Sempre imaginei, talvez por uma dessas ilusões que a vida nos permite conservar até tarde, que um homem de 87 anos pudesse morrer de idade. Acontece. A idade é uma doença sem cura, embora tenha a vantagem de ser, em princípio, uma longa viagem. Mas este homem, ao que sabemos, não morreu propriamente de idade. Morreu à espera. E há qualquer coisa de profundamente obsceno quando a morte, em vez de chegar pela porta da inevitabilidade, entra pela porta das urgências.
Foi no Hospital de Portimão. Poderia ter sido noutro qualquer. O drama, infelizmente, já não conhece fronteiras geográficas. O Serviço Nacional de Saúde parece ter-se transformado num território onde a malfadada doença chega depressa e a assistência vem devagar. Às vezes tão devagar que a morte, essa ceifeira sem horário nem necessidade de marcação, acaba por chegar primeiro.
Não conheço o processo clínico, ignoro as circunstâncias concretas, desconheço o que aconteceu dentro daquela urgência. Seria intelectualmente desonesto apontar culpados antes de se apurarem os factos. Mas a prudência não pode servir de anestesia à indignação. Há perguntas que não precisam de autorização administrativa para serem feitas: como foi possível uma espera daquela dimensão? Que triagem foi realizada? Quem acompanhou aquele homem? Que sinais clínicos foram reconhecidos? E, sobretudo, que falhou para que alguém, aos 87 anos, pudesse permanecer tantas horas à espera de uma assistência que procurava precisamente para continuar vivo?
Há mortes que pertencem à natureza. Outras começam a adquirir uma inquietante familiaridade com as falhas da organização humana.
E há ainda uma questão que me atravessa o pensamento, talvez mais incómoda do que todas as outras: que fazemos nós com os nossos velhos quando eles começam a dar trabalho à vida?
Mandamo-los para os hospitais. Por vezes, os hospitais parecem ter-se transformado no último endereço de uma sociedade que já não sabe muito bem onde colocar a velhice. Talvez porque morrer num lar seja uma notícia desconfortável, uma sombra sobre a instituição, uma espécie de publicidade que ninguém deseja. No hospital, porém, a morte ganha outra aparência: fica entregue à linguagem clínica, aos relatórios e às explicações técnicas. A morte deixa de parecer uma falha do cuidado e passa a ser uma ocorrência. Tem número, processo, hora e, se necessário, comunicado.
É uma forma criativa de nos livrarmos do incómodo: institucionalizamos a morte para não termos de olhar demasiado tempo para ela.
Também nós nos vamos habituando. A morte entrou no quotidiano urbano como entram os avisos meteorológicos ou as notícias sobre o trânsito. Lemos, franzimos a testa, lamentamos durante alguns segundos e seguimos viagem. Um idoso morreu numa urgência. Que tristeza! Mais uma vez o SNS. Amanhã haverá outra notícia, depois outra, e a anterior começará a perder a sua capacidade de ferir-nos. A repetição faz aquilo que nenhuma ideologia conseguiria fazer com tanta eficácia: ensina-nos a normalizar o inaceitável.
Até o luto parece ter entrado na era da gestão. Queremos sofrer, mas sem perturbar demasiado a agenda. A dor tornou-se qualquer coisa a administrar, de preferência em doses moderadas. Há comprimidos para dormir, para esquecer, para suportar a ausência. Não condeno quem os toma; cada pessoa encontra como pode a sua maneira de sobreviver à perda. Mas inquieta-me esta cultura que parece querer eliminar não apenas a dor, mas também o tempo necessário para compreender o que nos aconteceu.
A morte de um homem de 87 anos deveria fazer-nos parar. Não por ter sido velho, mas porque seria suposto que a idade não lhe retiraria nenhum dos seus direitos. A velhice não é uma licença para esperar mais. Não é uma categoria clínica de menor urgência moral. Não é uma espécie de pré-aviso de morte que permita à sociedade encolher os ombros e murmurar que, afinal, já tinha vivido bastante.
A vida não perde valor à medida que os aniversários se acumulam. Pelo contrário: é precisamente quando o corpo se torna mais frágil que a obrigação de cuidar se torna mais exigente.
E aproxima-se o inverno. Caem as folhas, arrefecem as noites, regressam as infeções respiratórias, agravam-se as doenças crónicas. Nada disto constitui uma surpresa. O calendário não é um fenómeno meteorológico imprevisível. Todos os anos o inverno chega, como chegam as gripes, as pneumonias e a fragilidade acrescida de quem já traz no corpo muitas décadas de vida. Se os serviços de saúde conhecem esta realidade, não podem continuar a ser surpreendidos por aquilo que se repete com a pontualidade das estações.
A falta de profissionais, a pressão sobre as urgências, a escassez de recursos e as dificuldades de organização são problemas reais. Mas há um momento em que a enumeração das dificuldades deixa de explicar e começa a desculpar. E não podemos aceitar que a falta de meios se transforme numa espécie de salvo-conduto para a insuficiência dos cuidados. Um sistema de saúde não se mede apenas pelo número de camas, pelas estatísticas de atendimento ou pelas declarações dos responsáveis. Mede-se, sobretudo, pela forma como trata aqueles que menos condições têm para esperar.
Um homem de 87 anos não deveria precisar de ser jovem para merecer assistência. Nem deveria ter de demonstrar que ainda tem muito futuro pela frente para que alguém considere urgente cuidar dele.
É por isso que este caso exige um apuramento rigoroso, transparência e, se forem identificadas falhas, a assunção das respetivas responsabilidades. Não basta lamentar. Não basta anunciar inquéritos, produzir declarações de circunstância e aguardar que a próxima notícia possa empurrar esta para o esquecimento. É necessário perceber o que aconteceu e, sobretudo, impedir que volte a acontecer.
Mas talvez o mais perturbador não esteja apenas no que aconteceu naquela urgência. Está também no que acontece cá fora, entre nós, quando começamos a considerar normal que um velho espere até que a morte lhe dispense a espera.
Há uma crueldade silenciosa nesta espécie de contabilidade da existência: os mais novos têm pressa de viver, os mais velhos têm de esperar para serem cuidados. E, no fim, todos somos convidados a aceitar a explicação de que o sistema está sob pressão. Como se a vida humana fosse uma variável de ajustamento orçamental. Como se a fragilidade tivesse de aprender a fazer fila.
Não sei se aquele homem morreu por causa de uma falha hospitalar. Não sei se uma assistência mais rápida teria alterado o desfecho. Isso cabe a quem tem competência para investigar e determinar. Sei, porém, que uma sociedade que não consegue explicar com clareza por que razão um cidadão de 87 anos esperou tantas horas por cuidados médicos tem uma obrigação que não pode adiar: olhar para si própria.
Porque os velhos de hoje são os jovens que fomos. E os jovens de hoje serão, se a vida lhes conceder esse privilégio, os velhos de amanhã.
Os vivos que se cuidem, portanto. E que não tenham demasiada pressa de envelhecer. Neste país, a idade parece já não ser apenas uma condição da vida: começa a transformar-se numa circunstância de risco.
No Hospital de Portimão, a morte poderá ter chegado sem que saibamos ainda porquê. Mas há uma outra morte, mais lenta, que já anda por aí: a da nossa capacidade de nos indignarmos. E essa, ao contrário da primeira, não precisa de urgência. Vai morrendo aos poucos, cada vez que nos habituamos à ideia de que alguém pode morrer à espera de ser tratado.
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