Há turistas que gastam 3 mil euros durante uma estadia no Algarve e outros cujo orçamento pode chegar aos 150 mil euros. A diferença está no tipo de férias procurado: nos pacotes mais exclusivos podem entrar jatos privados, alojamento em mansões, chefs particulares, mordomos, segurança e um acompanhamento quase permanente durante toda a viagem.
É neste segmento que trabalha atualmente Anthony Pereira, antigo relações públicas do Liberto’s Club e uma figura conhecida da noite algarvia. Numa entrevista à Flash!, o empresário explicou como trocou a vida noturna pelo mercado do concierge de luxo e defendeu que o Algarve está hoje a atrair clientes com maior poder de compra. “O Algarve não está barato”, afirmou, considerando que esta mudança de perfil “veio para continuar”.
Deixou a noite para ter “uma vida normal”
Anthony Pereira conta que a mudança aconteceu há cerca de 14 anos. Depois de vários anos ligado à noite algarvia, decidiu procurar uma rotina diferente, sobretudo por razões pessoais. “Queria ter uma vida normal, ter uma família, ser pai”, recordou à Flash!. O objetivo concretizou-se e hoje é pai de Salvador Do Mar, de 11 anos. Foi depois dessa mudança que começou a explorar o setor do concierge, um serviço já comum em destinos internacionais associados ao turismo de luxo, mas que, segundo o empresário, tinha ainda pouca expressão no Algarve.
Na sua perspetiva, existia uma oportunidade numa região que recebia milhões de turistas, mas onde os serviços personalizados destinados ao segmento de maior poder de compra eram ainda reduzidos. “O concierge de luxo era uma área onde havia muita falta, e continua a haver”, afirmou, apontando exemplos como Marbella, Formentera, Saint-Tropez, Cannes ou alguns destinos brasileiros, onde este tipo de acompanhamento está mais desenvolvido.
Serviço começa antes de o cliente chegar ao Algarve
O empresário descreve o trabalho que desenvolve através da Do Mar Concierge como um serviço feito à medida. Em vez de vender apenas uma reserva de hotel, um barco ou uma experiência isolada, procura preparar toda a estadia de acordo com as preferências de cada cliente. “Faço o trabalho de concierge ao nível de tailor made, que é como quando no alfaiate mandas fazer um fato à medida”, explicou. O processo começa por conhecer quem vai viajar, perceber o que procura e preparar as diferentes etapas da estadia. Anthony Pereira diz que procura saber antecipadamente os gostos dos clientes e aconselhá-los de acordo com as suas expectativas.
Parte da carteira de contactos nasceu dos anos em que trabalhou na noite, período durante o qual conheceu vários futebolistas portugueses e estrangeiros. Hoje, porém, garante que a procura vai bastante além desse círculo. Entre os clientes refere norte-americanos, irlandeses e franceses que escolhem Portugal e, em particular, o Algarve para passar férias recorrendo a serviços personalizados.
Há férias que podem custar 150 mil euros
Os valores variam significativamente consoante aquilo que o cliente pretende incluir. “Tenho clientes que gastam 3 mil euros e outros que gastam 150 mil euros”, revelou. Nos pacotes mais caros podem estar incluídos voos em jatos privados, segurança, aluguer de mansões, chefs particulares e mordomos, além da organização das diferentes atividades durante a estadia.
Anthony Pereira afirma que este é um segmento que está agora a conseguir captar com maior frequência. Na sua leitura, muitos estrangeiros ainda desconheciam que era possível encontrar no Algarve serviços semelhantes aos disponibilizados noutros destinos internacionais de luxo. O empresário investiu também na presença digital da empresa. Este ano lançou o site da Do Mar Concierge, um projeto que, segundo revelou, custou “dezenas de milhares de euros” e foi desenvolvido por uma empresa internacional que já trabalhou para marcas como Coca-Cola e Adidas. Considera que esse investimento lhe permitiu apresentar o serviço de outra forma e chegar a mercados onde anteriormente tinha mais dificuldade em entrar.
“O Algarve não está barato”
Questionado sobre a perceção de que o verão algarvio estaria mais fraco em 2026, Anthony Pereira apresenta uma leitura diferente. “Toda a gente me pergunta se não acho o Algarve mais fraco. O Algarve não está mais fraco, está mais forte. Está com muito mais qualidade e players mais fortes”, afirmou. Na sua opinião, o que terá diminuído é a presença de uma parte dos consumidores de rendimento médio e médio-baixo, numa altura em que os preços praticados na região são mais elevados.
“O Algarve também não está barato”, acrescentou, defendendo que existe atualmente “menos quantidade de pessoas”, mas uma maior presença de clientes de elevado poder de compra. Para o empresário, trata-se de “uma tendência que veio para continuar”. Esta avaliação corresponde à experiência do empresário no segmento em que trabalha e não significa, por si só, que tenha desaparecido o turismo de massas ou que todos os mercados turísticos da região estejam a evoluir da mesma forma.
Clientes chegam através de outros clientes
No turismo de luxo, diz Anthony Pereira, uma parte importante do negócio é feita através das recomendações. Um cliente satisfeito tende a recomendar o serviço a outras pessoas com hábitos de consumo semelhantes, o que permite aumentar a carteira de clientes sem depender apenas da publicidade. “É ter um cliente bom que veio através do meu website ou de contactos em que são eles próprios que passam a palavra”, explicou.
É também por esse motivo que o empresário diz preferir trabalhar com um número mais reduzido de clientes, acompanhando toda a estadia, em vez de se limitar a organizar serviços individuais. “Prefiro trabalhar com 20 clientes bons”, afirmou, explicando que procura assumir a responsabilidade pela viagem desde a chegada ao destino até ao momento da partida.
Algarve ainda tem falta de serviços para o segmento premium
Apesar de considerar que o Algarve está a receber turistas com maior capacidade financeira, Anthony Pereira reconhece que a oferta de serviços ainda não acompanha totalmente esse mercado. “É muito curto o serviço no Algarve. Nós temos muita falta de serviço”, afirmou à Flash!, defendendo que a região poderia captar ainda mais clientes de luxo se existissem mais empresas e profissionais preparados para responder às exigências deste segmento.
Na sua opinião, não basta ter hotéis, moradias ou restaurantes de gama alta. Este tipo de turista procura também rapidez de resposta, disponibilidade, privacidade e capacidade para resolver pedidos fora do habitual. Durante os meses de maior procura, o empresário diz chegar a estar disponível cerca de 20 horas por dia, precisamente porque muitos pedidos surgem já durante a estadia.
Pedidos “quase impossíveis” fazem parte do trabalho
Algumas dessas solicitações obrigam a encontrar soluções em pouco tempo. Anthony Pereira afirma conseguir concretizar “99%” dos pedidos inesperados que considera quase impossíveis, recorrendo à rede de parceiros que foi construindo. A preparação começa, ainda assim, antes da chegada. Diz estudar os gostos de quem contrata o serviço, conversar previamente com os clientes e reunir informação que permita antecipar aquilo de que poderão precisar.
É essa personalização que considera essencial para criar confiança e garantir que o mesmo cliente regressa ou recomenda o serviço. O empresário pretende agora continuar a reforçar a rede de parceiros durante o inverno, procurando aumentar a oferta disponível para o segmento de maior poder de compra. Para Anthony Pereira, o crescimento deste mercado mostra uma transformação na procura turística do Algarve: menos centrada apenas no número de visitantes e com espaço crescente para estadias de elevado valor.















