A toma prolongada de certos medicamentos usados contra azia e refluxo pode estar associada a um aumento do risco de demência. É essa a conclusão de vários estudos recentes, que apontam os inibidores da bomba de protões (IBP) (como o omeprazol, o esomeprazol e o lansoprazol), como possÃveis intervenientes na degradação da função cognitiva ao longo do tempo. Segundo o boletim de monitorização do consumo de medicamentos do Infarmed referente a 2023, publicado em 2024, foram dispensadas 7,3 milhões de embalagens de IBP em Portugal, uma subida face à s 7,1 milhões registadas em 2022.
O omeprazol permanece no grupo dos cinco medicamentos mais prescritos no paÃs.
Estudos ligam o uso prolongado ao Alzheimer
Um estudo dinamarquês publicado na revista Alzheimer’s & Dementia analisou dados de quase dois milhões de pessoas com idades entre os 60 e os 75 anos, acompanhadas ao longo de uma década. Os resultados indicam que os indivÃduos entre os 60 e os 69 anos que tomaram IBP apresentavam um risco 36 % superior de desenvolver demência, em comparação com os que não fizeram uso destes medicamentos. A associação foi mais ténue nas faixas etárias mais avançadas.
Segundo os investigadores, este risco acrescido verificou-se mesmo quando os IBP tinham sido tomados até 15 anos antes do diagnóstico de demência. A suspeita recai sobre o possÃvel efeito destes fármacos na acumulação da proteÃna beta-amiloide, associada à doença de Alzheimer, e sobre a sua influência na função cerebral a longo prazo.
Outros trabalhos confirmam os alertas
Um estudo publicado em 2023 na revista Neurology reforça estes dados: os doentes que usaram IBP por mais de 4,4 anos tinham um risco de demência aumentado em cerca de 33 %.
Já um artigo da Scientific Reports, de 2019, refere que os IBP atravessam a barreira hematoencefálica, o que pode justificar sintomas neurológicos como perda de memória, enxaquecas, neuropatias periféricas e alterações visuais.
Especialistas recomendam cautela
A Yale Medicine alerta para outros efeitos adversos do uso prolongado destes fármacos, incluindo insuficiência renal crónica, problemas cardiovasculares, fraturas ósseas e défices de nutrientes essenciais como a vitamina B12.
Por isso, apesar de eficazes e seguros quando usados corretamente, os IBP não devem ser tomados por longos perÃodos sem reavaliação médica. O Infarmed recomenda consultas regulares para garantir que o tratamento é necessário e está ajustado à condição do doente.
O que fazer se toma omeprazol (ou outro IBP)
Caso esteja a tomar algum destes medicamentos, o ideal é discutir o plano terapêutico com o seu médico. Em alguns casos, ajustes na dieta, mudanças no estilo de vida ou outras classes de fármacos podem ser suficientes para controlar os sintomas gástricos sem recorrer ao uso prolongado dos IBP.
Além disso, é importante usar a menor dose eficaz e evitar o uso contÃnuo por mais de algumas semanas, salvo indicação médica expressa. A monitorização da função renal, dos nÃveis de vitamina B12 e da saúde óssea também deve ser considerada em doentes em tratamento prolongado.
A importância da vigilância
Num paÃs onde se dispensam mais de sete milhões de embalagens destes medicamentos por ano, os alertas da comunidade cientÃfica não podem ser ignorados. Se tomados em excesso ou durante demasiado tempo, estes fármacos aparentemente inofensivos podem esconder riscos reais para a saúde neurológica. Falar com um profissional de saúde é o primeiro passo para garantir que o tratamento continua a ser mais benéfico do que prejudicial.
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