Há frases que, de tão singelas, merecem ser cuidadosamente observadas, como certos objetos antigos encontrados num sótão e cuja aparente simplicidade esconde mecanismos de admirável complexidade. Uma delas foi recentemente proferida pelo advogado Saragoça da Matta na CNN, a propósito de uma manifestação contra a crise da habitação: «Uma coisa é uma manifestação de cidadãos, outra coisa é uma manifestação política encapotada de uma manifestação de cidadãos.»
A frase possui o encanto das grandes descobertas científicas. De repente, ficámos a saber que os cidadãos podem manifestar-se enquanto cidadãos, mas não enquanto seres políticos. Podem sair à rua, empunhar cartazes, erguer palavras de ordem, protestar, reclamar, indignar-se, desde que tudo isso seja feito numa espécie de vazio metafísico, sem qualquer relação com a política.
Ora, a questão apresenta-se imediatamente ao espírito mais modesto. Quando milhares de pessoas protestam contra a falta de habitação, contra rendas incomportáveis, contra o preço das casas ou contra opções do poder público, sobre o que estarão exatamente a falar? Sobre botânica? Sobre a reprodução das baleias azuis? Sobre a influência da lua nas marés?
Não. Estão a discutir decisões coletivas, prioridades governativas, escolhas legislativas e políticas públicas. Estão, portanto, a discutir política.
Sucede que, nos nossos tempos, parece ter-se instalado uma curiosa adulteração semântica. Política passou a ser sinónimo de partidário. E, a partir daí, nasceu uma estranha ficção: tudo aquilo que não é organizado diretamente por um partido deixa de ser político, ainda que incida sobre os mais relevantes assuntos da vida em comum.
É um raciocínio singular.
Quando cidadãos exigem melhores hospitais, não estarão a fazer política. Quando reclamam melhores escolas, também não. Quando protestam contra a criminalidade, contra os impostos ou contra a falta de habitação, igualmente não. Política, aparentemente, só começa quando surge um político profissional diante das câmaras de televisão.
A própria origem da palavra parece, entretanto, ter-se tornado inconveniente. A política nasceu da polis, da cidade, da vida comum, da participação dos cidadãos nos assuntos coletivos. Mas chegámos ao admirável ponto em que a política já não pertence aos cidadãos. Pertence aos especialistas.
O cidadão ideal parece ser aquele que trabalha, paga impostos, vota de tempos a tempos e regressa depois ao conforto da sua irrelevância cívica. É um cidadão exemplar enquanto permanece calado. Porém, no instante em que decide questionar o poder, organizar-se com outros, ou exigir mudanças, uma suspeita paira imediatamente sobre ele. Já não será um cidadão. Será um agente político.
Como se as duas condições fossem incompatíveis.
É claro que uma manifestação pode ser instrumentalizada por partidos. Pode até acontecer que alguns procurem dela retirar dividendos políticos. Tal sucedeu sempre e continuará a suceder. Mas essa circunstância não altera a natureza do protesto.
Uma manifestação de cidadãos não deixa de ser uma manifestação de cidadãos por abordar questões políticas. Pelo contrário: é precisamente porque é uma manifestação de cidadãos que é inevitavelmente política.
Aliás, o contrário seria bem mais inquietante. Significaria admitir que a política é um território reservado a uma casta de iniciados, onde apenas profissionais credenciados têm direito de intervenção. Aos restantes caberia apenas a função decorativa de eleitores periódicos.
É uma visão da democracia confortável para alguns, mas embaraçosa para a própria democracia.
No fundo, a tal frase acaba por revelar, involuntariamente, um equívoco muito difundido no nosso espaço público. Quando se diz que uma manifestação de cidadãos se tornou uma manifestação política, o que muitas vezes se pretende dizer é que ela se tornou incómoda.
Enquanto os cidadãos permanecem resignados, são celebrados como cidadãos. Quando começam a influenciar o debate público, passam a ser acusados de fazer política.
Ora, numa democracia saudável, essa acusação deveria ser recebida como um elogio.
Porque a política, no seu sentido mais nobre, não é o monopólio dos políticos.
É a responsabilidade dos cidadãos. E é precisamente quando os cidadãos a assumem que a democracia deixa de ser apenas um regime e passa a ser uma realidade viva.
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