse por projetos de transformação de edifícios, mas naquele momento ainda não existia um plano definido para aquele espaço.
“Na altura, nem sequer sabíamos o que é que íamos fazer com o armazém”, contou Alexandra ao portal NiT. A decisão ganhou outra dimensão depois de conhecerem melhor a zona de Tavira. “Quando viemos visitar a região, ficámos completamente apaixonados por este lugar, porque é uma localização muito especial”, acrescentou.
Segundo a mesma fonte, o casal tinha-se mudado para o Algarve em setembro de 2021, instalando-se numa casa em Cabanas de Tavira para acompanhar os trabalhos. As obras começaram no mês seguinte e, em junho de 2022, Alexandra e Alberto já estavam a viver no novo espaço.
Antigo armazém mantém a memória ferroviária
A intervenção não apagou a identidade do edifício. A estrutura principal conservou a linguagem associada à arquitetura ferroviária, incluindo o volume simples, os vãos em arco e a pedra à vista. No interior, porém, o antigo armazém foi completamente convertido numa habitação T2 para o casal e o filho, Henrique, de cinco anos.
Alberto assumiu a componente arquitetónica e escolheu materiais, como madeira, pedra, betão afagado e azulejo manufaturado. Na cozinha, foram utilizados elementos em madeira e bancadas em betão, incluindo uma ilha com tampo de madeira maciça.
A propriedade ganhou também uma segunda utilização. No exterior, foi instalado um contentor marítimo com cerca de seis metros, cuja estrutura foi mantida. O espaço transformado em estúdio recebeu o nome de Luz Retreat e começou a aceitar reservas em junho.
Estúdio junto à linha de comboio
O alojamento dispõe de um quarto com uma abertura envidraçada ao longo de toda a largura e de uma casa de banho compacta. No interior predominam os tons terracota, combinados com pavimento em madeira e caixilharia preta. No exterior existe ainda um tanque destinado aos hóspedes.
A localização pode parecer pouco habitual para quem procura descanso, mas o casal diz ter encontrado vantagens na proximidade da estação. Durante os meses de maior procura, Alexandra calcula que passem cerca de 10 comboios diariamente. Os primeiros circulam pouco depois das seis da manhã e os últimos passam antes das 23 horas.
“O comboio viaja sempre muito devagar”, explicou Alexandra, referindo-se ao impacto do movimento ferroviário. A eletrificação da Linha do Algarve, concluída em julho, terá contribuído também para reduzir o ruído sentido junto à casa.
Retiros e outras atividades fazem parte do projeto
O Luz Retreat não pretende limitar-se ao alojamento. Alexandra, que trabalha na área do bem-estar pessoal e publicou o livro “Até Onde Quer Chegar?” em 2017, pretende desenvolver retiros ao longo do ano, além de organizar iniciativas culturais no espaço.
Estão previstas atividades, como concertos ao ar livre, almoços e jantares de pequena dimensão e apresentações de livros. A partir de setembro, a proprietária pretende começar a preparar retiros individuais com estadias de dois ou três dias.
“Ainda estou a desenhar o formato final, para também trazer algumas pessoas que queiram ficar aqui, mas também com uma estadia mais intencional e ligada ao trabalho que tenho feito durante tantos anos”, explicou.
As estadias no Luz Retreat têm atualmente preços entre 150 e 220 euros por noite. O projeto junta, assim, a recuperação de um antigo edifício ferroviário, a habitação da família e uma atividade de alojamento numa zona do Algarve onde a linha de comboio continua a fazer parte da paisagem diária.
















